Arquivo pessoal
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Nova rotina: tirar a bateria do carro

Hoje em João Pessoa, graças ao programa Mais Médicos, venezuelana estava cansada dos roubos

Claudia Müller, O Estado de S. Paulo

20 Agosto 2016 | 22h37

O jantares em família em Monagas não existem mais. Para fugir da crise, a mãe de Amy F. partiu para os EUA em 2008. Ela sentiu que as coisas piorariam e decidiu sair. “Ela é uma mulher de negócios, uma empresária muito elegante, que hoje trabalha em uma fábrica.”

Uma de suas irmãs, que era uma psicóloga bem-sucedida na Venezuela, também trabalha em uma fábrica nos EUA. Os outros dois irmãos continuam na Venezuela, mas têm planos de partir. “Cada um vai para onde conseguiu trabalho”, conta. 

Há sete meses Amy conseguiu sair da Venezuela. Casada com um brasileiro radicado no país, se mudaram para João Pessoa, na Paraíba, quando o marido foi aprovado no programa Mais Médicos. Apesar dessa conquista, a vinda não foi fácil. “Aqui tem escassez de médicos, mas lá ele tinha um nome, era reconhecido.” 

Para ela, a dificuldade foi ainda maior. “Sinto como se estivesse num limbo, como se não pertencesse nem à Venezuela nem ao Brasil”, conta. Acostumada a trabalhar desde os 13 anos, Amy tinha uma vida consolidada no país de origem. “Aqui eu me sinto como uma menina, sendo sustentada economicamente e começando do zero, não sou mais nada do que era.”

O marido veio alguns meses antes para o Brasil, quando alugou um apartamento e comprou um carro, deixando para trás a vida de classe média que tinha na Venezuela. “Não viemos porque quisemos, mas porque estamos fugindo da criminalidade e da escassez”, relata Amy.

A filha de 6 anos do casal também passa por alguns transtornos na nova vida, como as piadas que escuta das outras crianças por não falar português. “O Brasil é vizinho, mas tem uma cultura muito diferente”, conta Amy. Mas mesmo com a pouca idade, a menina está certa de que quer continuar em João Pessoa. “Ela diz que prefere ficar aqui, onde não tem muitos amigos, do que na Venezuela onde não tem um copo de leite para tomar antes de dormir.”

No começo do mês, o marido e a irmã dele, também médica, foram à Venezuela visitar os irmãos de Amy e levar de tudo, desde papel higiênico até arroz. Quando os amigos médicos souberam da viagem, pediram para que eles também levassem medicamentos. Não há remédio nem para febre. “Além do que ele comprou para levar para os amigos, também deixou com eles roupas usadas e a comida que sobrou para passar a semana”, conta Amy. “Minha cunhada entregou o remédio para um pediatra e disse ‘salve uma vida no hospital’. Que tristeza um médico tendo de pedir remédios”.

Os dois irmãos de Amy, que ainda estão na Venezuela, gastam cerca de US$ 1,5 mil por mês com comida, para uma família de dois adultos e duas crianças. “Uma caixa de ovos com 30 unidades custa cerca de 20% do salário mínimo”, relata. 

Segundo ela, ainda há muitas pessoas em condições financeiras para viajar e sair da Venezuela, mas são obrigadas a ficar porque ninguém no país consegue pagar o que seus bens valem.

Amy também passou por isso e deixou tudo para trás. Ela gerenciava uma empresa familiar de mais de 20 anos, em que comprava casas, as arrumava e as vendia. Quando se preparava para sair do país, tinha ainda três casas. Só conseguiu vender uma e por 10% do preço. “Era uma casa de 287 m², com três quartos, em um condomínio fechado, mas com o dinheiro da venda só deu para comprar um carro usado aqui no Brasil”. As outras duas casas permanecem fechadas.

Na Venezuela, foi assaltada três vezes em um ano. “Eu nem ficava triste mais, sabia que aquelas pessoas tinham filhos chorando de fome e faziam isso no desespero”, explica. “O que mais levaram da minha casa foi comida, até da geladeira”. Eles moravam em um bairro de classe média, mas às 18 horas já estavam fechadas em casa.

De tantos arrombamentos, o carro já não tinha mais seguro. “Era mais caro arrumar a maçaneta da porta do que pagar o seguro, então deixava sem”. Nem mesmo a bateria do carro podia ficar nele. Toda noite, Amy precisava tirá-la e levá-la para dentro de casa para que não fosse roubada, apesar de morar em um condomínio fechado.

Quando já estava no Brasil, o condomínio em que morava foi assaltado. Os vizinhos conseguiram pegar o ladrão e chamaram a polícia. Após quase linchar o homem, o policial disse que deveriam tê-lo matado e queimado, porque ele seria solto no dia seguinte e voltaria a roubá-los. “As cadeias estão em colapso, não cabe mais ninguém, por isso todos estão sendo soltos logo”, explica. “Obviamente os vizinhos não fizeram isso, mas o policial sugeriu um assassinato. Parece o fim do mundo”.

Amy afirma não ter esperanças de voltar à Venezuela. “Deve levar uns 30 anos para o que o país volte ao que era antes.” Para ela, a maior tristeza são os sonhos que ficaram para trás. “O governo roubou meus sonhos de envelhecer junto da minha família.” 

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