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Macri, com a camisa do Boca Juniors, e Scioli em partida em Buenos Aires, em 2012  TARINGA.NET

Scioli e Macri são clãs amigos e divididos

Governista é amigo de pai de candidato da direita; origem similar confunde eleitores

Rodrigo Cavalheiro CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S. Paulo

01 de novembro de 2015 | 04h00

Cabeleireiro de celebridades em Buenos Aires, Fabio Cuggini conhece bem quem assumirá a Casa Rosada dia 10 de dezembro. Trata-se de um filho de milionário, de ascendência italiana, que ficou famoso no mundo do esporte nos anos 90, época em que passou a cortar o cabelo em seu salão e não sonhava em ser político. Muito menos chegar disputar o segundo turno contra alguém tão próximo. 

A descrição cabe ao governista Daniel Scioli, de 58 anos, e ao conservador Mauricio Macri, de 56. “Quando começaram a vir ao meu salão, frequentavam as mesmas festas e ambientes”, afirma Cuggini, que entrou na alta sociedade bonaerense depois de uma infância na favela no bairro de Flores, onde nasceu o papa Francisco.

Daniel e Mauricio – eles se chamam pelo primeiro nome – não são amigos, embora mantenham uma relação amistosa. Nunca frequentaram a casa um do outro, mas têm um trato tão cordial que se difundiu na Argentina a ideia de que armaram um pacto de não agressão.

Em 2012, ambos jogaram uma partida de futebol, em que o time de Scioli, o Villa La Ñata, goleou por 10 a 5 o de amigos de Macri. A presidente Cristina Kirchner, em recuperação de uma operação na tireoide por um câncer que logo não se confirmou, reprovou a mostra de camaradagem. 

“Não há um acordo, mas uma relação de respeito. O círculo de amigos de Mauricio é muito restrito, colegas do colégio”, diz um porta-voz macrista, que trabalha com o candidato há 20 anos. Segundo este integrante da coalizão de direita Cambiemos, a relação entre as famílias vem de férias que o jovem Scioli passava na costa italiana, na casa de um amigo em comum com o pai de Macri.

Franco Macri foi um ícone do empresariado argentino nos anos 80 e 90. No setor de construção, ganhou grandes concessões na presidência de Carlos Menem (1989-1999), que lançou Scioli na política. Até 1997, Daniel era um piloto de lancha conhecido por ter perdido o braço direito em um acidente, em 1989, e investido em corridas boa parte da fortuna do pai, dono da Casa Scioli, rede de eletrodomésticos, e do Canal 9, estatizado por Isabel Perón antes do golpe de 1976. 

Enquanto os Sciolis, após dificuldade financeira, mantiveram-se na categoria dos ricos, Franco tornou a família Macri multimilionária. Quando há 10 anos Mauricio, ainda na presidência do Boca Juniors, decidiu fundar a coalizão que levaria à criação do partido Proposta Republica (PRO), como alternativa ao kirchnerismo, Franco não só foi contra. Tornou-se inimigo do filho e manteve a amizade com o peronismo e Scioli.

No início de 2014, quando ambos já se perfilavam como possíveis candidatos a presidente, Franco reforçou à revista Noticias sua contrariedade. “(Mauricio) tem a cabeça de um presidente, mas não o coração”, afirmou o empresário de 85 anos. Franco elogiou Scioli, governador da Província de Buenos Aires (37% dos eleitores do país). 

Scioli brigou com o irmão Pepe, que abandonou seu gabinete, em 2010, e passou à oposição. Derrotado, Pepe voltou a seu lado e participa da campanha.

A reconciliação entre os Macris não foi tão explícita. Após estar perto da morte, o empresário foi a um comício do filho este ano. “Há nele duas pessoas, uma que me ama incondicionalmente e outra que me boicota”, disse Mauricio, na terça-feira, ao canal TN. 

A origem social e a história familiar semelhantes dos rivais leva eleitores menos ligados a partidos a ter dificuldade de distingui-los. “Nas pesquisas, muitos não sabem apontar diferenças”, afirma a consultora Mariel Fornoni, diretora da M&F.

No momento, a fixação por desfazer essa impressão de homogeneidade é de Scioli, que esperava vencer no primeiro turno há uma semana e obteve 36,8% dos votos. Macri teve 34,3%, mas fica mais perto da Casa Rosada e for confirmada a tendência de a maior parte do voto dos demais candidatos concentrar-se nele. 

“Entre eles há uma ligação de respeito, mas pensam muito diferente. Um é Flamengo, outro Fluminense”, afirma um assessor de Scioli que o acompanha desde que era piloto. 

Há uma semana, o candidato governista descreve dois modelos. O seu, de inclusão e desenvolvimento, e o de Macri, a quem acusa de querer deixar tudo a cargo do mercado. O conservador faz um apelo por mudança e pelo fim do modelo kirchnerista, que tirou o país da crise de 2001, mas deixou uma economia com distorções. Um corte masculino no salão de Cuggini, 290 pesos (R$ 117), equivale a uma conta de luz, em razão dos subsídios à energia. “Com uma relação como essa, algo vai mal no país”, diz o cabeleireiro.

Entre os dois amigos, ele fica com o discurso do menos vaidoso, Macri – em Scioli escasseiam os fios, o que o torna mais obcecado com o visual, explica. “O Scioli que sentava aqui nos anos 90 nunca defendeu nacionalizações, nasceu com Menem. Nenhum político sobrevive a um arquivo, eu sei. Mas Macri fez um bom governo na cidade e temos de tentar. E assim estamos, tentando há 30 anos.”

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Aos 32 anos, o maior trauma do presidente

O governista perdeu o controle da lancha que pilotava no Rio Paraná em 1989 e teve o braço direito decepado

Rodrigo Cavalheiro CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S. Paulo

01 de novembro de 2015 | 04h11

Provavelmente a maior coincidência entre as que marcam a trajetória de Daniel Scioli e Mauricio Macri é ter passado por seu maior trauma aos 32 anos. O governista perdeu o controle da lancha que pilotava no Rio Paraná em 1989 e teve o braço direito decepado. “Voltei a correr e fui campeão. Não desisto de nada.”

Scioli usa uma prótese, que ajusta anualmente na Europa. Ele brinca com a limitação. Em um programa de TV, desafiou um sósia a também fazer o nó da gravata com uma mão só, ao vivo. Na última semana, após quebrar a mão esquerda no futsal, disse que não poderia dar vantagem maior a adversários. “Estou dando um braço e meio.”

Macri foi sequestrado por 14 dias em 1991. Ao ser capturado, foi agredido e transportado em um caixão funerário até o sótão de uma casa em Buenos Aires. Os criminosos, ex-policiais federais, o soltaram depois de a família pagar US$ 6 milhões. 

Ao lançar sua campanha, rompeu o silêncio sobre o tema, no texto Da Escuridão. "Passei a maior parte do tempo em uma caixa de madeira e um metro e meio por um metro e meio. Desciam comida de um buraco no teto.” Ele diz que o episódio o motivou a presidir o Boca Juniors e a entrar na política. 

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Líder terá legado vitorioso no esporte

Ao deixar o esporte, Scioli elegeu-se deputado facilmente, em um projeto do ex-presidente Carlos Menem de usar a popularidade de esportistas na política

Rodrigo Cavalheiro CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S. Paulo

01 de novembro de 2015 | 04h00

O governista Daniel Scioli cita frequentemente sua carreira como piloto de lancha, entre 1980 e 1997, para argumentar que sabe trabalhar em equipe, superar adversidades e se adaptar.

Scioli competiu na Europa, América Latina e EUA. Há controvérsia entre especialistas sobre a importância dos campeonatos que ganhou, mas consenso sobre a notoriedade que adquiriu no mundo esportivo.

Ao deixar o esporte, elegeu-se deputado facilmente, em um projeto do ex-presidente Carlos Menem de usar a popularidade de esportistas na política. Outro foi o ex-piloto de Fórmula-1 Carlos Reutemann, hoje aliado de Mauricio Macri, que também ganhou notoriedade graças ao esporte, como dirigente. Entre 1995 e 2008, comandou o Boca Juniors. O time obteve 11 títulos internacionais, entre eles 4 Copas Libertadores e 2 Mundiais. Tornou-se o presidente mais vencedor do clube. 

O Boca, time pelo qual torce também Scioli, foi razão de uma rara desavença entre eles. Em 2011, Scioli apoiou para o comando do clube um candidato rival ao que Macri apadrinhava. Macri questionou Scioli: “Por que você se mete no Boca?”. “Porque me pediram”, respondeu Scioli. 

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