'Nova recessão mundial seria desastrosa para os cubanos', diz economista

Oscar Espinosa, um dos críticos mais equilibrados do regime, teme que as medidas não cheguem a tempo

Entrevista com

Rodrigo Cavalheiro, enviado especial a Guantánamo, Cuba, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2011 | 03h05

GUANTÁNAMO, CUBA - Preso durante a chamada Primavera Negra, onda de repressão que tirou das ruas 75 dissidentes cubanos em março de 2003, o economista Oscar Espinosa está entre os críticos mais equilibrados do regime cubano. Morador de um subúrbio de Havana - foi liberado por licença médica -, ele acredita que Raúl Castro está determinado a abrir o país ao mercado. Mas teme que as medidas não cheguem a tempo de evitar um colapso econômico e político.

 

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'Estado': Por que a distribuição de terras em usufruto ainda não deu certo?

 

Oscar Espinosa: Essas terras estiveram abandonadas desde que deixaram de ser latifúndios privados para ser latifúndios do Estado, em 1969. É muito difícil cultivá-las sem apoio. Há outras travas. O governo não deixa o usufrutuário construir sua casa no terreno, que fica com ele por no máximo dez anos.

'Estado': Por que a reforma econômica de Raúl está demorando a fazer efeito?

 

Oscar Espinosa: As mudanças de Raúl vão na direção correta, mas temo que não evitem o colapso econômico. Fidel Castro foi um Deus aqui, mas deixou um país caótico para o irmão. Em volume, a produção industrial é 43% do que era em 1989. Há uma descapitalização do país.

'Estado': Que outros setores foram afetados?

Oscar Espinosa: A criação de gado, por exemplo. O rebanho era de 7,9 milhões de cabeças em 1969. Hoje é de 4 milhões.

'Estado': Que papel tem o bloqueio econômico dos EUA?

Oscar Espinosa: Ele influi, mas nos bloqueamos internamente também. Fala-se em bloqueio como se fosse algo absoluto, mas os EUA são o 5.º parceiro comercial de Cuba.

'Estado': Como a crise econômica mundial pode afetar a ilha?

Oscar Espinosa: Uma nova recessão mundial seria desastrosa para Cuba. O Brasil pode sofrer um pouco, mas aqui não há nenhuma reserva. Se nas eleições venezuelanas houver uma mudança de corrente, também haverá problemas. Só a falta de petróleo de Hugo Chávez seria um problema gigante.

'Estado': A combinação entre o fim dos subsídios e a manutenção dos salários pode levar a uma revolta popular?

Oscar Espinosa: Se os salários não aumentarem, a população começará a ter dificuldade para comer. O cubano em geral é muito pacífico, mas se houver fome pode haver uma reação inesperada. Não acredito em revolta também porque o governo tem mecanismo de repressão forte, mas no Norte da África o processo começou por falta de comida e inflação. É isso que move um levante.

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