Nova história judaico-polonesa

Milhares de poloneses desenterraram discretamente suas próprias raízes judaicas

TIMOTHY , GARTON ASH, ESPECIAL, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2014 | 02h00

Mir zaynen do! ("Nós estamos aqui!"). O desafiador refrão iídiche de uma canção revolucionária judaico-polonesa, escrita nos dias sombrios da 2.ª Guerra, ressoa à luz do dia invernal, ecoando entre um sóbrio monumento aos heróis do levante do Gueto de Varsóvia e o reluzente Museu da História dos Judeus Poloneses, novo em folha.

As palavras são faladas, com emoção, por uma sobrevivente judia polonesa de Auschwitz, Marian Turski, que permaneceu na Polônia após a guerra. Aqui, ainda aqui ou aqui de novo, onde tanta vida judaica europeia foi vivida por tantos séculos. Se um arrepio não percorrer sua espinha num momento como esse, tem algo de errado com a sua espinha.

Depois de entrarmos no museu por um enorme cânion sinuoso de arenito concebido pelo arquiteto para relembrar a abertura do Mar Vermelho por Moisés, descemos por uma escada espiral de mármore e encontramos uma exposição multimídia que documenta mil anos de história dos judeus poloneses. O Holocausto está lá, é claro, mas a história não começa ou termina com ele.

Para alguém que conhece um pouco da tortuosa história das relações judaico-polonesas desde a 2.ª Guerra, esse evento parece um pequeno milagre. Antes de viajar à Polônia pela primeira vez, há 35 anos, visitei uma pequena livraria no centro de Londres para comprar alguns livros sobre o país. "Por que raios você quer ir para lá?", perguntou o livreiro, que depois recitou algumas palavras iídiches de sua mãe judia polonesa que se traduziam como "por que você iria à terra amaldiçoada?".

Se eu recebesse US$ 1 para cada vez que uma conversa casual no Ocidente sobre a Polônia recaísse em poucos minutos no antissemitismo polonês, seria um milionário. No entanto, também se recebesse 1 para cada vez que tenho ouvido ou lido na Polônia algum pedaço de negação ressentida sobre a verdadeira extensão do antissemitismo polonês, antes, durante e depois da 2.ª Guerra, também seria um homem rico.

Agora, chegamos a esse quase inimaginável lugar melhor nas relações entre - e o entrelaçamento histórico, cultural e individual de - poloneses e judeus. Por que ele surgiu? Primeiro, pelos esforços de mulheres e homens de boa vontade que durante décadas explicaram, muitas vezes a ouvidos surdos, que só podemos superar esses estereótipos hostis quando compreendermos a plena complexidade histórica.

Segundo, graças à liberdade que a Polônia alcançou há 22 anos. Somente quando a Polônia deixou de ser, ela própria, uma vítima da história - presa atrás da "cortina de ferro", sob domínio soviético, apesar das promessas vazias de aliados ocidentais e de suas próprias lutas contra dois totalitarismos - uma parte maior da sociedade polonesa pôde começar a enfrentar a verdade excruciante de que uma vítima pode também ser um algoz. Pois uma parte da sociedade polonesa, com toda certeza, provocou a morte de judeus em ataques durante e logo após a guerra e em um espasmo final de ódio manipulado pelos comunistas, em 1968.

Essa psicologia de negação não é exclusiva da Polônia. Hoje, por exemplo, boa parte da sociedade israelense, aparentemente, tem dificuldade de enfrentar sua própria e excruciante verdade. O fato de que os judeus foram as maiores vítimas da barbárie genocida europeia no século 20 - algo que nenhum europeu deveria esquecer - não significa que os israelenses não estejam eles próprios provocando a morte de palestinos hoje. Há importantes diferenças, é claro, entre os casos polonês e israelense, mas a questão geral se sustenta: vítimas históricas também podem ser algozes.

Esse muito adiado confronto polonês com seu próprio passado difícil tem sido turbulento. No entanto, a verdade não foi abordada somente com enfrentamentos polêmicos. Milhares de poloneses desenterraram discretamente suas próprias raízes judaicas. Jovens poloneses, sem nenhuma raiz judaica, redescobriram a rica herança da cultura judaico-polonesa - publicando livros, montando exposições, organizando debates.

É impossível dizer com certeza quantos judeus vivem hoje na Polônia, até porque deve caber a cada indivíduo decidir se ela ou ele se identifica como judeu, judaico, "de origem judaica" ou nenhuma das acima.

Apesar de um censo de 2002 situar o número dos que se identificaram como de nacionalidade judaica (sem lhes ser dada a opção de especificar tanto a polonesa como a judaica) em apenas 1,1 mil, em 2011, ele registrou cerca de 2 mil pessoas que listaram judaica como sua primeira identidade "étnica-nacional" e outros 5 mil que cravaram judaica como sua segunda identidade.

As estimativas não oficiais variam de 10 mil a 100 mil. Isso não inclui os cerca de 20 mil israelenses que adotaram a cidadania polonesa - e, portanto, têm pleno acesso a toda a União Europeia -, mas que, geralmente, não vivem na Polônia. De modo que ninguém sabe com certeza. O refrão "nós estamos aqui", porém, é claramente mais verdadeiro hoje do que foi por longo tempo.

Não tenhamos ilusões. Ainda há léguas exaustivas a percorrer nessa longa e acidentada estrada e, provavelmente, haverá novas atitudes agressivas no futuro. Apesar de tudo isso, a digna abertura do museu significa que a estrada atingiu um cume do qual podemos avistar um novo horizonte: não a terra prometida, com certeza, mas certamente não mais uma terra amaldiçoada. Quanto a mim, jamais esquecerei aquele refrão de arrepiar a espinha ecoando à luz do dia invernal em Varsóvia: Mir zaynen do! / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS NA UNIVERSIDADE OXFORD

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