EFE/Angelo Carconi
EFE/Angelo Carconi

Nova telha se solta na UE

Italianos acionam a guilhotina sobre o pescoço de Renzi em meio ao aumento do populismo

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

06 Dezembro 2016 | 05h00

Às oito horas da noite de domingo, a Europa e os senhores políticos de Bruxelas respiraram, se abraçaram, tomaram champanhe. A Áustria votou sabiamente, barrando o candidato populista Norber Hofer, derrotado pelo ecologista Alexander Van der Bellen. Bruxelas apressou-se em festejar essa vitória porque, na mesma noite, mais um obstáculo deveria ser saltado: o referendo convocado pelo premiê italiano, Matteo Renzi. Temia-se o pior.

E o pior aconteceu. Renzi foi derrotado. Os italianos votaram “não” à reforma proposta por ele para reduzir a volatilidade dos sucessivos governos de Roma. Na verdade, os italianos não votaram contra a reforma, pois há algum tempo estavam conformados com a estabilidade do poder em Roma. Não. Eles acionaram a guilhotina que tombou sobre o pescoço de Renzi. E sua cabeça rolou.

Em geral, a queda de um governo italiano não constitui um drama. O povo já se habituou a isso. Há 50 anos ele vê tantas pessoas chegarem e depois de um pequeno tour partirem. Além do que, o país não andava tão mal. De tempos em tempos chegava alguém mais constante que os outros, por exemplo Berlusconi. Mas Berlusconi era mais barroco, mais libertino, mais bilionário, mas cômico que os outros.

Mas este ano a queda do premiê italiano tem uma dimensão mais angustiante e quase dramática. Primeiramente porque Renzi chegou, há dois anos, como um xerife no Oeste, atirando para todos os lados e fazendo promessas. Mas à medida que os meses passavam, as fanfarronices do premiê, sua brutalidade, seu exercício solitário do poder se tornaram cada vez mais insuportáveis. E como François Hollande na França, anunciava sucessos mirabolantes e nada de mirabolante ocorria.

E não é tudo. Esse referendo de domingo na Itália ocorre num momento em que a casa europeia vê suas telhas se desprenderem do teto e os tijolos, da sua estrutura.

A queda de Renzi é uma nova telha que se desprende. A preocupação de Bruxelas é dupla. Há o temor de que a temporada agitada que começa engendre uma violenta crise econômica, financeira, bancária, que poderá abalar todo o sistema europeu. A rede bancária está em dificuldades. Os bancos italianos, sufocados por € 360 bilhões de créditos cuja liquidação é difícil (o equivalente a 20% do Produto Interno Bruto (PIB) italiano ou do PIB total austríaco), não podem mais financiar a economia da Itália.

Uma poderosa instituição bancária, a Banca Monte dei Paschi di Sienna, estava prestes a conseguir o montante de  € 5 bilhões para se salvar. Mas agora, com esse vazio de poder, os investidores devem examinar o assunto duas vezes. E sabemos como são os bancos: eles propagam seus venenos e seus micróbios.

Uma pane do banco poderá se disseminar. Além do que, bancos não têm fronteiras, seus interesses, seus negócios, se entrelaçam de país a país. Os portugueses e espanhóis não estão em boa saúde. Os bancos franceses são mais fortes, mas não são invulneráveis. Por isso, os especialistas temem uma nova crise europeia.

Mas por trás deste primeiro perigo, um outro se perfila, mais sombrio: o perigo político. Sabemos que em torno de todos os países da Europa circulam e rosnam animais selvagens: os “populistas”, nome encontrado hoje para designar os impulsos xenófobos e de tendência fascista que já tomaram conta de um grande espaço a leste da União Europeia, na Polônia, na Hungria, na Eslováquia.

Mas mesmo países europeus mais sensatos, como Dinamarca, Bélgica, Holanda, e mesmo a Suécia, também andam agitados e movimentos extremistas vêm proliferando.

O combustível que nutre esses movimentos é a xenofobia, os milhões de imigrantes que invadem a Europa. Não devemos ter ilusões: mesmo os países mais respeitáveis foram atingidos por esse mal. Na França, Marine Le Pen se aproveita da situação dos imigrantes e se aproxima do poder. Mesmo a Grã-Bretanha, se preferiu o Brexit foi por ódio aos estrangeiros.

Está claro que a passagem da Itália para o círculo dos países xenófobos ou populistas seria um drama. Ora, em se tratando de “extremistas” a Itália está bem servida. Tem a Liga Norte, com seu chefe Matteo Salvini, que pleiteia a pureza racial dos italianos (do Norte). Mais recentemente surgiu uma outra figura, um palhaço, Beppe Grillo, líder do Movimento 5 Estrelas, cuja eloquência e talento inflamam as multidões.

Ora, a Itália, com a Grécia, é o país europeu por onde transitam os imigrantes. Roma se debate quase sozinha e sem muita ajuda europeia para cumprir essa missão que é muito cara e exacerba os sentimentos xenófobos. Ela, mais do que qualquer outro país, corre o risco de pender para o lado dos países populistas. Marie Le Pen está radiante. No domingo, afirmou no Twitter que “os italianos rechaçaram a UE e Renzi. É preciso prestar atenção a essa sede de liberdade das nações, e de proteção”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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