Nova York inicia sucessão de Bloomberg

Na terça-feira, um candidato republicano e um democrata serão escolhidos em primárias; eleição municipal ocorre em novembro

LÚCIA GUIMARÃES, CORRESPONDENTE / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2013 | 02h15

Uma primária eleitoral escolherá, na terça-feira, dois candidatos, um democrata e um republicano, que o prefeito Michael Bloomberg já considera incapazes de ocupar seu lugar - a eleição de seu sucessor está marcada para 5 de novembro. Não é surpresa: ao final de 12 anos de governo, o bilionário fundador do conglomerado de mídia financeira que leva seu nome, examinou os concorrentes e concluiu que Nova York ainda precisa dele.

Impedido legalmente de se reeleger - o terceiro mandato, em 2009, foi obtido com a mudança da lei municipal aprovada, em parte, graças a seu cofre de fundos ilimitados -, Bloomberg deu telefonemas furtivos para figuras que considerava mais à altura de um letreiro iluminado em Times Square.

Hillary Clinton reagiu como a esfinge que quer a Casa Branca em 2016. O dono do jornal Daily News, Mortimer Zuckerman, com uma fortuna avaliada em US$ 2,6 bilhões, um pobretão diante de Bloomberg, cuja fortuna é de US$ 27 bilhões, deve ter considerado, entre outros argumentos, o peso de seus 76 anos.

Até o comandante da mais celebrada força policial do Ocidente, Ray Kelly, foi sondado e, para tentar convencê-lo, Bloomberg bancou uma pesquisa de opinião, de acordo com o repórter Ken Auletta, da revista New Yorker. Kelly estava de olho em Washington e sonhava em substituir Janet Napolitano, que deixou o cargo de secretária de Segurança Interna.

Se os bilhões de Michael Bloomberg movem montanhas legislativas, eles não controlam a mudança de ventos que tornou essa eleição um referendo sobre muito do que fez Nova York um exemplo internacional, especialmente no combate ao crime.

Há um ano, Christine Quinn era considerada a sucessora inevitável de Bloomberg. Presidente da Câmara de Vereadores, ela fez uma troca com o prefeito na votação do comprometido terceiro mandato.

Quinn entrou na política como defensora dos direitos dos homossexuais - seu casamento com a advogada Kim Katullo foi uma das festas mais concorridas de 2012 em Nova York. A vantagem de Quinn nas pesquisas começou a cair, nos últimos meses, à medida que a cidade parou para avaliar o legado de Bloomberg - para ser justos, 12 anos de um prefeito que tenta proibir copos gigantes de refrigerante cansam qualquer eleitor.

O anos Bloomberg serão conhecidos pela responsabilidade fiscal, a contínua queda no crime, a relativa paz racial e por medidas que afetam a longevidade dos nova-iorquinos, como uma lei antitabagismo tão radical que influenciou o restante do país.

Se há um ponto cego na perspectiva de Bloomberg, que, aos 71 anos, promete doar a maior parte de sua fortuna antes de morrer, ele consiste em subestimar o efeito do crash financeiro de 2008, que este mês completa cinco anos, no ânimo dos nova-iorquinos.

O setor financeiro é responsável por 28% dos empregos na indústria privada de Nova York, por 10% da contribuição municipal de impostos e por 20% da estadual. Estados vizinhos como Nova Jersey e Connecticut adorariam atrair uma porção maior da indústria financeira com incentivos fiscais.

Desigualdade. Nova York pode ser a cidade favorita dos estrangeiros, mas é cada vez mais inacessível para os que cresceram nela e não pertencem ao 1% de habitantes que abocanha 40% da renda, num aumento de desigualdade que é o dobro da média nacional.

Entra em cena o azarão democrata Bill de Blasio, um filho de alemão com italiana que afiou seu talento político chefiando a campanha de Hillary para o Senado em 2000. Considerado à esquerda do espectro político numa cidade que pretende ser hospitaleira para empresários e liderar no combate ao crime - ao preço de sacrificar certas liberdades civis -, De Blasio voou abaixo do radar até agora, com sua mensagem das "duas cidades." Uma para a elite e outra para os trabalhadores que não só se mudam para longe de Manhattan como não têm acesso a hospitais e boa educação.

Bloomberg prometeu ser o prefeito da educação, mas sua atitude de gerente empresarial não surtiu efeito expressivo no maior sistema escolar dos Estados Unidos. E seu governo viu a população sem-teto ir a 50 mil, um recorde.

Disputa. Defensores de Bloomberg fazem previsões apocalípticas para o que vem por aí. O mais provável candidato republicano a emergir das primárias de terça-feira, Joe Lhota, tem poucas chances de dar continuidade a 20 anos do incomum reinado republicano nesta cidade de maioria democrata. Um reinado que foi, em parte, possibilitado pelo 11 de Setembro.

O candidato que pode disputar um segundo turno com De Blasio, Bill Thompson, concorreu contra Bloomberg em 2009, é negro e tem o apoio de alguns importantes sindicatos como o dos professores e o dos bombeiros. No entanto, essa é uma eleição para derrubar clichês.

O descendente de europeu De Blasio tem mais apoio entre os negros. Christine não consegue vantagem no voto das mulheres. Uma pesquisa divulgada na última semana revelou que Nova York é a cidade favorita no planeta.

A cidade ultrapassou Londres e Paris, respectivamente segunda e terceira colocadas na pesquisa da Ipsos Mori, realizada em 24 países. Um previsível sorriso de satisfação deve ter atravessado o rosto de Bloomberg.

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