Paolo Aguilar/Efe
Paolo Aguilar/Efe

Nova praga ameaça elevar preço de ópio, diz agência da ONU

Relatório Mundial de Drogas 2012 mostra que uso geral de drogas ilícitas parece ter se estabilizado

Reuters, REUTERS

26 de junho de 2012 | 15h08

VIENA - Uma nova praga está prestes a atingir os campos de papoula do Afeganistão este ano, elevando os preços do ópio e ameaçando estimular uma mudança para substitutos de heroína potencialmente letais como o "krokodil", anunciou a agência de drogas da ONU nesta terça-feira, 26.

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Pragas em plantas destruíram quase metade da produção de ópio em 2010 no Afeganistão, o maior produtor do mundo, mas a produção no país recuperou 61 por cento no ano passado, disse o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) em seu Relatório Mundial de Drogas 2012.

Isso ajudou a colocar a produção de ópio mundial em 7.000 toneladas em 2011, embora esteja mais de um quinto abaixo do pico de 2007.

"Podemos antecipar que este ano haverá outra praga de planta -- talvez não na mesma escala que em 2010 --, mas (isso) ainda pode afetar, especialmente na parte sul do Afeganistão, o cultivo de papoula", disse o diretor-executivo do UNODC, Yuri Fedotov. "Isso significa que a produção de ópio pode não aumentar ou pode até diminuir, mas ao mesmo tempo, definitivamente, levaria a um aumento nos preços para o próximo ano. Isso é algo que precisamos tratar com muita seriedade."

O relatório do UNODC citou indícios de que a escassez havia encorajado os usuários em alguns países a substituir heroína com outras substâncias, tais como desomorfina -- cujo nome de rua é krokodil -- ópio acetilado e narcóticos sintéticos.

O krokodil é uma droga bruta com base de codeína que os usuários injetam, arriscando-se a ter sérios problemas de saúde já que ela ataca o tecido do corpo. "É uma droga poderosa que pode matar as pessoas em apenas dois meses, em poucas semanas", disse Fedotov.

É difícil avaliar que impacto a quebra da safra de 2010 no Afeganistão teve sobre os principais mercados, segundo o relatório, mas as apreensões de drogas caíram na maioria dos países que receberam opiáceos afegãos. Alguns países europeus, incluindo a Grã-Bretanha e a Rússia, tiveram falta de heroína.

Os preços de opiáceos na Europa e nas Américas não tinham mudado muito desde 2009, disseram as autoridades, mas os preços no Afeganistão e no segundo maior produtor, Mianmar, continuaram a subir em 2010 e 2011. Um quilo de ópio custa em torno de 200 a 250 dólares no Afeganistão.

O aumento dos preços em momentos de produção crescente pode refletir demanda sub-relatada da Ásia e da África, um mercado crescente para ópio bruto não transformado em heroína, um mercado paralelo para a morfina ou especulação nos mercados locais, apontou o relatório.

Sindicatos de droga também tendem a estocar o ópio para poder amenizar as flutuações no fornecimento, disseram membros do UNODC.

Cannabis no topo

O relatório de 2012 mostrou que o uso geral de drogas ilícitas parece ter se estabilizado, mas estava em ascensão em vários países em desenvolvimento, especialmente aquelas ao longo das rotas de tráfico.

Fedotov citou como exemplo o consumo crescente de cocaína na África Ocidental, agora uma rota de trânsito para o embarque de suprimentos da América Latina para a Europa, cada vez mais da Bolívia e do Peru à medida que a produção na Colômbia -- principalmente com destino à América do Norte -- diminui.

O cannabis permaneceu sendo a droga ilícita mais popular, com entre 119 milhões e 224 milhões de usuários em todo o mundo, disse o relatório. Isso foi seguido por estimulantes de tipo anfetamínico (ATS), cuja utilização estava em grande parte estável, apesar de metanfetamina e ecstasy parecerem estar em ascensão.

As apreensões de metanfetaminas mais do que duplicaram em 2010 em comparação a 2008 devido a grandes aquisições na América Central e Ásia. Apreensões de comprimidos de ecstasy mais do que duplicaram na Europa entre 2009 e 2010, e o uso da droga parecia estar aumentando nos Estados Unidos e Oceania.

O relatório enfatizou as ameaças à saúde e à segurança que as drogas ilícitas impõem, renovando o pedido do UNODC por uma abordagem integrada para redução da oferta e da procura.

"Heroína, cocaína e outras drogas continuam a matar cerca de 200.000 pessoas por ano, destruindo famílias e trazendo miséria para milhares de outras pessoas, insegurança e propagação do HIV", disse Fedotov.

Estima-se que cerca de 230 milhões de pessoas, quase cinco por cento da população adulta do mundo, tenham usado alguma droga ilícita pelo menos uma vez em 2010. Cerca de 27 milhões, ou 0,6 por cento dos adultos, são consumidores problemáticos de droga, principalmente heroína e cocaína.

Por outro lado, as pesquisas têm mostrado que 42 por cento dos adultos bebem álcool e um quarto usa tabaco.

Fedotov afirmou que sua agência estava investigando os relatos de que o governo do Uruguai planeja legalizar o mercado da maconha como parte de um esforço para parar o aumento da criminalidade.

"Se esses relatos se confirmarem, é claro que será um desdobramento decepcionante", disse ele a jornalistas, citando convenções internacionais contra essa medida.

"A maconha não é tão inocente como algumas pessoas preferem descrevê-la", acrescentou ele, observando que seus usuários enfrentaram mudanças fisiológicas irreversíveis e muitas vezes mudam para drogas mais pesadas.

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