"Nova York nunca mais vai ser a mesma sem as torres gêmeas"

Acordei com o barulho de uma explosãoque parecia ter acontecido algumas quadras abaixo de onde moro.O telefone tocou. Meu marido atendeu e veio até a porta doquarto. "Sabe o que aconteceu?", disse ele, ligando atelevisão. "É sobre a explosão?", perguntei. "Um avião entrouno World Trade Center", foi a resposta, acompanhada pelasimagens mais estupefacientes que já vi na vida surgindo na tela:os dois maiores arranha-céus de Nova York arrebentados, soltandouma longa e imensa nuvem de fumaça preta em direção ao leste. Por mais absurdo que possa parecer, aquela era uma cena sempreimaginada. Um dia ia acontecer. Do andar acima do meu ouvi asvizinhas equatorianas, que só conseguiam dizer: "meu Deus, meuDeus..." Subimos até o topo do prédio. Centenas de pessoas fizeram omesmo em toda a redondeza. Ali, a cena tornou-se viva, tendo aofundo um céu limpo e azul. Além do som das sirenes correndo emdireção ao sul de Manhattan só havia um estranho silêncio. Nãoconsegui segurar o choro por entender que aqui, na maior cidadenorte-americana, somos um alvo tão vulnerável. Mas era precisotelefonar para a família, no Brasil, dizer que estava tudo bem. Fomos para a rua, com a intenção de chegar até downtown damaneira que fosse possível, pela obrigação de repórteres. Naporta do edifício ao lado, uma vizinha perguntou se por acasosabíamos se os trens estavam funcionando. A única coisa que elaqueria era sair da cidade, ir para longe. Uma moça que vinhapela calçada avisou: "Não há mais trens saindo ou chegando e aspontes estão sendo fechadas. Nós estamos trancados emManhattan." O ataque havia acontecido havia quase uma hora. As avenidascomeçavam a ser tomadas por multidões vindas do sul, caminhandoem direção ao norte da cidade, deixando para trás aquele cenárioabsurdo. Em todos os rostos havia um olhar aparvalhado. Quemtinha telefone celular, estava grudado nele, falando, andando eolhando para trás. Os telefones públicos tinham filas e muitosjá não estavam mais funcionando. Os poucos carros particularesque circulavam tinham rádios ligados por onde se ouvia que aCasa Branca estava sendo esvaziada, que outros ataques haviamocorrido na capital do país. A coisa era muito maior do que se podia pensar. Mas a poucasquadras acima da área atacada não havia sinal de pânico. Sóestupefação. Quase ninguém queria falar. Na calçada em frente aum prédio em demolição na rua Bowery, o pedreiro Malcolm Raymondtinha dificuldade para respirar de tão assustado com o que haviavisto cerca de uma hora antes. "Estava jogando material numcontêiner quando vi um avião grande voando sobre a região, emdireção ao sul", lembrava Raymond. "Achei que só podia ser umpiloto que dormiu, pois essa área não tem tráfego de aviões. Eaí o avião entrou no prédio. Ainda estava olhando para lá quandoo outro avião chocou-se com a outra torre. Meu Deus! Isso é umaguerra! Mas o que eu posso fazer?", imaginava o pedreiro.Apesar do que estava acontecendo a sua volta, Raymond recebeuordem para continuar trabalhando na demolição. Quando conseguimos chegar a Chinatown, a multidão que deixavaa área sul da cidade já era muito maior. Na fila de um telefonepúblico conversei com a porto-riquenha Madelin Gonzalez.Funcionária da vice-presidência de um banco localizado no 26ºandar do edifício no número 7 da World Trade Center Plaza, aolado das torres atacadas, Madelin contou que tinha acabado deentrar na sua sala, hoje pela manhã, quando viu papéis e pedaçosde metal voando do lado de fora da janela. "Então escutei uma explosão e vi gente pulando das janelas daprimeira torre, que estava pegando fogo. Todas as pessoas donosso escritório começaram a sair, descendo pelas escadas comosempre fomos instruídos a fazer em caso de emergência. Foi aíque aconteceu a segunda explosão, quando o outro avião entrou nasegunda torre. A única coisa que pensei na hora foi sair para omais longe possível", disse Madelin. Enquanto tentava telefonar para sua família, que mora nobairro do Brooklyn, do outro lado do East River, ela soube quenão havia meio de chegar em casa usando algum tipo detransporte. Ia tentar atravessar a Ponte do Brooklyn a pé, juntocom um amigo. No edifício onde Madelin trabalha também está localizado ocomando municipal para situações de catástrofe. "A área sempreteve muita segurança, mas não sabia que era tão fácil sermosatacados pelo ar", disse a moça, comentando: "Nós,norte-americanos, nos intrometemos na vida de muitos países e éassim que somos pagos: somos atacados com nossas própriasarmas." Naquele momento, parte do edifício atingido pelo primeiroavião desabou. Muitas pessoas começaram a chorar. Não um chorodesesperado. Um choro em silêncio. Alguns minutos depois, enquanto atravessávamos a Broadway,vimos apenas o segundo edifício pegando fogo. De repente, houve umamovimentação diferente. As pessoas que estavam andando para onorte voltaram-se para o lado contrário, correram um pouco epararam, olhando para cima. O segundo edifício do World TradeCenter estava caindo em meio a uma fumaça branca. O chorocoletivo aumentou. Quando a fumaça se dissipou, do meio da Broadway e olhandopara o lado do centro financeiro da cidade, o que se viu foi alinha de prédios de Manhattan beirando o East River sem astorres gêmeas com mais de cem andares que milhões de pessoascresceram vendo todo dia ali. Nova York nunca mais vai ser a mesma sem elas. Agora tem umvazio naquele lugar e dentro de cada um de nós que moramosaqui. A polícia fechou todos os acessos para o sul da cidade apartir da Rua Canal. Começamos a voltar para casa. Na rua WestBroadway, encontramos o empresário brasileiro Tufi Duek,proprietário da marca Zoomp, que, pelo celular, ligava paraparentes em São Paulo, pedindo que avisassem suas duas filhas deque ele estava bem. Duek ainda estava no quarto de um hotel no Soho, onde estáhospedado desde a semana passada, quando percebeu que algumacoisa estranha estava acontecendo na vizinhança do bairro. Ligoua televisão e viu a imagem de uma das duas torres do World TradeCenter pegando fogo. "Ainda não tinha noção do que tinhaacontecido quando vi, pela TV, um avião entrando na outratorre", contava Duek. "Saí do hotel e fui tomar café na rua.De repente, a multidão começou a correr no sentido contrário dosdois prédios. Foi quando a primeira torre começou a cair",disse o empresário. A preocupação dele era saber como estavamseus amigos, hospedados num hotel da Park Avenue, em Midtown,que deveriam descer para o sul da cidade. "Por sorte todosainda estavam lá", contou o empresário. A essa altura, nãohavia mais meios de locomoção pela cidade. "Vou tentartrabalhar no meu showroom e sei que terei de ficar aqui, poisnão vai sair avião dessa cidade por um bom tempo", disse Duek. De volta para casa, ouvindo helicópteros que sobrevoavam ailha de Manhattan, comecei a telefonar e passar e-mails para osamigos que moram aqui. Todos eles estavam fazendo o mesmo, àmedida que conseguiam linha telefônica. Precisávamos saber queestávamos vivos. Só pude pensar em escrever um relato do quehavia visto. Liguei o rádio e ouvi o governador do Estado de Nova York,George Pataki, dizer que a cidade e o país estavam sob ataque edevíamos manter a calma. Mas a cidade, nesse momento, nãoparecia calma. Parecia apenas um gigante machucado e impotente.

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