Jamil Chade / Estadão
Jamil Chade / Estadão

DA HUNGRIA À ÁUSTRIA, DRAMA E ESPERANÇA

Família de dez refugiados sírios narra sofrimento e alívio na fuga da guerra civil

JAMIL CHADE, ENVIADO ESPECIAL / BUDAPESTE, O Estado de S. Paulo

07 Setembro 2015 | 05h00

São 8:30 da manhã de domingo. Na estação de trem de Budapeste, centenas de refugiados aguardavam ansiosos para saber se, depois de dias presos na capital húngara, poderiam seguir para a Áustria e Alemanha. No meio do caos de crianças chorando, pais desesperados e idosos exaustos, uma família síria fazia questão de não se separar. Sabiam que todo o esforço era para voltar a viver em paz. Assim como outras pessoas, o grupo de dez primos e irmãos, de 14 a 28 anos, admitia que embarcava rumo ao desconhecido. 

Eles foram detidos por três dias por terem entrado no país de forma irregular, pela fronteira da Sérvia. Foram obrigados a dar suas impressões digitais e temiam ser deportados. No total, as dez pessoas gastaram 25 mil euros para realizar uma viagem que começou no dia 17 de agosto em Damasco. Sem condições físicas para a jornada, os pais ficaram na Síria. “Como é que eu vou me esquecer daquele dia”, disse Doaa Harbi, professora de educação física em Damasco. 

A viagem terminou em Viena e a reportagem do Estado acompanhou as últimas nove horas da odisseia do grupo até encontrar refúgio. Ainda na plataforma da estação de Budapeste o irmão de Doaa, Hassan de 20 anos, não escondia a ansiedade por deixar a Hungria. “Esse povo é doente”, criticou. “Nunca mais volto aqui, nem se ficar milionário.”

Quando a polícia finalmente anunciou que os trens poderiam ser utilizados para ir até Viena, a correria tomou conta da estação. Um dos membros da família, Ahmad Hauwa, gritava: “Fiquem juntos.” 

Com os primeiros movimentos do trem, a tensão continuava. Todos se questionavam se de fato o trem iria sair da Hungria. A desconfiança não era neurose. Na semana passada, o governo havia feito a mesma promessa, mas os vagões foram levados a um centro de refugiados no interior do país. 

À medida que o trem avançava, a família contou suas histórias, rindo de situações dramáticas, como quando todos tiveram de jogar suas malas no Mar Mediterrâneo. “Colocaram 55 pessoas num bote inflável. Pagamos 1,5 mil euros por pessoas para cruzar da Turquia para a Grécia. Mas logo depois de começar a viagem de duas horas, os traficantes se deram conta que iríamos naufragar. O motor parou três vezes. A ordem foi a de jogar todas as malas ao mar”, disse Ahmad. 

O grupo voltou a fechar a cara quando o trem, de repente, parou. Era a cidade de Hegyeshalom, ainda na Hungria. “Eu disse que não poderíamos ter vindo”, disse Doaa. Dessa vez a surpresa foi positiva. A cidade era a última da fronteira e, quando as portas abriram, voluntários entraram e avisaram que todos teriam de sair e tomar um outro trem que o governo da Áustria mandara. Ele levaria todos até Viena e Munique. Os gritos de alegria se ouviam em todos os vagões, enquanto bananas, bebidas e brinquedos eram distribuídos. “Viva a Áustria”, gritou um refugiado. 

Ahmed Hauwas, barbeiro, havia ficado em silêncio até ali. Mas quando o trem cruzou a fronteira com a Áustria, ele decidiu começar a falar. “Sabe quando foi a última vez que sentamos para jantar de forma adequada? Há um mês. Sabe qual foi a última vez que dormi em uma cama? Na Hungria numa prisão. Nossas roupas não são nossas. Isso é tudo doação. Sinto-me humilhado”, desabafou. 

Ele diz ter motivos para tanta ira. “Eu tinha uma vida normal. Nunca fiz parte de grupos políticos e nem de radicais. Um dia, andando pela rua, fui atingido por cinco balas”, disse, mostrando um dedo que perdeu. “Três balas ainda estão dentro de mim”. 

Na cabeça de cada um da família, um destino aparecia como o sonho de um recomeço. “Eu gostaria de ir a Augsburg, na Alemanha”, disse Hassan. “Tenho um conhecido por lá”. Doaa esperava chegar até a Suécia, onde vive seu noivo há três anos. Mas, ontem, a ordem era de que todos ficassem juntos. A família fará os trâmites burocráticos para obter a concessão de asilo. 

Já era noite quando o trem lotado começou a reduzir sua velocidade, enquanto casas e sinais de uma grande cidade começava a aparecer pela janela. A excitação no grupo era palpável, enquanto todos ficavam de pé. O grupo decidiu ficar na Áustria. “Viena está bem. Vamos ficar por aqui. Depois vemos o que será de nossas vidas”, disse Ahmed.

No desembarque, os olhos de surpresa eram evidentes em cada um deles. Centenas de pessoas os esperavam, com aplausos, café quente, sopa, alimentos e até baterias para celulares. Hassan brincava com o público, fazendo selfies e abraçando desconhecidos. “Chegamos, chegamos”, dizia Ahmed, que pela primeira vez em nove horas sorria. 

O grupo foi levado a um centro de acolhida e, cada um deles de forma orgulhosa, deu seu nome e documentos às autoridades. Um dos funcionários austríacos explicou que o processo levaria bastante tempo. Mas o grupo apenas repetia. “No problem, no problem”. 

Uma hora depois, todos seriam levados a um modesto hotel na periferia de Viena transformado em albergue para refugiados. Doaa, cansada, repetia: “Como é lindo aqui.” 

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