Daniel Tapia/Reuters
Daniel Tapia/Reuters

Nova restrição de Equador e Peru a venezuelanos põe Colômbia em alerta

Colombianos temem que exigência de passaporte para cruzar fronteira equatoriana deixe presos quase metade dos 3 mil venezuelanos que tentam fazer a travessia diariamente

O Estado de S.Paulo

17 Agosto 2018 | 21h05

BOGOTÁ - A Colômbia teme que milhares de imigrantes que fogem da crise na Venezuela sobrecarreguem ainda mais seus serviços públicos após serem barrados na fronteira colombiana com Equador e Peru, que passaram a exigir passaporte dos venezuelanos. Mais de 1 milhão de venezuelanos entraram em território colombiano nos últimos 16 meses. Estima-se que ao menos 423 mil tenham atravessado o país rumo ao Equador, Peru e Chile.

“Estamos falando de cerca de 3 mil pessoas por dia, apenas venezuelanos, que cruzam diariamente o posto fronteiriço de Rumichaca”, disse o diretor da Imigração Colômbia, Christian Krüger, em referência ao principal posto de fronteira entre o país e o Equador. “Se você começar a acumular vários dias, veremos uma população muito grande.”

Krüger disse que a situação é preocupante, pois metade dos venezuelanos que deixam seu país só leva a carteira de identidade. A emissão de passaporte tornou-se um luxo na Venezuela e deixou de ser feita regularmente há mais de um ano. Para um cidadão que sobrevive com um salário mínimo que ronda os US$ 2, conseguir um documento no mercado negro, onde chega a custar cerca de US$ 1 mil, é impossível.

Com a exigência, Peru e Equador indiretamente tendem a garantir o acesso a imigrantes de maior renda e instrução. O principal afetado tende a ser a Colômbia, mas o Brasil também pode sofrer impacto. 

“Estamos preocupados com as consequências que podem ocorrer nessa fronteira, pois com a exigência do passaporte pelo Equador para fazer a travessia haverá enorme dificuldade de controlar a chegada desses imigrantes.” 

Crise na Venezuela

Segundo o Departamento de Imigração da Colômbia, por Rumichaca cruzaram 423 mil venezuelanos apenas em 2018. Muitos seguem para o Equador, mas também usam o país como uma rota para o Peru ou o Chile.

Mais de 1 milhão de venezuelanos entraram na Colômbia nos últimos 16 meses. O governo colombiano afirma que 820 mil venezuelanos foram temporariamente regularizados.

Na quinta-feira, o Equador anunciou que o passaporte venezuelano passará a ser obrigatório para entrar no país a partir deste sábado, 18, em razão das “dificuldades no controle” da onda migratória provocada pela crise econômica na Venezuela.

Até agora, os venezuelanos só precisavam apresentar seu documento de identidade nos postos de entrada, onde recebiam uma autorização que lhes permitia circular livremente pelo território equatoriano.

“Essa medida serve para garantir a segurança dos cidadãos da Venezuela e a segurança de nosso território”, afirmou nesta sexta-feira, 17, o ministro do Interior, Mauro Toscanini, em um comunicado à imprensa. “Identificamos problemas de segurança na carteira de identidade e certidões de nascimento de venezuelanos, além de casos de tráfico e contrabando de migrantes”, disse Toscanini. “Isso cria dificuldades para o controle de imigração, pois não é possível checar dados, nem a autenticidade de documentos”, disse.

O governo do Equador afirma que ao menos 4,2 mil venezuelanos chegam por dia ao país. A Agência de Refugiados da ONU (UNHCR) estima que quase 550 mil venezuelanos tenham entrado no Equador desde o começo do ano. A maioria chega a pé e em condições precárias. A organização estima que apenas 20% dos que chegam ficam em solo equatoriano, enquanto os demais seguem para o Peru e o Chile.

Pouco antes do anúncio, o presidente do Equador, Lenín Moreno, reuniu-se com 13 imigrantes venezuelanos no Palácio de Carondelet, sede do governo do Equador. No encontro, Moreno afirmou que o Equador precisaria “tomar algumas decisões que não vão afetar a vida dos venezuelanos já no Equador”. O presidente equatoriano também afirmou que vai estender os benefícios de todos os serviços sociais equatorianos para os imigrantes da Venezuela que já estão no país. 

A Defensoria Pública do Equador exortou o governo a “desistir da medida de exigir um passaporte como requisito para entrar no Equador”, alegando que isso provocaria uma crise social ainda maior. Para Daniel Regalado, presidente da Associação de Venezuelanos no Equador, o governo tem soberania para tomar suas decisões. “Nós, imigrantes, temos de aceitar, mas isso vai causar muito conflito e tristeza para o povo da Venezuela, que está tentando escapar de uma ditadura.” / AFP, COLABOROU RODRIGO CAVALHEIRO

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