John Moore/Getty Images via AFP
John Moore/Getty Images via AFP

Nova política de imigração do México aumenta problemas na fronteira com EUA

Governo de AMLO não consegue conter fluxo de pessoas que se dirige ao território americano; agora, também limita o número de famílias que aceita de volta

Mary Beth Sheridan, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2021 | 05h00

CIUDAD JUÁREZ, México - Numa tarde recente, a mensagem apareceu no celular do pastor evangélico Juan Fierro. Fiscais da fronteira dos Estados Unidos haviam expulsado um outro grupo de famílias da América Central para Ciudad Juárez. Alguém poderia cuidar delas?

Juan Fierro ficou surpreso com o pedido. Durante grande parte da pandemia, as autoridades em Ciudad Juárez colocaram os novos imigrantes num centro de quarentena por 14 dias. Repentinamente o centro ficou lotado. “Não há mais lugar para abrigar essas pessoas”, disse ele. Sua equipe no abrigo O Bom Samaritano colocou beliches numa sala vazia. Em questão de dias, o rudimentar centro de quarentena abrigava 23 mulheres e crianças.

O presidente Joe Biden esperava colocar um freio no repentino aumento de famílias centro-americanas que se dirigem para os EUA mantendo a política do governo Trump de devolvê-las ao México. Mas o país latino vem tendo cada vez mais dificuldades para lidar com esse fluxo de pessoas. E agora está limitando o número de famílias que aceita de volta. O cenário forçou o governo dos Estados Unidos a aceitar a maior parte delas: cerca de 53 mil pessoas foram colocadas em custódia em março, em comparação com 7.300 em janeiro.

O recuo do México criou um novo obstáculo para o governo Biden, que agora enfrenta aquela que pode ser a maior onda de imigrantes chegando à fronteira sul do país em 20 anos. Pressionado pelos Estados Unidos, o México se tornou uma zona tampão crucial entre a América Central e os EUA. As autoridades deportaram dezenas de milhares de imigrantes tentando entrar nos Estados Unidos e mantiveram os requerentes de asilo aguardando decisão de tribunais americanos. Com o coronavírus atingindo os dois países no ano passado, o governo Trump adotou uma das medidas de fronteira mais restritivas até hoje utilizadas, a chamada Title 42, para expulsar quase todos os imigrantes e requerentes de asilo centro-americanos para o México.

O governo Biden continuou a usar a regra para famílias e adultos sós, mas isentou as crianças desacompanhadas. Agora as autoridades americanas temem que a recusa do México em receber as famílias expulsas provocará um efeito cascata. À medida que mais pessoas da América Central conseguem se inserir no sistema de imigração dos Estados Unidos, parentes e vizinhos no seu país decidem empreender o mesmo caminho.

É o caso de Ingrid Posas, 33 anos, que deixou Honduras em meados de fevereiro quando viu postagens de amigos no Facebook que haviam conseguido entrar nos Estados Unidos.

“Ouvimos falar que eles estavam permitindo a entrada de famílias. Por isso eu vim”, disse ela, sentada num banco com sua filha de quatro anos de idade no centro de quarentena do abrigo O Bom Samaritano, sob um varal com roupas lavadas.

As autoridades mexicanas afirmam que a recusa abrupta a aceitar mais famílias tem a ver com uma nova lei que impede que crianças sejam detidas em instalações destinadas a imigrantes. A lei transitou no Congresso mexicano no fim do ano passado, mas não despertou muita atenção.

Agências das Nações Unidas e ativistas de direitos humanos já vinham pressionando por uma lei nesse sentido. Mas o governo possui poucos abrigos para crianças no norte do México. Assim, algumas semanas depois de a lei entrar em vigor, em janeiro, as autoridades mexicanas informaram não ter mais espaço para receber famílias da América Central expulsas do Vale do Rio Grande, no sul do Texas, o posto de fronteira mais concorrido.

“Isso certamente nos pegou de surpresa”, afirmou um funcionário do governo Biden.

As autoridades então indagaram se essas famílias poderiam ser encaminhadas para outras partes da fronteira e expulsas. As autoridades mexicanas “concordaram em receber um número limitado delas”, disse o funcionário.

Ficou estabelecido que Ciudad Juárez receberia 100 pessoas a cada dia. Mas mesmo esse número esgotou os recursos da cidade industrial localizada entre Rio Grande e El Paso, no Texas. Mais de 1.700 pessoas, entre imigrantes e requerentes de asilo, lotaram os 20 abrigos da cidade, dormindo em beliches em salas transformadas em dormitórios, ou mesmo em colchões no chão. É um número muito maior do que o observado durante o último pico de imigração, no verão de 2019. E agora há uma pandemia. E as organizações cívicas e religiosas que dirigem esses abrigos têm pouco acesso a testes de coronavírus.

“Quando me perguntam se eu posso abrigar essas 80 ou 120 pessoas, quem garante que elas não contraíram a covid?”, indagou o reverendo Javier Calvillo, padre católico que administra a Casa do Migrante, um dos maiores abrigos da região. O complexo de tijolos já sofreu com um surto de covid no ano passado. Quinze funcionários e cerca de 30 imigrantes foram infectados. Ele agora se recusa a receber algumas das famílias.

Na cidade, o reverendo Hector Trejo, padre episcopal, está preocupado com o número de pessoas que consegue acomodar durante a pandemia. Ele estabeleceu um limite de 60 pessoas em sua igreja do Espírito Santo, metade da capacidade habitual. Em fevereiro, contudo, as autoridades locais o avisaram que 100 haitianos haviam sido expulsos para Ciudad Juárez e perguntaram se ele poderia abrigar metade deles.

“Neste momento estou com 53 pessoas. Quebramos as regras, por necessidade”, disse ele. 

Críticos afirmam que a falta de espaço é apenas parte do problema. O governo mexicano, afirmam, usa a nova lei como desculpa para não atender ao governo Biden, ou obter algo em troca, como vacinas contra o coronavírus.

“Todos sabem que as leis mexicanas não têm nenhum sentido se o governo federal não as respeita”, disse o ex-ministro do Exterior Jorge Castañeda, um crítico do presidente Andrés Manuel López Obrador. As autoridades mexicanas poderiam cumprir a nova lei transformando escolas ociosas em centros improvisados para essas famílias, disse ele. Mas o governo federal não mostra disposição para isso e nem para aumentar o orçamento para a criação de novos abrigos, afirmou.

O que deixa as autoridades locais às voltas com o problema. Em Ciudad Juárez, elas vêm trabalhando com organizações internacionais e o governo federal para abrir um abrigo em um ginásio onde 500 imigrantes podem ser colocados em quarentena e testados para o coronavírus. O sistema de quarentena foi bastante ampliado e até recentemente estava centralizado num hotel com capacidade para 108 pessoas, dirigido pela International Organization for Migration. Mas dias depois da sua abertura, na semana passada, o abrigo municipal abriga mais de 150 pessoas e o temor é que deve ficar lotado também.

No mês passado, o presidente Biden disse que vinha negociando com López Obrador uma solução para as famílias centro-americanas que chegam à fronteira. “Eles devem ser mandados de volta”, declarou. Autoridades americanas afirmam ter pedido ao governo mexicano para adiar a implementação da nova lei. Mas até agora isso não ocorreu. Em fevereiro, os Estados Unidos expulsaram 40% das famílias que cruzavam a fronteira, mas à medida que a circulação aumentou, o número caiu de 10% a 20%.

O ministro do Exterior do México afirmou que o país “recebe alguns imigrantes dependendo das capacidades institucionais” e com base nas leis domésticas. López Obrador criticou o governo Biden por não investir mais em projetos de desenvolvimento no sul do México e na América Central para impedir que os cidadãos deixem seu país. “Estamos prontos para fazer nossa parte e trabalhar juntos na luta contra o tráfico humano e na proteção dos direitos humanos, especialmente das crianças”, ele declarou no Twitter, na quarta-feira, após receber um telefonema da vice-presidente Kamala Harris.

Mas as autoridades americanas também estão lutando para abrigar famílias e crianças e desacompanhadas do lado americano da fronteira. Muitas famílias têm processo aberto no tribunal de imigração, mas isto deve se arrastar por meses ou anos. É o que motiva mais pessoas da América Central a se aventurarem.

Xeni, uma hondurenha de 25 anos de idade, deixou sua casa na província de Comayagua em meados de março e esperava se reunir com seu marido, que migrou para a Flórida em 2019. “Muitas pessoas da minha cidade conseguiram entrar nos Estados Unidos” nas últimas semanas, disse ela. Ela viajou de balsa pelo Rio Grande, da cidade mexicana de Reynosa até McAllen, no Texas, com seu filho de seis anos e sua filha. Elas chegaram à terra e sentiram um breve momento de felicidade.

“Telefone para o papai”, disse o menino. “Diz para ele vir nos buscar”

Xeni foi uma das pessoas que não tiveram sorte. Fiscais da fronteira dos Estados Unidos a colocaram sob custódia e depois a embarcaram num avião. Ela foi informada que seria levada a uma cidade diferente para seu pedido ser processado. Mas quando chegaram a El Paso, foram levados de ônibus até uma ponte com destino a Ciudad Juárez. Numa tarde recente, ela estava sentada na cafeteria do abrigo em que se encontra, com sua filha de três anos no colo tossindo sem parar.

“Fomos todos enganados”, afirmou.

O departamento de serviços alfandegários e proteção de fronteiras dos Estados Unidos informou em comunicado que os migrantes no Vale do Rio Grande vêm sendo enviados para três outros locais fronteiriços, Laredo, no Texas, San Diego e El Paso - onde seus pedidos são processados “do modo mais seguro e rápido possível”. E que, por causa das restrições do coronavírus, “a fronteira não está aberta”.

Ativistas temem que migrantes como Xeni não tenham nenhuma condição legal - não há uma data marcada para comparecerem a um tribunal nos Estados Unidos e eles não têm permissão de trabalho no México. “Isto vem provocando caos na fronteira”, disse Fierro.

A situação ficará mais complicada se as expulsões baseadas no Title 42 acabarem. Funcionários do governo disseram que a política adotada está sob análise e vai se tornar irrelevante à medida que a pandemia vai desaparecendo. O governo encerrou o Protocolos de Proteção a Migrantes, programa da era Trump que exigia que os requerentes de asilo esperassem no México até a data de comparecimento a um tribunal. Mas não foi anunciado nenhum novo sistema substituto.

Muitos migrantes afirmam que não podem voltar ao seu país, de onde fugiram da violência ou porque gastaram todo o dinheiro que possuíam na viagem. Alguns viajam para outros postos de fronteira na esperança de entrar nos Estados Unidos, ou instruem os filhos a entrarem sozinhos, sabendo que o governo não está expulsando menores desacompanhados.

Xeni disse que não pode retornar a Honduras porque sua casa foi destruída por dois furacões em novembro. E está desesperada para dar aos filhos uma vida melhor. Tão desesperada que vem pensando numa medida drástica.

“A única alternativa é mandar as crianças atravessarem a ponte”, afirmou. /Tradução de Terezinha Martino

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