AP Photo/Chiang Ying-ying
AP Photo/Chiang Ying-ying

Nova presidente de Taiwan pede paz e estabilidade com China e defende democracia

Tsai Ing-wen, primeira mulher a governar o país, disse ao assumir o cargo que seu objetivo 'é resolver problemas' para 'entregar país melhor para a nova geração'

O Estado de S. Paulo

20 Maio 2016 | 10h47

TAIPÉ - Taiwan quer "paz e estabilidade" e também consenso em seus laços com a China, afirmou nesta sexta-feira, 20, a nova presidente da ilha, Tsai Ing-wen, em seu discurso de posse, no qual prometeu "defender a democracia" taiwanesa.

Tsai, de 59 anos, do independentista Partido Democrata Progressista (PDP) e a primeira mulher presidente de Taiwan, prometeu em seu discurso "conduzir os laços com a China de acordo com a Constituição e outras leis", um reconhecimento indireto da ligação da ilha com a China, mas não com o regime comunista.

Em um discurso que foi acompanhado com grande interesse em Pequim e no resto do mundo, Tsai insistiu em "defender a democracia" de Taiwan como política prioritária. "Meu objetivo é resolver problemas" e "entregar um país melhor para a nova geração", disse a nova presidente, que também ressaltou o desejo de que Taiwan tenha maior protagonismo internacional, sem se ausentar dos esforços para construir a paz e a estabilidade regional.

Tsai prometeu transformar a estrutura econômica de Taiwan, lutar contra a poluição, melhorar a previdência social, impulsionar a reforma da Justiça, elevar o protagonismo internacional da ilha e cooperar com os países do sudeste asiático e a Índia.

Para os taiwaneses, o que mais preocupa é a capacidade do novo governo de reativar a economia da ilha. No entanto, o mundo está de olho na postura de Tsai com relação à China e nas reações do gigante asiático, que considera Taiwan parte de seu território e está incomodado com a postura de defesa da soberania da nova presidente.

"A economia não pode melhorar de um dia para o outro, mas esta mudança presidencial desencadeou muitas expectativas entre a população", disse nesta sexta-feira o diretor de Estudos Estratégicos da Universidade Tamkang, Li Da-zhong.

Com a posse de Tsai, Taiwan entra em um novo período, que põe fim à política do presidente anterior, Ma Ying-jeou, do Partido Kuomintang, de "trégua na luta diplomática" e reconhecimento do chamado "Consenso de 1992", que Pequim interpreta como a aceitação de que a ilha é parte da China.

Diante das 20.000 pessoas que acompanhavam a cerimônia diante do palácio presidencial, Tsai quis apresentar Taipei como uma força de paz. Estiveram na cerimônia de posse 700 dignatários de 59 países, 22 deles aliados diplomáticos de Taiwan e não da China, incluindo o presidente do Paraguai, Horacio Cartes, e as primeiras-damas de Guatemala, Haiti e Panamá.

Tsai é a segunda dirigente independentista no comando da ilha após Chen Shui-bian, que exerceu a presidência entre 2000 e 2008. No entanto, agora o PDP conta com maioria parlamentar para aplicar seu programa de reformas sociais e econômicas.

Reação. Poucas horas após a posse, Pequim reagiu contra qualquer tentativa de avançar a uma eventual independência. "Se buscar a independência, será impossível ter paz e estabilidade no Estreito de Taiwan", advertiu o Escritório de Assuntos de Taiwan do governo chinês em um comunicado.

Desde a vitória eleitoral de Tsai, as relações voltaram a se distanciar. A China quer que Tsai assuma o consenso tácito concluído em 1992 entre Pequim e Taipé, que afirma que há "uma só China" e que cada parte pode interpretar a sua maneira.

Embora a nova presidente e o partido PDP não reconheçam este consenso de 1992, Tsai repetiu muitas vezes que manterá o "status quo". Sem se afastar de seus princípios, a dirigente destaca a importância do diálogo.

"As relações bilaterais se converteram em parte integrante da construção da paz regional e da segurança coletiva", disse. "Neste processo, Taiwan será um 'ferrenho guardião da paz' que participará de forma ativa e não estará ausente."

Sem mencionar a China, apelou, no entanto, para que a ilha coloque fim a sua independência comercial em relação ao continente e termine com "nossa antiga subordinação a apenas um mercado".

O território segue seu próprio rumo desde 1949, quando os nacionalistas do KMT, liderados por Chiang Kai-shek, se refugiaram na ilha após a vitória dos comunistas de Mao Tsé-tung. Após a morte de Chiang, Taiwan abraçou pouco a pouco a democracia.

Bloqueio midiático. Segundo os analistas, a nova presidente tentou em seu discurso manter um equilíbrio que tranquilize Pequim, mas sem contradizer os taiwaneses críticos à China.

"(Tsai) tentou dar um tom conciliador, levando em conta a falta de confiança entre as duas partes", considerou Tang Shao-cheng, cientista político da Universidade Nacional de Chengchi em Taipé. "Passou a bola ao campo de Pequim", concluiu.

Mas sem o compromisso do princípio de "uma só China", é provável que Pequim não aceite a iniciativa.

"Acredito que a China não aceitará facilmente este discurso", disse Yang Kai-huang, analista da Universidade Ming Chuan de Taipé. "É difícil ser otimista a respeito das relações bilaterais", admitiu.

Na China, os meios de comunicação acompanharam de forma discreta a posse de Tsai. Os termos "Taiwan" e "Tsai Ing-wen" estavam bloqueados na rede social Sina Weibo. Para o Global Times, jornal próximo ao Partido Comunista da China, a chegada ao poder de Tsai Ing-wen marca o início de "uma nova era caracterizada pela incerteza". / EFE, AFP e REUTERS

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