REUTERS/Enrique de la Osa
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Era da reconciliação - CUBANOS ESPERAM DIAS MELHORES SEM SANÇÕES

Novas relações com Washington abrem entre a população da ilha perspectivas de melhora na economia interna, com promessa de atração de divisas fortes

Felipe Corazza, ENVIADO ESPECIAL/HAVANA, O Estado de S. Paulo

27 Setembro 2015 | 02h00

HAVANA - No lado oposto à parte turística da Baía de Havana, no município pobre de Regla, Carlos Ruiz e Sagrario Losada cuidam com afinco do edifício que abriga a associação local de ex-combatentes da Revolução Cubana. Apesar das condições precárias, o prédio exibe nas paredes alguns símbolos de orgulho dos moradores da cidade e, na porta, um cartaz de boas-vindas ao papa Francisco, que visitou a ilha no início da semana passada.

Aos 78 anos, Ruiz hesita inicialmente em dizer como enxerga, do ponto de vista de um guerrilheiro que ajudou a derrubar Fulgêncio Batista, em 1959, o acordo de retomada das relações com os EUA. Em pouco tempo, porém, afirma que vê “impactos positivos” na questão. “Não pelos EUA em si, mas porque para nós, cubanos, interessa manter boas relações com todos os países. Já se convenceram do nosso papel, já se deram conta do que é Cuba de verdade.”

Para o futuro, a presidente da associação, Sagrario, enxerga tempos melhores, mas não vê pressa. “Somos uma associação autofinanciada. Não recebemos dinheiro do governo, apenas da comunidade de Regla. Então, vamos continuar com nossas atividades e respeitando nossas referências fundamentais.”

A comoção com a visita do pontífice em Regla está refletida em cartazes e faixas postos em dezenas de portas e dentro da igreja local, que fica a poucos metros de um pier desativado de lanchas que cruzam a baía. Apesar da boa relação com a religiosidade – “somos entre 80% e 85% de católicos”, afirma Ruiz –, a cidade foi palco de um episódio sangrento, em 1958, quando o movimento 26 de Julho, de apoio à revolução iniciada por Fidel Castro, na Sierra Maestra, sequestrou a principal estátua da Virgem de Regla como forma de “impulsionar a compreensão de que o processo revolucionário era mais importante”, conta o ex-guerrilheiro. A polícia de Fulgencio Batista localizou os sequestradores e seis deles foram mortos. 

A população de Regla, hoje, é espelho daqueles a quem o papa Francisco pediu mais proteção e atenção. Vivendo entre as instalações precárias do Porto de Havana e à sombra de uma termoelétrica desativada, os reglanos vivem de pequenos negócios – muitas vezes fachadas para o comércio paralelo e o contrabando –, em casas de construção simples ou mesmo barracos. A reabertura capitaneada pela retomada da relação bilateral com os EUA é uma das esperanças dos cubanos para dar um impulso à economia e melhorar a situação de cidadãos como os do “município rebelde”.

‘Habanos’.“Cuba pagou um preço muito alto pelo bloqueio. O bloqueio asfixiou a ilha e o incrível é que, apesar de toda essa asfixia, esse povo resistiu por mais de 50 anos”, afirmou ao Estado o teólogo brasileiro frei Betto, autor do livro Fidel e a Religião, dado como presente pelo próprio líder revolucionário ao papa Francisco. Agora, além do fim do embargo, a ilha espera por compensações e uma nova realidade em um futuro próximo. O governo cubano estima que a produção de charutos, atualmente em cerca de 80 milhões de unidades anuais, possa subir para 300 milhões com uma futura abertura ao mercado americano. Aumento semelhante ocorreria na produção e nas vendas de rum.

Manter o padrão de qualidade dos “puros” cubanos com um aumento exponencial da produção, no entanto, é uma preocupação e algo visto como inviável por alguns trabalhadores da indústria, como o “torcedor” Mario, que há 52 anos se dedica à produção. Até duas décadas atrás, os “torcedores” eram quase todos formados em uma tradição familiar, com o conhecimento do ofício passado de pais e mães para filhos. Com o aumento, hoje, a arte se ensina em escolas específicas. 

“Cada professor aceita cerca de 30 alunos por ano”, relata o especialista. “Desses, se tirarmos 15 (aptos para a profissão), será muito. Além disso, há fatores que não estão nas nossas mãos. Chuva, inundações, seca.” Apontando para as folhas de fumo em sua bancada de produção, afirma que o tabaco leva dois anos para chegar ao ponto ideal e não há tanto espaço para mais plantações. “Não se pode aumentar a produção de qualquer jeito.”

Além do ponto de vista econômico e da esperança de melhora na vida dos cidadãos, há um caráter relevante no momento positivo que a ilha atravessa no cenário da política internacional na região. “O momento é muito relevante do ponto de vista diplomático”, afirmou à reportagem do embaixador brasileiro em Havana, Cesário Melantonio. O diplomata cita o caso da negociação de paz entre o governo colombiano e as Farc, diálogo que ocorre na capital cubana, como exemplo. 

Na quarta-feira, um dia após a partida do papa do território cubano, o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, e o líder da guerrilha, Rodrigo Londoño, o “Timochenko”, anunciaram na cidade um pacto no ponto mais relevante de todo o processo – o da Justiça transitória. O governo cubano foi um dos mediadores do processo.

“No cenário internacional, Cuba tem um papel muito maior do que seu tamanho geográfico ou de sua população”, avaliou o diplomata. Voltando às projeções econômicas, o retorno do processo de abertura de Cuba ao mundo já se expressará no início de outubro, quando o número de empresários brasileiros presentes a uma feira de negócios em Havana saltará de 30, em 2013, para 100. 

“Com a proibição de negócios com os EUA, e muitas dessas empresas exportam para lá, o risco de produzir em Cuba era muito grande. Com a queda da barreira, passa a ficar interessante até para ‘outsourcing’ de produção”, afirma o embaixador, para quem esse processo “só está começando”. A empresa de cigarros Brascuba, parceria entre companhias dos dois países, por exemplo, já prevê um aumento de US$ 10 milhões nos investimentos, incluindo uma nova fábrica a ser inaugurada em 2018 na zona econômica especial criada no entorno do Porto de Mariel.

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Turistas dos EUA não animam taxistas

Trabalhadores do setor preferem que abertura traga mais europeus e canadenses à ilha e ainda são céticos em relação a americanos

Felipe Corazza, ENVIADO ESPECIAL/HAVANA, O Estado de S. Paulo

27 Setembro 2015 | 02h00

HAVANA - Nas ruas de Havana, Antonio dirige um Chevrolet 1951 oferecendo serviços de táxi. Apesar de também atender a cubanos, procura ficar sempre próximo a hotéis ou à Praça Central, na parte turística da cidade, já que as corridas para estrangeiros rendem mais – o preço é decidido caso a caso e muitos se esquecem de combinar antes, tornando tudo mais lucrativo.

No painel do veículo, um adesivo com pouco sentido à primeira vista, mas com muito significado para os cubanos que trabalham na indústria do turismo, formal ou informalmente: um logotipo da Apple com a bandeira do Canadá. O adesivo pode ser comprado por 0,3 CUC – a moeda conversível cubana, algo próximo de 30 centavos de euro – em lojas para turistas.

Desde o anúncio da retomada das relações entre Havana e Washington, o taxista diz ter visto um pequeno aumento no número de turistas, mas avalia que a grande diferença deve aparecer nos últimos meses do ano. “Agora, está muito calor. Quando chegar o inverno, saberemos melhor.”

Apesar do cenário favorável, Antonio não se anima com os americanos. Prefere os canadenses. “São mais, mais... Sabe, são melhores que os americanos”, afirmou.

A opinião é compartilhada por Messi, guia turístico informal que oferece seus serviços diante da Catedral de Havana, onde o papa Francisco celebrou encontro com famílias no domingo passado. O nome, obviamente, é falso para evitar problemas. 

“Veja, tenho três filhos. Sou revolucionário e patriota, mas algumas coisas podem ser mal interpretadas e, então...”, conclui, fazendo o gesto de uma decapitação passando o indicador pelo pescoço. Apesar do “nome de guerra”, o homem de 43 anos usa uma camisa da seleção portuguesa de futebol, presente de um turista.

Para Messi, a queda do embargo econômico imposto a Cuba pelos EUA será bem-vinda, mas prefere que o país passe a fazer negócios com outros países e receba turistas de outras nacionalidades. “Os canadenses são muito bons. Europeus, um pouco. Os alemães e os ingleses, não tanto. Mas os americanos são os piores. Os americanos chegam como ovelhas e se transformam em tigres siberianos quando conseguem dominar os outros.” 

Antes de entrar na catedral para mostrá-la aos quatro turistas holandeses que o contrataram para um passeio, o guia informal explica um pouco mais seus motivos. “Não temos telefones caros, internet, nem muitas coisas. Mas somos ricos. Podemos andar nas ruas sem violência e não há quem fique sem comer. Temos casas e uma vida sem ansiedade. Os americanos não entendem que isso também é uma forma de ser rico.”

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