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Gabriela Bhaskar/The New York Times
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Nova York começa a se recuperar da devastação econômica da pandemia

Mas prosperidade da cidade é fortemente dependente de padrões de trabalho e viagens que podem ter sido irreversivelmente alterados

Nelson D. Schwartz, Patrick McGeehan e Nicole Hong / The New York Times, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2021 | 15h41

NOVA YORK - Conforme a economia dos Estados Unidos se recupera da pandemia de coronavírus e começa a decolar, a cidade de Nova York está ficando para trás com as mudanças nos padrões de trabalho e viagens ameaçando os motores que há muito movimentam seus empregos e sua prosperidade.

Proporcionalmente, Nova York tem sofrido mais com as perdas de emprego do que qualquer outra cidade americana. E enquanto o país recuperou dois terços dos postos de trabalho que perdeu após a chegada do novo coronavírus, Nova York recuperou menos do que a metade, deixando um déficit de mais de 500 mil empregos.

Os restaurantes e os bares estão de novo ficando repletos de nova-iorquinos, ansiosos pelo retorno da vida normal, mas as cicatrizes estão por todos os lados. Fachadas de lojas fechadas com tapumes e placas de “aluga-se” podem ser vistas em muitos bairros. As calçadas vazias no centro de Manhattan dão a sensação de ser fim de semana no meio da semana. O número de passageiros do metrô durante a semana é menor do que a metade daquele de dois anos atrás.

A situação econômica da cidade ocorre, em grande parte, devido à forte dependência de Nova York dos funcionários de escritório, viajantes a negócios, turistas e das empresas que prestam serviço a eles. Todos os olhos estão voltados para setembro, quando muitas empresas esperam trazer seus trabalhadores de volta para os escritórios e quando a Broadway voltará a funcionar totalmente, atraindo mais visitantes e seu dinheiro. Mas mesmo assim, a recuperação será apenas parcial.

A mudança em direção ao trabalho remoto coloca em risco milhares de empresas que atendem aos trabalhadores que provavelmente virão ao escritório com menos frequência do que antes da pandemia, se voltarem. Até o final de setembro, a Partnership for New York City, um grupo de apoio ao setor de negócios, prevê que apenas 62% dos trabalhadores retornarão aos escritórios, a maioria apenas três dias por semana.

Recuperar a saúde econômica da cidade será um grande desafio para o próximo prefeito de Nova York, que provavelmente sairá das primárias democratas na terça-feira. Os candidatos ofereceram visões diferentes em relação a como ajudar pequenas empresas em dificuldades e criar empregos.

“Estamos nos recuperando, mas não estamos nem perto de onde estávamos em 2019”, disse Barbara Byrne Denham, economista sênior da Oxford Economics. “Sofremos mais que todos os outros, então vai demorar um pouco mais para nos recuperar.”

Em maio, a taxa de desemprego da cidade era de 10,9%, quase o dobro da média nacional de 5,8%. No Bronx, a parte mais pobre da cidade, a taxa é de 15%. Trabalhadores de setores que demandam contato direto como restaurantes e hotelaria, muitos dos quais são pessoas não brancas, ainda estão passando por dificuldades.

“Embora a recuperação tenha provavelmente superado as expectativas, o desemprego continua incrivelmente alto para indivíduos negros e comunidades historicamente marginalizadas”, disse Jose Ortiz Jr., CEO da Coalizão de Emprego e Treinamento da Cidade de Nova York, organização que oferece treinamento e desenvolvimento para os trabalhadores da cidade.

Ao mesmo tempo, centenas de pequenas empresas, que antes da pandemia empregavam cerca de metade dos trabalhadores da cidade, não sobreviveram. E muitas das que continuam funcionando estão sobrecarregadas com dívidas que contraíram para sobreviver à crise e devem dezenas de milhares de dólares em aluguel atrasado.

“Tenho uma dívida enorme para pagar porque tive que pedir dinheiro emprestado em todos os lugares para manter a empresa funcionando”, disse Robert Schwartz, proprietário e parte da terceira geração que cuida da rede de loja de calçados Eneslow Shoes & Orthotics na cidade.

Ele fechou duas de suas quatro lojas, mas manteve abertas as filiais no Upper East Side de Manhattan e em Little Neck, no Queens. “Vamos sobreviver, mas será uma recuperação longa e lenta”, disse Schwartz.

Um fator crucial na trajetória econômica da cidade, dizem as lideranças cívicas e empresariais, é tratar problemas de segurança. Os crimes violentos aumentaram desde a pandemia - incluindo um chocante tiroteio na Times Square em maio, deixando feridas duas mulheres e uma menina de 4 anos - e a polícia recentemente aumentou o patrulhamento a pé no centro da cidade.

Na sexta-feira, o prefeito Bill de Blasio disse em um programa de rádio na WNYC que a cidade tinha mais policiais no metrô atualmente do que em qualquer momento nos últimos 25 anos. “Queremos muito encorajar as pessoas a voltarem (a circular pela cidade), para proteger a todos”, disse ele.

No entanto, as preocupações com a criminalidade são frequentemente citadas por trabalhadores que retornaram aos escritórios. “Os funcionários têm dúvidas a respeito da segurança na cidade e uma preocupação crescente quanto a isso”, disse Jonathan Gray, presidente da gigante do setor financeiro Blackstone. “Minha esperança é que, à medida que a cidade volte a ter mais gente, haja menos disso.”

Nova York sem dúvidas parece menos deserta do que há alguns meses. Quase 195 mil pedestres passearam pela Times Square em 13 de junho, mais do que o dobro do número típico nos dias inóspitos de inverno, quando o número de casos de covid-19 estava em alta. É um longo caminho até alcançar os 365 mil que passavam por ali diariamente antes da pandemia, mas os números estão subindo, de acordo com Tom Harris, presidente da Times Square Alliance, um grupo sem fins lucrativos que promove o comércio local e oferece serviços à vizinhança.

Wall Street e o setor bancário são os pilares da economia da cidade e estão entre as indústrias com mais incentivos para que os funcionários voltem aos escritórios. James Gorman, CEO da Morgan Stanley, disse aos investidores e analistas este mês que "se você deseja receber pagamento em Nova York, precisa estar em Nova York".

Muitas empresas, incluindo a Blackstone e a Morgan Stanley, têm enormes participações imobiliárias ou empréstimos para o setor, portanto, há mais do que orgulho cívico em seus esforços para trazer os trabalhadores de volta aos escritórios. Empresas de tecnologia como o Facebook e o Google são empregadores cada vez mais importantes, assim como grandes inquilinos comerciais, e têm aumentado seu número de locais para trabalho. Mas eles têm sido mais flexíveis ao permitir que os funcionários continuem a trabalhar de modo remoto.

O Google, que tem 11 mil funcionários em Nova York e planeja contratar 3 mil nos próximos anos, pretende retornar aos seus escritórios em West Chelsea em setembro, mas a presença dos funcionários neles só será exigida três dias por semana. A empresa também disse que até 20% de seus empregados podem se candidatar para trabalhar de modo remoto em tempo integral.

A decisão de ficar em casa parte ou a semana inteira, mesmo por uma pequena parcela dos funcionários do Google e de outras empresas, pode ter um impacto econômico significativo.

Mesmo que apenas 10% dos funcionários de escritório de Manhattan comecem a trabalhar de modo remoto na maior parte do tempo, isso se traduz em mais de 100 mil pessoas por dia que não compram um café e um bagel no caminho para o trabalho ou uma bebida depois do expediente, disse James Parrott, economista do Center for New York City Affairs na New School.

“Espero que muitas pessoas voltem, mas nem todas”, disse ele. “Podemos perder alguns comércios de bairro devido a isso.”

A ausência de trabalhadores de escritório prejudica pessoas como Danuta Klosinski, 60 anos, que há 20 anos limpava prédios de escritórios em Manhattan. Ela é uma entre mais de três mil faxineiras que continuam desempregadas, de acordo com Denis Johnston, vice-presidente de seu sindicato, o Local 32BJ do Service Employees International Union.

Danuta, que mora no Brooklyn, disse que tirou licença duas vezes desde a primavera passada e que está sem trabalhar desde novembro. Ela disse ter medo, caso não seja chamada de volta até setembro, de perder o seguro saúde que cobre seu marido, que teve um AVC e um infarto. “Estou preocupada com a possibilidade de perder tudo”, disse.

Também pesando sobre as perspectivas da cidade está a queda nas visitas de turistas, que estão se aventurando de volta aos poucos, e não em massa.

Em 2019, Nova York recebeu mais de 66 milhões de pessoas de fora da cidade e elas gastaram mais de US$ 45 bilhões com hotéis, restaurantes, lojas e teatros. As autoridades municipais esperam que leve anos para atrair tantos visitantes outra vez, principalmente os turistas estrangeiros, que gastam mais, e os viajantes a negócios, cujas despesas são arcadas por seus empregadores.

Ellen Futter, presidente do Museu Americano de História Natural, disse que o turismo doméstico está se recuperando mais rápido do que ela esperava. “A população local está saindo de casa e parece feliz por isso”, disse Ellen. Mas a escassez de visitantes internacionais “vai diminuir o ritmo de recuperação”, afirmou.

Esse atraso significará uma dor prolongada para muitas empresas. O emprego em hotéis e restaurantes é cerca de 150 mil inferior ao que era antes da pandemia, enquanto o número de empregos nas artes cênicas caiu cerca de 40 mil.

Na verdade, há sinais de fortalecimento da economia. Depois que muitos residentes deixaram a cidade no ano passado, apartamentos de luxo estão outra vez sendo comprados rapidamente, e o mercado de aluguel está dando sinais de estabilidade após a queda dos preços.

A Rudin Management, a gigante do setor imobiliário, está reduzindo os benefícios que ofereceu para atrair inquilinos no auge da pandemia. “Estou recebendo ligações de pessoas dizendo que seu filho ou filha, ou neto ou neta está se formando e pedindo um apartamento”, disse William Rudin, CEO da empresa. “Não recebíamos essas ligações há um ano.”

Os nova-iorquinos também estão saindo mais. Quando o Hotel Rockaway no Queens foi inaugurado em setembro, após anos de planejamento, era uma atração por si só em um bairro de praia historicamente de classe trabalhadora, "as pessoas que moravam a quatro quarteirões de distância alugavam quartos no hotel para passar a noite porque queriam 'férias em casa'", disse Terence Tubridy ,sócio-gerente.

Desde que as refeições na parte interna dos restaurantes foram autorizadas em fevereiro, a taxa de ocupação do hotel de 53 quartos nos finais de semana tem sido de 80%, disse Tubridy. Nos últimos tempos, junto com mais visitantes da Califórnia e do meio-oeste, ele relata uma enxurrada de consultas para realização de festas de casamento e de aniversário.

Enquanto o hotel se prepara para a primeira oportunidade de atender às animadas multidões que surgem no verão em Rockaway Beach, Tubridy está pretendendo contratar mais 100 funcionários para sua atual equipe de 180 empregados. /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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