TV Estadão | 03.09.2015
TV Estadão | 03.09.2015

Jamil Chade ENVIADO ESPECIAL / WELS, ÁUSTRIA, O Estado de S. Paulo

06 Setembro 2015 | 07h00

Mais de quatro anos depois da eclosão da guerra civil da Síria, os ecos dos canhões chegam até a Europa, na figura de milhares de refugiados de um conflito que não dá sinais de terminar. Pela primeira vez em décadas, a população europeia está sendo obrigada a se deparar com cenas de refugiados, muitos deles famintos, exaustos, sujos e desesperados. 

Se na Grécia, Macedônia, Sérvia e Hungria, confrontos foram registrados nos últimos dias entre os refugiados e as polícias locais, na Alemanha e em outras partes do continente, são as autoridades e ONGs que se apressam para encontrar escolas vazias, atendimento médico e dinheiro em uma mobilização inédita para lidar com a crise. 

“Os efeitos da guerra na Síria hoje estão na Europa e esse conflito terá um impacto aqui também”, afirmou ao Estado o secretário-geral do Conselho da Europa, Thorbjorn Jagland. “A partir de agora, a guerra da Síria também é um assunto europeu e é incrível que até hoje o Conselho de Segurança da ONU não tenha atuado”, disse. 

Por mais que a ONU tenha alertado que o conflito é a maior crise humana em décadas e já matou mais de 230 mil pessoas, nenhuma solução política foi encontrada. O mapa da Síria mudou de forma radical, o Estado Islâmico ganhou terreno e metade da população do país foi obrigada a abandonar suas casas – mais de 12 milhões de pessoas.

“Esse é o preço do fracasso político”, alertou Yacoub El Hillo, um dos principais representantes humanitários da ONU na Síria. Outro que lançou um alerta foi Paulo Sérgio Pinheiro, o brasileiro que lidera a Comissão de Inquérito da ONU sobre os Crimes na Síria. “A diplomacia fracassou e há anos avisamos que o resultado dessa crise seria uma ameaça à estabilidade mundial.” 

Num primeiro momento, esses refugiados optaram por ir para Jordânia, Líbano e Turquia. Formaram cidades inteiras, mas sempre guardavam a esperança de que a guerra terminaria e retornariam para casa. “Minha mãe sempre nos dizia: não vamos muito longe, para ficar fácil de voltar”, afirmou ao Estado Yasmina Mena, de 14 anos, num centro de refugiados em Passau, na Alemanha. “Depois de dois anos eu e meus irmãos a convencemos de que não dava mais para viver daquele jeito e precisávamos vir para a Europa.” 

Assim como Yasmina, milhares de outras pessoas entenderam que havia chegado o momento de buscar um futuro. Na última semana, as estimativas indicam que mais de 20 mil pessoas entraram na Europa vindas da Síria. No ano, foram 360 mil pessoas, num ritmo que ganha força. “Muita gente perdeu as esperanças de que a guerra termine logo”, confirmou Melissa Fleming, porta-voz do Alto-Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur). Mas, segundo ela, há outro fator que pesou: o descaso da comunidade internacional com 1,9 milhão de refugiados sírios na Turquia e 1 milhão no Líbano e na Jordânia. 

Na ONU, funcionários de alto escalão disseram ao Estado que o sentimento por meses foi o de que a comunidade internacional havia “rifado” a Síria e um acordo com o Irã parecia mais importante do que garantir o destino de Damasco. Em termos financeiros, a situação humanitária foi abandonada, o que teria puxado milhares de pessoas na direção da Europa. 

Dos US$ 4,5 bilhões que a ONU precisa para garantir alimentos e abrigo para os refugiados sírios no Oriente Médio, a entidade recebeu apenas US$ 1,6 bilhão. Dos US$ 3 bilhões que precisa para ajudar os sírios que ficaram no país, a ONU recebeu apenas US$ 900 milhões. 

Na semana passada, o Programa Mundial de Alimentação foi obrigado a suspender 229 mil benefícios que distribuía e a reduzir as rações. Um levantamento da ONU no Líbano mostrou que os refugiados estavam abaixo da linha da miséria do país.

Há ainda um outro motivo: a guerra se aprofundou e não existe mais local seguro no país. “A violência é endêmica”, indicou Pinheiro. “Não há um final em vista para o conflito”, admitiu, lembrando que tanto o governo sírio quanto o Estado Islâmico estão cometendo crimes contra a humanidade a cada dia. O resultado é uma onda de pessoas em busca de uma nova vida. 

“Por anos pedimos ajuda da Europa para conter a guerra. A comunidade internacional nunca agiu. Onde está a ONU? O que estão fazendo os países?”, criticou Adnan, um refugiado de 32 anos, pai de três meninas, que aguardava para ser atendido em um posto perto da fronteira da Alemanha com a Áustria. “Como ninguém foi lá nos ajudar, decidimos vir até aqui pedir ajuda”, ironizou.

Uma prova disso é o perfil dos refugiados. “Por anos, vimos apenas homens tentando chegar até a Europa. Agora, são mulheres e crianças”, explicou Bertrand Desmoulins, representante da Unicef na Macedônia. “A tese que temos é a de que primeiro veio o homem, para abrir caminho. Agora, chegou a vez de ele trazer toda a família”, disse. Outro sinal de que o fluxo é duradouro é o fato de que as grávidas representam 12% dos refugiados. 

O desembarque da guerra síria nas cidades europeias também terá um preço alto. Apenas na Alemanha, a ministra do Trabalho, Andrea Nahle, indica que gastará 3,3 bilhões euros para integrar esses refugiados, com cursos de alemão, seguro-desemprego e moradia. Até 2019, essa conta chegará a 7 bilhões de euros.

 

O novo cenário, porém, abre uma crise profunda na Europa: a de lidar com uma onda de estrangeiros justamente num momento em que os partidos xenófobos ganham espaço e eleições. Centros de acolhida de refugiados foram atacados e, em seis meses, as diferentes polícias registraram mais de 400 incidentes de xenofobia contra os estrangeiros. Os atos ainda foram seguidos por discursos de líderes com um tom ameaçador aos estrangeiros nesta semana. O mais enfático foi o do primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, que ergueu barreiras “para evitar que os cristãos fossem minoria em seu próprio continente”. Ele deixou claro que vai recusar a proposta da ONU e da Alemanha de que todos os países aceitem refugiados.

Na Eslováquia, o governo indicou que apenas aceitará refugiados cristãos, enquanto a República Checa passou a marcar os refugiados com números escritos em seus braços. Ativistas de direitos humanos protestaram, diante das semelhanças com o que era feito com os judeus. Ondrej Benesik, deputado checo, tentou explicar a ação do país com os refugiados. “Muita gente diria que somos racistas. Somos apenas mais cautelosos”, declarou.

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Na Polônia, o governo fez questão de alertar que o fluxo de pessoas poderia estar favorecendo a entrada de jihadistas do Estado Islâmico no continente europeu, camuflados de refugiados. “A crise dos refugiados expõe diferenças profundas em atitudes dos europeus”, constatou Melissa Fleming, porta-voz da ONU para Refugiados. 

Para o alto-comissário da ONU para Refugiados, Antonio Guterres, o momento e até mesmo a foto do garoto sírio Aylan, morto na costa da Turquia, podem ser “chaves para reverter a onda de xenofobia”. “Esta é uma batalha de valores que a Europa precisa vencer.”


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Jamil Chade ENVIADO ESPECIAL / PASSAU, ALEMANHA, O Estado de S. Paulo

06 Setembro 2015 | 07h00

Na contramão do caos político entre os governos europeus diante do fluxo de refugiados, centenas de estudantes, associações de bairro, médicos e igrejas se uniram para socorrer os sírios que desembarcam em massa. Se as autoridades têm patinado na resposta à crise, os serviços oferecidos pelos voluntários incluem desde acomodação até conexão de internet para que refugiados possam avisar seus parentes onde estão.

Na cidade alemã de Passau, porta de entrada para uma espécie de “terra prometida” para os refugiados, quem tomou a iniciativa de ajudar foram os estudantes da universidade local. Com 20 anos, Lotta Storm conta que seu trabalho tem sido o de buscar locais para acolher essas pessoas e garantir que seus direitos sejam respeitados. “Todos temos de agir”, disse.

Também na Alemanha, dois estudantes iniciaram um projeto que acabou ganhando o país. O objetivo era encontrar pessoas que estivessem dispostas a oferecer suas casas aos refugiados. Em um mês, mil casas pela Alemanha foram colocadas à disposição.

Um site ainda foi criado permitindo que as pessoas possam se inscrever em todas as atividades úteis: aulas de alemão, doações de bicicletas e brinquedos e roupa para o inverno, que chegará em três meses. 

Segundo a ONU e ONGs, a difusão da foto do garoto sírio de 3 anos morto em uma praia da Turquia causou uma onda de doações pelo continente. Mas as ações dos cidadãos já existiam. O capitão da seleção alemã, Bastian Schweinsteiger, gravou um vídeo espontâneo pedindo que o país “ajudasse e respeitasse” os refugiados.

Na Hungria, enquanto as autoridades querem impedir que o território seja usado pelos refugiados, grupos de voluntários passaram horas nos últimos dois dias na estação de Budapeste oferecendo assistência aos estrangeiros. Na avaliação da ONU, o maior impacto da mobilização popular tem sido o de forçar os governos a repensar suas políticas e também agir para acolher os que fogem da guerra civil síria.

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Jamil Chade ENVIADO ESPECIAL PASSAU, ALEMANHA, O Estado de S. Paulo

06 Setembro 2015 | 07h00

Vendendo um sonho a desesperados, milhares de traficantes de pessoas lucram com a crise de refugiados e fazem uma economia paralela ganhar força. Estimativas apontam que o fluxo de dinheiro já chega a 300 milhões de euros em 2015, pagos pelos ilegais por uma chance de entrar na União Europeia (UE). Muitos são enganados e mais de 3,7 mil já morreram no caminho.

Com a dificuldade da UE em lidar com a crise, a venda de esperança ganhou proporções inéditas. Criminosos comuns em busca de lucros ou redes criminosas passaram a explorar os imigrantes. Segundo a Europol, 3 mil pessoas estariam envolvidas, principalmente nos Bálcãs. Segundo investigações, muitos já deixaram o tráfico de cigarros ou de drogas para se concentrar nos refugiados. 

No total, 130 investigações estão ocorrendo sobre redes de traficantes – 40 envolvem narcotraficantes que passaram a ver a crise como oportunidade mais rentável. Apenas no caminhão onde 71 corpos foram encontrados numa estrada austríaca, a estimativa da polícia é de que os traficantes coletaram 100 mil euros das vítimas.

Refugiados que conversaram com o Estado durante a semana revelam que as redes começam a operar na Turquia. Nas lojas de algumas cidades da costa, barcos infláveis ou com pequenos motores estão praticamente esgotados. Parte do 1,9 milhão de sírios vivendo na Turquia espera chegar à UE navegando de forma precária. 

Quem também lucra com isso são os comerciantes. Segundo os refugiados, foi difícil encontrar coletes salva-vidas para vender em cidades como Bodrum, diante da procura. Nas mesmas lojas, outro produto muito vendido é o apito, para o caso de o barco naufragar. 

As casas de câmbio turcas também ganham. Para tentar ter certa segurança, os refugiados exigem garantias de que serão levados à Europa. Um acordo é feito e o candidato a cruzar o mar deposita o dinheiro em uma dessas casas. Se em uma semana ele não for levado, o refugiado recupera o dinheiro. Mas, mesmo assim, o estabelecimento comercial fica com mais de 50 euros. 

Ao lado do comércio regular, autoridades apontam que um mercado paralelo já surgiu: a venda de passaportes falsificados. Os mais procurados são os sírios, já que isso representa certa garantia de que aquelas pessoas conseguirão status de refugiado. 

Mohamed, de Alepo, na Síria, gastou 4,5 mil euros para chegar à Alemanha. Ele diz que o preço do “táxi” – como são chamados os carros dos traficantes – aumentou desde que a Hungria passou a impedir a circulação de trens. “As negociações com os traficantes eram feitas na estação de Budapeste, diante dos guardas”, contou, segurando a passagem que comprou e não pôde usar. 

Um dos refugiados diz que há acordo de tabelar os preços da viagem entre os traficantes. “Na Turquia, pesquisei com seis grupos. Todos deram o mesmo preço para chegar à Grécia de barco”, contou Ahmad. A tabela previa 1 mil euros para barcos infláveis e 3 mil euros para embarcações maiores. 

Ali, de 23 anos, não quer sua foto publicada nem seu nome completo revelado. Ele acredita que sua família – que ficou na Turquia – pode ser punida pelos criminosos se ele for identificado. Caminhando pela Sérvia, achou que fosse morrer. “Nosso grupo tinha oito pessoas e o traficante. Quando vimos a polícia, nos escondemos e o traficante tirou uma arma da sacola e nos disse que nos mataria se alguém dissesse que ele era o responsável pelo grupo.” 

Pelo caminho, a reportagem ouviu relatos de refugiados que desmaiaram por falta de oxigênio nos caminhões e explicações sobre a falta de preparo para a viagem. A maioria não sabia nadar e todos admitiam que “a única saída” era o traficante. “Só quem vive uma guerra sabe o que é fugir”, disse Nizar.

Até as vans que transportam os refugiados se transformaram em negócio. Parte da frota é a sobra de um esquema criado ironicamente pelo governo alemão, em 2008 e 2009, para incentivar o mercado de veículos. Os donos tinham o direito de trocar de carro, com um bônus de 2 mil euros. Por anos, os veículos ficaram em depósitos. Mas, desde o ano passado, são comprados por “empresários” do Leste Europeu por valores baixos. 

Em Passau, autoridades indicaram que estão à “caça” dessas redes. Segundo a polícia alemã, 250 pessoas foram presas desde janeiro. “Eles são muito organizados e isso virou um grande negócio”, disse o inspetor Thomas Schweikl. 

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