Nova onda de violência deixa pelo menos 1 morto no Quênia

Oposição convoca ato de três dias contra a reeleição do presidente; policiais reprimem protestos no país

Agências internacionais,

16 de janeiro de 2008 | 09h37

A polícia queniana dispersou manifestantes com bombas de gás lacrimogêneo e bloqueou completamente o acesso ao parque de Nairóbi para evitar o início da onda de protestos de três dias convocadas pela oposição que começa nesta quarta-feira, 16. Segundo a Reuters, pelo menos dois manifestantes foram mortos a tiros por policiais em protestos por todo o país.  Veja TambémEntenda a crise pós-eleitoral no Quênia  O líder da oposição Raila Odinga, que contesta o resultado da reeleição do presidente Mwai Kibaki em dezembro, convocou o protesto em 42 cidades quenianas. Atos como os dessa quarta desencadearam uma onda de violência que já deixou mais de 600 mortos e 250 mil deslocados no país desde o início do mês, quando Forças de Segurança reprimiram os opositores. Odinga afirmou que "nada interromperá a realização das manifestações".  Nas cidades de Kisumu e Mombaça, jovens começaram a se reunir logo cedo, alguns queimando pneus e montando barricadas. Em Kisumu, importante reduto da oposição, a polícia dispersou cerca de mil manifestantes com gás lacrimogêneo, cassetetes e tiros para o alto. Um cameraman da Reuters disse ter visto o cadáver de um homem morto a tiros em uma das ruas da cidade. "Estamos recebendo mais vítimas de tiros", disse um médico do hospital de Kisumu. Em Nairóbi, a polícia perseguiu manifestantes no bairro financeiro do centro da capital, também usando gás lacrimogêneo e disparos para o ar. O gás chegou a entrar em escritórios da região. Muita gente evitou sair de casa, o comércio fechou, e havia pouco trafego nas ruas.  Em Mombaça, a polícia dispersou cerca de 150 jovens, que em seguida tentaram se reagrupar, segundo testemunhas. Grupos montaram barricadas perto de Eldoret, no vale do Rift, a área mais atingida pelos confrontos étnico-partidários das últimas semanas. "Queremos que Kibaki renuncie para abrir o caminho para nosso legítimo presidente Raila Odinga", disse o manifestante Joel Oduor, tossindo e lacrimejando por causa do gás, em Kisumu.  Fraude eleitoral  Alimentando as dúvidas sobre a lisura do pleito, vencido oficialmente por Kibaki por uma margem de 230 mil votos num total de 10 milhões, uma importante autoridade dos EUA disse na quarta-feira que é impossível saber quem de fato ganhou a Presidência. "Fizemos nossa análise. O que ela mostra é que o resultado foi extremamente apertado e que quem tiver vencido provavelmente venceu por não mais do que 100 mil votos, no máximo", disse o embaixador dos EUA em Nairóbi, Michael Ranneberger, ao jornal Daily Nation.  "Não é realmente possível dizer com certeza quem ganhou, porque o processo não foi transparente", afirmou o diplomata, que sugeriu uma divisão de poderes, em vez de uma recontagem.  A oposição do Quênia saiu vitoriosa na votação desta terça-feira para eleger o presidente do Parlamento, o terceiro homem na linha de poder do país. Kenneth Marende, do principal partido de oposição, foi eleito com apenas quatro votos de vantagem em uma sessão marcada por tumultos. Porém, os apoiadores de Odinga prometeram manter os protestos até que Kibaki e seu governo reconheçam que a eleição foi fraudada.  Observadores locais e estrangeiros afirmam que a votação foi profundamente fraudada e que alguns dos resultados divulgados na capital, Nairóbi, eram diferentes dos apurados nos distritos eleitorais. Em algumas regiões, o número de votos foi maior do que o número de eleitores registrados.  Segundo a BBC, a sessão foi a primeira do Legislativo desde as eleições presidenciais há três semanas, que reelegeram o presidente Mwai Kibaki e deram início à uma onda de violência no país. A votação no Parlamento foi iniciada em clima de suspense e tensão, depois de longos debates exaltados a respeito dos procedimentos para a votação.  Durante a votação, os membros do ODM, partido que comandou os protestos contra o resultado das eleições presidenciais e pedindo a renúncia de Kibaki, ocuparam cadeiras alocadas para os membros do governo em sinal de protesto. Apesar disso, o líder do partido, Raila Odinga, não participou da manifestação e sentou-se na cadeira alocada para a oposição. Esta foi a primeira vez que Odinga e Kibaki, se encontram desde as eleições.  Texto atualizado às 14h45

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