Foto: WILSON TOSTA/ESTADÃO
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Wilson Tosta ENVIADO ESPECIAL A MEDELLÍN, O Estado de S. Paulo

18 Outubro 2015 | 05h00

Luiz Ángel García, de 81 anos, é um sobrevivente. Quase 20 anos atrás, chegou a Medellín fugindo de Urabá, fronteira colombiana com o Panamá, onde integrava o partido União Patriótica. Criada nos anos 80 por guerrilheiros de diferentes grupos armados, a então nova organização, legal e desarmada, afastou-se da guerrilha e propôs uma “paz democrática e duradoura”.

Seu crescimento provocou grupos paramilitares de extrema direita e traficantes, que promoveram o extermínio de mais de 3 mil de seus ativistas. O morticínio da UP incluiu dois candidatos presidenciais, deputados, vereadores, prefeitos e cidadãos comuns. 

Agora, García, que mudou de cidade em 1996 para não morrer, está cético quanto às negociações feitas em Havana pelo governo de Juan Manuel Santos e pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Em suas palavras, mistura ceticismo, desconfiança e medo da repetição do fracasso na pacificação, como a que viveu.

“É muito difícil (chegar a um acordo). Tomara que consigam. Falam da violência cometida pelas Farc de 50 anos atrás, mas não falam que houve o Massacre das Bananeiras, de 1928, o Massacre de Magdalena, como foi a Violência em 1948. É uma história que não contam”, disse García ao Estado.

Resgatar o passado da Colômbia é um dos desafios das negociações de paz em Cuba. García remexe um pouco nessa história durante a conversa em uma quadra de esportes no bairro La Honda, no alto da Comuna 3, 500 metros acima do centro de Medellín. 

Ele lembra que a violência política na Colômbia é anterior à guerrilha, protagonizada a partir dos anos 60 pelas Farc e outros grupos da esquerda armada. Havia ainda paramilitares de direita e gangues de traficantes, como Pablo Escobar. A riqueza produzida pela droga financiou praticamente todas as forças do espectro político local.

Em La Honda, estima-se que pelo menos 60% dos moradoressejam “desplazados” – termo em espanhol que designa moradores expulsos pelo conflito. Não são só de áreas rurais, como García. Há os desplazados intraurbanos, dentro das cidades. Em toda a Colômbia, estima-se, são mais de 5 milhões.

O destino dessas pessoas é um dos pontos abertos pelas negociações entre as Farc e o governo. Sua volta ao antigo local de moradia é, em geral, impossível. “Muitos não querem regressar permanentemente”, conta o sociólogo Oscar Cárdenas. “Querem apenas rever a casa que venderam por 3 pesos quando tiveram de fugir. Mas querem reencontrar sua história.”

Cárdenas se preocupa também com o que pode acontecer com os ex-guerrilheiros desmobilizados. Teme, como outros colombianos, a repetição de problemas como os que envolveram os ex-integrantes de grupos paramilitares de direita. Oficialmente, depuseram armas nos anos 2000, mas a realidade se mostrou mais complexa.

“Logicamente, dentro das Farc, haverá pessoas que não se adequarão à desmobilização, isso é algo claro dentro do processo de paz. Mas creio que são muito poucos em comparação com os que querem deixar as armas. O medo que temos é que sejam atacados pelos redutos do paramilitarismo e sejam arrasados, como muitos movimentos armados anteriores.”

O deslocamento forçado é um dos crimes excluídos das possibilidades de anistia ou indulto nas negociações em Havana. Também não receberão esses benefícios os envolvidos em crimes de lesa-humanidade, genocídio, crimes de guerra, sequestros, tortura, desaparecimento forçado, execuções extrajudiciais e violência sexual. As informações são parte de um comunicado conjunto emitido em 24 de setembro.

Parte do conflito colombiano, o crime comum também criou deslocados. Uma dessas vítimas é Maria Eugenia Moreno Suaza, cuja família saiu de Andes para La Cruz, outro dos bairros da Comuna 3, por complicações com dívidas. Em 1997, ela era presidente da Ação Comunal, associação local com acesso a recursos oficiais, quando surgiu a notícia de que fora liberado um financiamento para a ampliação da escola do bairro.

“Grupos armados vieram até a Ação Comunal para buscar o dinheiro”, conta. “Então, começaram a ameaçar minha mãe, a Junta. Eu fiquei na casa de uma tia.” A expulsão ocorreu em 1998. Ela lembra que o processo foi muito difícil, porque o bairro passou por vários conflitos. “Se não era um grupo, chegava outro”, relata. “Primeiro, foram os milicianos, depois a guerrilha, os paras, chegou também a polícia, estigmatizando a população, tratando-nos como guerrilheiros. Depois, viram que a situação não era essa.” 

*VIAJOU A CONVITE DA FUNDACIÓN GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ PARA EL NUEVO PERIODISMO IBEROAMERICANO

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'Cem Anos de solidão' retratou o Massacre das Bananeiras

MEDELLÍN - A memória da histórica violência na Colômbia virou literatura. O Massacre das Bananeiras, citado por Luiz Ángel García em sua conversa com o Estado, aconteceu em 1928 em Aracataca, terra natal de Gabriel García Márquez. Gabo, que retratou o episódio em "Cem Anos de Solidão", tinha um ano quando irrompeu uma greve. Os grevistas trabalhavam na produção de bananas para exportação pela multinacional dos EUA United Fruit Company, na região de Magdalena.

WILSON TOSTA, ENVIADO ESPECIAL / MEDELLÍN

17 Outubro 2015 | 16h00

A pauta incluía aumento salarial e direitos sociais, como descanso semanal remunerado e contrato coletivo de trabalho. Na madrugada de 6 de dezembro de 1928, uma concentração de grevistas foi metralhada por militares. Pelo menos mil pessoas morreram, embora a maioria dos corpos tenha sumido.Uma contagem oficial apontou apenas nove mortos e três feridos. Outras admitiram até 20 vítimas fatais. A tradição oral aponta que a maioria dos cadáveres teria sido lançada no mar. Também teriam ocorrido assassinatos de ativistas nas três semanas seguintes.

García Márquez descreve o ato na estação ferroviária, com cerca de 3 mil pessoas, à espera de autoridades, a ordem de um capitão para que se dispersassem e o matraquear de "quatorze ninhos de metralhadoras". Em sua narrativa cheia de "realismo fantástico", o escritor conta que tudo parecia uma farsa. Nela, talvez as armas estivessem carregadas com fogos de artifício. Disparavam, mas a multidão não se mexia, não reagia. Parecia "petrificada por uma invulnerabilidade instantânea". Até que o "encantamento" foi quebrado por "um grito de morte": "Aaaai, minha mãe".

Um processo foi aberto pelo advogado e político liberal Jorge Eliecer Gaitán .Vinte anos depois do massacre, candidato à presidência, Gaitán foi morto a tiros, em 9 de abril de 1948. O crime desencadeou "La Violência" , um período de conflito armado entre liberais e conservadores que durou até 1960. Foram 200 mil mortos, entre policiais, paramilitares, militares, rebeldes, civis.

O conflito ainda em curso no país começou nos anos 60. As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia - Exército do Povo (Farc-EP) surgiram no meio da década. Eram uma milícia de camponeses, ligada ao Partido Comunista. Da cobrança de "impostos" sobre a produção de coca, as Farc passaram à produção, a partir dos anos 90, por decisão de congresso. Outros grupos da esquerda armada se formaram:. Eram o Exército Popular de Libertação (EPL), maoísta; Exército de Libertação Nacional (ELN), guevarista; e Movimento 19 de Abril (M-19), nacionalista-revolucionário. As Farc e o ELN, embora enfraquecidos, ainda atuam. 

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Wilson Tosta ENVIADO ESPECIAL A MEDELLÍN, O Estado de S. Paulo

18 Outubro 2015 | 05h00

Pablo Escobar Gaviria ainda é um espectro na capital do Departamento de Antioquia, de onde comandou o tráfico de cocaína para os EUA. Seu rosto decora camisetas vendidas em mercados populares. Seu nome é citado em bairros pobres como o de um benfeitor que deu casas aos humildes. 

Seu irmão, Roberto Escobar Gaviria, ganha dinheiro levando turistas em tour por marcos de sua história. Crianças, influenciadas por um seriado de TV, disputam seu “papel” nas brincadeiras. Medellín, porém, comemora o menor índice de homicídios de sua história. Em 1991, no auge doa violência, eram 380 por 100 mil. Foram 27 por 100 mil, em 2014. Espera-se que cheguem a 19, em 2015. Qualquer indicador acima de um dígito é considerado violência endêmica, mas a queda é notável.

“São os pactos de fuzil”, diz o sociólogo Ivan Darío Ramírez, diretor da ONG Corporación Mandala. Ele se refere a supostos acordos entre criminosos que estariam por trás da “paz tensa” da cidade. “A criminalidade converte qualquer coisa em negócio rentável. A racionalidade econômica explica que o interesse inicial já não seja disputar violentamente os territórios.”

A prefeitura de Medellín atribui a queda nas mortes à ação policial, mas também a projetos sociais e culturais voltados para os jovens. O auge dos assassinatos foi no início da década de 90, mas a queda não foi uniforme. 

Depois da morte de Escobar, em 1993, a chefia do crime ficou com Diego Bejarano, o “Don Berna”. Ele comandava o Bloco Cacique Nutibara, grupo paramilitar que tomou a Comuna 13, em 2003. Ali atuavam as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), o Exército de Libertação Nacional e os Comandos Armados do Povo (CAP). 

Ao lado dos paramilitares, agiram polícia e militares. Helicópteros metralharam casas. Agora, por iniciativa da prefeitura, são feitas escavações onde foram enterrados os corpos de vítimas da ação. Don Berna foi preso e extraditado para os EUA, em 2008. Isso abriu espaço para nova disputa sangrenta entre as quadrilhas, chefiadas por Maximiliano Bonilla Orozco, vulgo Valenciano, e Eric Vargas, apelidado Sebastián. Ambos estão presos.

Hoje, não há um único grande chefe do crime em Medellín. As quadrilhas agem nas comunas, mas são mais discretas e respeitam fronteiras. Têm vínculos com as “bacrim” (bandas criminales), como são chamados os Rastrojos e os Urabenhos, grandes quadrilhas nacionais. Dominam seus territórios e evitam disputas violentas. Há dinheiro para todos, que vem de narcotráfico, assaltos, extorsões, venda de produtos da cesta básica, agiotagem e prostituição infantil.

“Os homicídios em Medellín caíram por uma combinação de três fatores”, diz Ramírez. “Primeiro, o pacto entre os atores armados da criminalidade. Segundo, em razão de algumas políticas sociais. Por fim, as práticas de organizações sociais e comunas, por meio de cultura e esportes, que se tornaram alternativa de vida.”

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