Rodrigo Cavalheiro/Estadão
Fiéis começam a lotar em Buenos Aires o ônibus 186 para a 'excursão da fé' ao paraguai; papa evita a argentina, mas nao os argentinos Rodrigo Cavalheiro/Estadão

Na estrada, para ver o papa compatriota

Argentinos rodam 1.380 quilômetros de ônibus em busca da bênção de Francisco

Rodrigo Cavalheiro , Enviado especial a Caacupé, Paraguai

12 de julho de 2015 | 09h36

A aposentada argentina Juana Alvides termina neste domingo no Paraguai uma viagem iniciada em 13 de marco de 2013. Ela cozinhava sua especialidade, carne de panela, quando ouviu na TV alguém dizer "fumaça branca".

Desligou o fogo, foi até a sala e descobriu que entendia latim quando começou a chorar. Um cardeal pronunciara Georgius Marius Bergoglio, arcebispo que ela conhecia das missas na catedral de Buenos Aires. Desde que ele adotou o nome Francisco e telefonou para seu entregador de jornais avisando que não voltaria à Argentina, não voltou mesmo.

A principal razão é política: a eleição de outubro que substituirá sua antiga desafeta Cristina Kirchner. A proximidade entre a terra natal e seu último destino latino-americano, entretanto, fez com que boa parte da Argentina fosse até ele, de carro ou ônibus, em horas ou dias de viagem.

Uma dessas "excursões da fé", cujo ônibus era identificado pelo número 186 na lataria, deixou Buenos Aires às 22h23 de quinta-feira. Meia hora depois, Agustín Fernández, um dos 40 passageiros, abençoava a viagem.

"Alguns aqui viram Bergoglio de perto, mas isso será outra coisa. Ver um papa já causa um sentimento diferente e esse é um argentino", afirmou o padre, que conheceu um Bergoglio sério e rígido na Basílica de Luján, principal santuário católico argentino. A versão piadista e informal apresentada por Francisco é atribuída por Fernández, primeiro, ao "Espírito Santo". "Também acho que era uma forma de evitar puxa-saquismo. Ele era o chefe e mostrava assim que não tinha preferidos", opinou. A versão papal de Bergoglio tem surtido efeito no retorno de fiéis, segundo o padre. Em sua paróquia alguns que passaram 30 anos sem se confessar dizem ter voltado à Igreja pelas palavras do conterrâneo. Questionados se viajariam para o Paraguai se o papa fosse um brasileiro, só dois passageiros disseram que não.

Nos 1.380 quilômetros até Caacupé, onde neste sábado Francisco rezou sua penúltima missa antes da volta a Roma, a viagem do ônibus foi praticamente contínua - jantar (purê com carne) e café (suco com alfajor) foram servidos durante o trajeto. Houve três paradas em postos de gasolina para uso do banheiro e, principalmente, recarga de água quente para as térmicas para o mate. Uma das interrupções ocorreu na Província de Corrientes, sob chuva, no local em que os argentinos pagam promessas ao Gauchito Gil, uma santo popular, não reconhecido pelo Vaticano. 

Às 16 horas de sexta-feira, quatro horas depois do previsto, o grupo chegou ao hotel em Formosa, na fronteira com o Paraguai. Dali, passou ao lado paraguaio para ver a missa e voltar. A hospedagem do lado paraguaio, em razão dos impostos, tornaria o pacote mais caro, explicou o organizador da excursão, Juan Carlos Ferreyra. No sábado, o grupo repetiria o esquema para a missa deste domingo.

Juana, de 71 anos, conseguiu um lugar no disputado ônibus graças a uma mania antiga: colecionar notas de peso cuja dezena final da numeração coincide com a inicial. "Quebrei o porquinho", explicou, referindo-se ao envelope de onde tirou 5 mil pesos (R$ 1.729) para bancar a viagem de cinco dias para ver duas missas de Francisco no Paraguai. Quando chegar a Buenos Aires, terá percorrido 3 mil quilômetros (um terço da distância entre Roma e Assunção). "No ano passado tive um AVC que deixou algumas sequelas. Minha filha não queria que eu viesse, mas estou me sinto ótima", afirmou meio rindo, meio chorando. Nas telas retráteis do ônibus de dois andares, passava um documentário sobre Francisco. Professora de italiano, Susana Rossi, assistia às primeiras palavras como pontífice e dizia: "Como ele melhorou a pronúncia".

Ao lado de Juana, o cabeleireiro Luis Almarás, de 53 anos, gastou o equivalente ao que ganha com 36 cortes (140 pesos cada um, R$ 48) para ver Francisco. "Estava ouvindo uma rádio chamada Disney quando interromperam para dizer habemus papa. Claro que temos orgulho por ser um argentino. Foi como se alguém da família tivesse conquistado algo". Almarás fechou o salão e foi viajar. Ele tem mais liberdade para viajar desde a morte do marido, com quem viveu 26 anos, dos 17 aos 43. "Não cometi nenhum pecado, para mim o único pecado é não ser feliz", sustenta. 

As irmãs Laura e Antonela Ciancio, de 30 e 18 anos, viajavam diante de Juana e Almarás, na primeira fila do segundo andar do veículo, onde uma bandeira argentina com a cara do papa ajudava a identificar o ônibus. A mais nova, que tem Síndrome de Down, organizou a viagem da dupla. "Ela que teve a ideia e entrou em contato com a agência", dizia Laura.

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Se Francisco perdoou Cristina, seus fiéis não

Se nos bairros mais pobres da região metropolitana de Buenos Aires é difícil encontrar quem se atreva a opinar contra a presidente Cristina Kirchner, em um ônibus de fiéis à Igreja - e mais ainda ao papa Francisco - ocorre o contrário. </p>

Rodrigo Cavalheiro , Enviado especial a Caacupé, Paraguai

12 de julho de 2015 | 09h31

Uma eleição com esses eleitores teria uma vitória absoluta da oposição argentina. Entre os 40 passageiros do veículo que terá percorrido 3 mil quilômetros ao regressar a amanhã a Buenos Aires, era comum ouvir referências a uma "nova ditadura", enquanto um documentário mostrava a vida de Francisco durante o regime militar, entre 1976 e 1983. A presidente é acusada pela oposição de manter um governo autoritário, com avanço do Executivo sobre os demais poderes.

Cristina enfrentou o líder católico quando ele era arcebispo na capital argentina, recusando-se a recebê-lo. "Por baixo da camiseta branca do papa, trouxe uma do Macri para ele benzer", disse Rosa Romero, de 73 anos, referindo-se a Mauricio Macri, prefeito de Buenos Aires, o principal candidato opositor contra o favorito, o governista Daniel Scioli, na eleição presidencial de outubro. "Não gostamos dela, mas ela tem seu público. Dizer que há mais pobre na Alemanha do que na Argentina é muita arrogância." 

"Uma de suas particularidades é que ele sempre falou o que pensava. Por isso, irritava muitos. Esse governo estendeu o vale-tudo à religião", criticou a corretora Matilde Vallejos, também passageira do ônibus.

De acordo com a biógrafa italiana Francesca Ambrogeti, que realizou dezenas de entrevistas com Francisco para uma biografia quando ele ainda era arcebispo da capital argentina, a relação entre os dois melhorou nos últimos anos. "Ele deixou claro que nunca foi um opositor. Eles já tiveram vários encontros e ele faz questão de deixar a porta aberta, porque prega pelo exemplo", diz Francesca.

"Cristina era contra o papa. E olha como ele mostra seu grande amor pelas pessoas. Ele perdoou até Cristina, que lhe negou várias audiências quando ele era arcebispo", afirmou a passageira Maria Rosa Toledo.

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