Nova posição em relação a Teerã estaria vinculada à vaga no CS

Fontes que participam da negociação afirmam que o governo americano rejeita qualquer tipo de acordo

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2011 | 00h00

GENEBRA - O voto do Brasil no Conselho de Direitos Humanos da ONU hoje, aparentemente, é parte do esforço do governo da presidente Dilma Rousseff de reverter a posição do País em relação ao Irã e dar início a um processo para convencer os EUA a apoiarem explicitamente a busca brasileira por uma cadeira de membros permanente no Conselho de Segurança da ONU.

A posição contrária ao Irã seria o primeiro ato de rompimento com a política externa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, duramente criticada pelos americanos e por entidades de direitos humanos.

De acordo com uma fonte de alto escalão do Departamento de Estado americano ouvida pelo Estado - envolvida diretamente nas negociações sobre a resolução -, o Itamaraty chegou até a propor o coautoria da resolução. De acordo com a fonte, a proposta brasileira surpreendeu a Casa Branca, mas a resposta foi taxativa: "Não há acordo."

Em Brasília, no entanto, o Itamaraty desmente oficialmente qualquer negociação que vincule a posição do Brasil sobre o Irã com os debates sobre a vaga de membro permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Para Washington, uma nova posição do Brasil em relação ao Irã certamente ajudaria o País a obter um eventual apoio para a vaga permanente o Conselho de Segurança. Essa mensagem do governo americano também ficou explícita nas conversas reservadas entre diplomatas dos dois países nos últimos dias.

O Departamento de Estado, porém, rejeita a ideia de que barganhar o apoio ao Brasil. A diplomacia americana revelou que o argumento do Itamaraty era o de que o governo brasileiro não teria razão para mudar sua posição tradicional em um assunto como direitos humanos sem receber algo concreto em troca.

Impasse. Durante a viagem do presidente americano, Barack Obama, ao Brasil, no fim de semana, a falta de um acordo se refletiu na visita. Washington não declarou seu apoio explícito à candidatura de Brasília.

Obama apenas disse que via as aspirações brasileiras com "apreço". Já o Brasil deixou o presidente americano sem uma resposta clara quando ele usou o encontro com Dilma para pedir o apoio à resolução.

PARA LEMBRAR

Dilma se revela menos tolerante

Na questão dos direitos humanos, a presidente Dilma Rousseff tem mostrado menos leniência com o Irã do que seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva. Em entrevista ao Washington Post, antes de assumir o cargo, Dilma condenou a pena de apedrejamento à iraniana Sakineh Ashtiani e disse não concordar com a abstenção brasileira na ONU na condenação à República Islâmica pelas violações dos direitos humanos.

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