Nova geração política da ilha surge com sede de informação

Líderes pós-revolução preparam-se para herdar controle de Cuba com visão ideológica muito mais aberta do que a de seus pais

Manuel Roig-Franzia, THE WASHINGTON POST, CIDADE DO MÉXICO, O Estadao de S.Paulo

23 de fevereiro de 2008 | 00h00

Eles viajaram pelo mundo. Surfaram na Web. Trocaram mensagens de texto. E assistiram a noticiários da BBC e da CNN diretamente e não filtrados por algum censor governamental.Bombardeados por idéias do exterior, uma geração de líderes políticos cubanos que se tornou adulta depois da revolução de 1959 de Fidel Castro está se preparando para herdá-la. Muitos deles, agora na faixa dos 40 e 50 anos, desenvolveram uma visão política mais aberta que seus pais, em parte porque o próspero mercado negro de conexões de internet ilegais em Cuba lhes abriu uma janela para o mundo. Resta ver como o irmão de Fidel, Raúl Castro, de 76 anos, que deve ser nomeado presidente hoje, integrará a próxima geração em seu governo. Para analistas estrangeiros, dadas as experiências pessoais desses jovens líderes - especialmente da elite, que tem mais privilégios do que a população em geral -, eles poderão abrir-se ainda mais ao fluxo de informações e idéias de fora. "Veremos uma mudança de estilo com essa nova geração", disse Manuel Cuesta, dissidente cubano. "A sociedade cubana - os poderosos e os cidadãos em geral - tem mais informação. E as pessoas estão questionando mais."Fidel, que está com 81 anos e doente, abriu um raro momento de incerteza política em Cuba quando renunciou, na semana passada, depois de quase cinco décadas no poder. Ele e Raúl representam a geração conhecida como os "históricos", aqueles que chegaram ao poder por seu apoio ativo à revolução desde seus primórdios. Os que lutaram com os Castros nas montanhas da Sierra Maestra tiveram tradicionalmente um status especial. Mas muitos "históricos" morreram ou caíram em desgraça, cedendo lugar a uma nova geração de cubanos para os quais a revolução é apenas um conceito. Mudanças demográficas trouxeram novas figuras para o sistema político estratificado de Cuba, e mais de 70% da população cubana atual nasceu após a revolução.TRANSIÇÃOO ministro das Relações Exteriores, Felipe Pérez Roque, de 42 anos, pertence a essa geração. Ele foi o primeiro cubano nascido após a revolução a ser nomeado para o gabinete, e nos últimos 19 meses serviu sob Raúl no governo interino. Como Raúl tem 76 anos - e já teria problemas de saúde -, muitos especialistas em Cuba consideram seu mandato como de transição. Pérez Roque e o vice-presidente Carlos Lage, que tinha 7 anos quando os Fidel declarou vitória, são os principais candidatos fora da família Castro para comandar o país. Espera-se que ambos mantenham postos de liderança quando a Assembléia Nacional escolher hoje o novo chefe de Estado. Outros líderes cubanos que já foram considerados possíveis sucessores dos Castros - como o presidente da Assembléia Nacional, Ricardo Alarcón, de 70 anos, e o ex-ministro do Interior Ramiro Valdés, de 75 - agora estão pouco cotados para assumir o posto mais alto.EMERGENTESAbaixo das elites existe uma vasta rede de líderes políticos regionais. Nos últimos anos, os Castros começaram aumentar o número de líderes emergentes em ramificações provinciais do Partido Comunista para ampliar seu apelo às gerações jovens, segundo Rafael Hernandez, editor da revista cubana Temas. "É com freqüência uma pessoa jovem, e muitas vezes uma pessoa negra ou uma mulher", disse Hernandez.Aos 56 anos, Lage é o mais velho da nova onda de figuras políticas cubanas e um dos mais influentes. Ele trabalhou com Raúl para abrir a economia de Cuba a investimentos estrangeiros nos anos 90 quando o país mergulhou numa depressão econômica depois do desmoronamento de sua maior benfeitora, a União Soviética.Os cubanos gostam de brincar que Lage pode pôr uma audiência para dormir com um discurso mais rapidamente do que qualquer outro. Pediatra por formação, ele é uma figura pouco ameaçadora, é mais um contador discreto do que um rebelde ardoroso. O filho de Lage, Cesar Lage, também é considerado um astro político em ascensão. Até recentemente, ele era o presidente da Federação de Estudantes Universitários de Cuba, um posto de prestígio que o próprio Fidel chegou a cobiçar um dia, mas jamais conquistou. O jovem Lage jogou um papel na recente controvérsia sobre vídeos postados na internet mostrando estudantes universitários se queixando das restrições a viagens e ao uso da internet durante uma sessão de críticas sancionada pelo governo. Ele teria persuadido um dos estudantes a fazer uma declaração posterior, dizendo que queria aprimorar o socialismo, não acabar com ele.Anos antes de Cesar tornar-se presidente da associação, o posto havia sido um trampolim para Pérez Roque. Enquanto presidia o grupo, ele impressionou de tal maneira Fidel que este o nomeou seu chefe de gabinete e assessor pessoal. O jovem Pérez Roque tornou-se uma força nos bastidores, o guardião do acesso a Fidel, alguém que, se acredita, teria a salvaguarda dos diários pessoais do líder.Pérez Roque foi nomeado chanceler em 1999 quando Fidel destituiu Roberto Robaina, um moderado de trinta e tantos anos que usava cabelos longos e parecia deslocado entre os "dinossauros" ligados a Fidel. Pérez Roque surgiu rapidamente como um dos defensores mais ferrenhos das políticas de Fidel. Ecoando um dito popular cubano, o dissidente Cuesta disse que ele tem sido "mais parecido com o papa do que o próprio papa" no sentido de sua lealdade à doutrina de Fidel. SUCESSORES FAVORITOSFELIPE PÉREZ ROQUE - Ministro do Exterior, Pérez Roque, de 42 anos, é considerado protegido de Fidel Castro. O chanceler é apontado ainda como um dos políticos mais fiéis às idéias do líder cubano. Repete o vocabulário e adota o mesmo tipo de oratória usado por Fidel nos discursos públicos, censurando os males do capitalismo nos fóruns internacionais. Baixinho, com voz grave e adepto de ternos bem cortados, Pérez Roque é visto pelos cubanos como uma pessoa afável.CARLOS LAGE - Premiê de fato, Lage iniciou sua carreira política como líder estudantil, subindo nas fileiras da União dos Jovens Comunistas. Em 1976, ingressou no partido e, após quatro anos, tornou-se membro do Comitê Central. Pediatra de profissão, Lage, de 56 anos, integrou a equipe de apoio e coordenação de Fidel entre 1987 e 1992. Foi responsável pelo pacote de reformas para evitar o colapso da economia fortemente centralizada de Cuba, após o fim da União Soviética em 1991.

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