FABIO MOTTA/ESTADÃO
FABIO MOTTA/ESTADÃO

A VIOLÊNCIA E O TERROR DO PÓS-GOLPE NO CHILE

A viagem de Pedro Wrede a Santiago o levou a testemunhar a onda de torturas

Juliana Dal Piva / RIO, O Estado de S. Paulo

08 Setembro 2015 | 02h00

Durante anos um pesadelo assombrou o sono de Pedro Wrede, de 62 anos. Respirando rápido, ele acordava no meio da noite, assustado, após sonhar que um homem nu ensanguentado estava deitado a seu lado. Em outras madrugadas, ele despertou após imaginar quartos banhados em sangue. As cenas marcadas no inconsciente de Wrede são sequelas dos dias vividos durante o golpe militar dado pelo general Augusto Pinochet no Chile, em 11 de setembro de 1973. 

Foram necessários 42 anos, que serão completados na sexta-feira, para que o músico e pintor conseguisse contar à família o que viveu no início da ditadura chilena. Preso em Santiago por carabineiros – a polícia militar local – ele foi levado para o antigo Estádio Chile. É de lá que guarda a cena de seu pior pesadelo. Espremido em meio a 5 mil pessoas nas arquibancadas, Wrede foi escoltado até a parte baixa do estádio, onde ficavam banheiros e vestiários. Do corredor, ele conta ter visto o corpo do famoso cantor Victor Jara estirado no chão. 

“Eu estava passando mal da barriga e os caras me levaram lá embaixo. Desci o corredor e vi esse quadro dantesco. Um homem estava deitado no chão, dentro de um quarto e eles (soldados) falavam ‘esse não canta mais’. Eles estavam fazendo tiro ao alvo no corpo”, conta Wrede. 

Indiferente a movimentos políticos, ele jamais imaginou que sua aventura juvenil com um amigo uruguaio se transformaria em calvário a partir de 13 de setembro – dois dias depois do golpe. Wrede tinha 20 anos quando deixou Montevidéu em julho daquele ano. Ele morava na capital uruguaia com a mãe e o padrasto, Mauri Gurgel Valente, então embaixador do Brasil para a Associação Latino-Americana de Livre Comércio, no Uruguai. Wrede admite que o clima em Montevidéu era muito tenso com o início da ditadura, mas ele não se preocupava. 

“A gente era parado na rua constantemente para ver a documentação, mas, com o passaporte diplomático, eles não faziam nada. Tinha esse clima, mas eu não me envolvia”, explica. A decisão de ir ao Chile também foi tomada nesse ímpeto, alheio ao crítico momento do governo Salvador Allende. “Fomos com US$ 800 e a ideia era ficar até o dinheiro acabar. Não tinha uma previsão. Era uma aventura”, conta. Os dois se hospedaram na casa de colegas chilenos em Santiago.

A farra terminou na manhã de 11 de setembro. “Fui ao mercado tomar café. Estava comprando coisas e, de repente, as pessoas começaram a falar ‘está tendo um golpe’. E aí começaram os tiros na rua. Todo mundo saiu correndo”, lembra. Ao retornar à casa onde estava hospedado, ele diz que subiu no telhado do sobrado de dois andares e viu os aviões bombardeando a sede do governo, o Palácio de La Moneda.

O pavor tomou conta do jovem. Não havia telefone na casa e o companheiro de viagem uruguaio já estava morando em outro lugar. Quando sentiu segurança, Wrede foi à casa de vizinhos e ligou para a Embaixada do Brasil. O funcionário que atendeu pediu que ele voltasse a ligar no dia seguinte. A mesma informação foi repetida no dia 12. Na manhã do terceiro dia, ele diz ter sido orientado pela embaixada a se apresentar em uma espécie de delegacia dos carabineiros. Era lá que a embaixada o buscaria. A orientação se tornou uma armadilha quase letal. 

De início, a aparência de Wrede dificultou a apresentação. Os cabelos compridos e o bigode grosso foram prontamente reprovados. “Eu tinha cara de suspeito para eles. Entreguei meu passaporte, sentei e fiquei esperando. Disse que o embaixador do Brasil tinha pedido para eu vir. Dali a pouco chegaram 40 pessoas. Eles colocaram todos no chão tipo tapete e ficaram andando em cima das pessoas”, lembra. De repente, um soldado loiro e alto apontou para Wrede e perguntou quem era. Outro militar respondeu: “preso brasileño”. “Ali eu já entrei na porrada, lógico. Soco, chutes e também virei tapete”, desafaba.

Horas depois, Wrede foi levado ao Estádio Chile, usado para jogos de basquete, onde ficou ao menos quatro dias. Os presos foram colocados nas arquibancadas e eram torturados nos vestiários. “A noite toda a gente ficava ouvindo gritos e tiros. Eles faziam questão. Fiquei junto com alguns brasileiros que estavam num estado deplorável, com as calças em fiapos e costelas quebradas, arrebentados mesmo. Lembro de um Tarzan de Castro”, afirma.

Tarzan de Castro e Pedro Wrede integram uma lista de presos no Chile feita pela Divisão de Segurança e Informações do chancelaria do Brasil em 04/10/1973. O documento foi localizado pelo Estado no acervo do Serviço Nacional de Informações (SNI). Hoje, Castro, aos 77 anos, conta que já tinha cumprido quase 5 anos de prisão no Brasil quando chegou ao Chile em janeiro de 1973. Ele integrou o grupo Ala Vermelha, uma dissidência do PCdoB. Em Santiago, trabalhava como professor de Ciência Política na Escola Nacional de Administração. 

“Não consegui chegar em casa por causa das tropas e me abriguei no apartamento de um amigo. Só que o condomínio tinha muitos estrangeiros e foi invadido pelos militares na madrugada do dia 12. Fomos todos presos”, afirma Castro, que foi levado ao Estádio Chile e espancado durante o trajeto. 

O jornalista brasileiro Mauricio Brum, autor do livro Estádio Chile, 1973, diz que, em 1990, a arena foi rebatizada com o nome de Victor Jara. O relato de Wrede é semelhante ao de outros sobreviventes. “Quando precisavam ir ao banheiro, eles eram escoltados para essa parte do estádio. A morte aconteceu entre os dias 15 e 16, quando os militares brincaram de roleta-russa e mataram Victor Jara nesse jogo. Depois eles dispararam 40 tiros para parecer que ele tinha morrido em uma troca de tiros”, diz Brum.

Os presos do Estádio Chile foram transferidos para o Estádio Nacional após alguns dias, onde o horror continuou. Wrede foi libertado após a chegada de um agente brasileiro que o levou para a embaixada do Brasil. Dez dias mais tarde, ele diz que o próprio embaixador Antonio Câmara Neto o conduziu até o avião para Montevidéu. Castro ficou preso por três meses, até que a ONU conseguiu a libertação dos estrangeiros. A França concedeu asilo e ele retornou ao Brasil apenas em 1979, após a Lei de Anistia. Hoje é empresário em Goiás.

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ITAMARATY VIGIAVA EXILADOS ANTES DA QUEDA DE ALLENDE

Passos dos brasileiros eram monitorados por agentes da ditadura, revelam documentos do extinto Centro de Informações do Exterior

Wilson Tosta / RIO, O Estado de S. Paulo

08 Setembro 2015 | 02h00

Depois de 42 anos da deposição do governo de Salvador Allende (1908-1973) no Chile, documentos secretos do extinto Centro de Informações do Exterior (CIEx) detalham como agentes da ditadura militar do Brasil vigiavam exilados brasileiros antes do golpe.

Na papelada do Arquivo Nacional, há dados sobre viagens e reuniões dos ativistas. Misturam-se a análises da política local, bastidores da crise e listas de presos – essas, já depois que a ditadura chilena se instalara. 

Um dos focos da vigilância do CIEx era a Associação Chileno-Brasileira de Solidariedade (ACBS). Entre os exilados espionados estavam o ex-ministro do Trabalho Almino Affonso, o ex-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) e hoje senador José Serra (PSDB-SP) e o poeta Thiago de Mello. 

Há ainda detalhes de reuniões sociais, políticas ou de caráter cultural, da comunidade de exilados brasileiros e dados sobre o suposto sustento financeiro das organizações formadas por brasileiros no exílio chileno à época.

O CIEx era um braço da comunidade de informações. Funcionava no Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Foi criado em 1966 e operou até os anos 80. Oficialmente, não existia. O CIEx escondeu-se sob outros nomes, insuspeitos. Chamou-se Assessoria de Documentação de Política Exterior (Adoc) e Secretaria de Documentação de Política Exterior (Sedoc). Manteve ligações com o Serviço Nacional de Informações (SNI).

“Em 26 de julho de 1973, às 19h30, no Teatro La Reforma de Santiago do Chile, o refugiado brasileiro Alexandre Manuel Thiago de Mello (“Manduka”) deu um recital de música brasileira de protesto em homenagem à festividade cubana da ‘tomada do Quartel Moncada’, sob o patrocínio de estudantes universitários esquerdistas da Universidade do Chile e da Associação Chileno-Brasileira de Solidariedade (ACBS)”, afirma o Informe 420/73, de 11 de setembro de 1973. 

“O recital contou com cerca de 500 assistentes, entre os quais se encontravam o pai do marginado, Amadeu Thiago de Mello, e os asilados brasileiros Almino Affonso, Armando Ziller, José Ferreira cardoso, José Chirico Serra, Theotonio dos Santos, Gerson Gomes, Francisco Whitaker Ferreira, Estevam Strauss, Alaor da Silva Passos, José Maria Rabelo, Arutana Terena Coberio e outros não identificados”, diz.

Outro Informe do CIEx da mesma data, o número 427/73, mostra mais indícios da ação de espiões contra a entidade. “O refugiado brasileiro Antonio Bezerra Baltar, funcionário da Cepal/ONU, deverá regressar a Santiago do Chile, proveniente dos Estados Unidos, através da América Central, trazendo a soma de US$ 25 mil, em dinheiro, para a Associação Chileno-Brasileiro de Solidariedade (ACBS)’ e para o ‘Instituto de Estudos Sociais e Econômicos (IESE)’”, afirma.

Ainda no 11 de setembro, o Informe CIEx número 250/73 focava a ACBS. “Em anexo, fotocópia de documento enviado pelo asilado brasileiro José Ferreira Cardoso, presidente da ACBS, aos representantes do Partido Comunista Brasileiro, Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, Ação Libertadora Nacional, Partido Operário Comunista, ‘PP-1’ e mais dez grupos de asilados e refugiados brasileiros no Chile, no qual propõe uma reunião do ‘conselho’ da ACBS com as respectivas organizações subversivas, com a finalidade de aclarar alguns problemas pendentes entre a ACBS e os referidos grupos”, afirma o texto. 

“Esta iniciativa (...) prende-se a pressões oriundas do Comitê de Denúncia à Repressão no Brasil (CDR) através de seu coordenador-geral, Francisco Whitaker Ferreira, no sentido de que dinheiro doado por organizações internacionais à ACBS passe a ser utilizado, exclusivamente, pelo CDR e pela Frente Brasileira de Informações.”

Outro exilado brasileiro cujos passos foram seguidos pelo CIEx foi Gerson Gomes. Identificado como funcionário da ONU, ele teve cópia de seu cartão de identidade distribuído à comunidade de informações em informe, segundo o qual, ele teria viajado à Europa e trazido “uma indeterminada quantia em dólares para atender às atividades subversivas”.

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