Nova York tenta voltar à rotina

O acidente com o Airbus da American Airlines, que se espatifou no bairro nova-iorquino de Queens na última segunda-feira, trouxe mais temor aos moradores da mais rica e imponente cidade do mundo. Para se defender, o americano e, sobretudo os estrangeiros que vivem na cidade e temem retaliações, especialmente os muçulmanos, externam sua dor e ao mesmo tempo sua força usando bottons com bandeiras americanas nas roupas e lenços patrióticos. Enfeitam as sacadas dos prédios e os carros com o símbolo dos Estados Unidos e, incrivelmente, se tornaram mais solidários e simpáticos."O medo aproximou as pessoas porque o inimigo é invisível, pode estar em qualquer lugar, todos estamos correndo riscos", garante um dos raros taxistas legitimamente americanos, Mark Stemplas, de 46 anos, repetindo uma impressão que está na boca e na expressão dos moradores de Manhattan, o coração de Nova York. Gente como a correspondente da agênica de notícias portuguesa Lusa, Siomara Tauster, para quem a ordem na cidade agora é "fique atento". "Desde os atentados terroristas, o nova-iorquino tenta retomar a sua vida, mas está muito difícil, há medo no ar. Você entra numa estação de trem e fica olhando para os lados, todo mundo está mais simpático, mas na verdade todos querem ter certeza que aquele que está olhando não é um inimigo, não vai jogar uma bomba no subway (como Siomara prefere chamar o Metrô)." Um medo e um desejo de mostrar força que está engrossando as vendas do portoriquenho Pablo Hernandéz, que vende artigos patrióticos e até quadros emoldurados das torres gêmeas do World Trade Center, antigo postal da cidade, numa das muitas barracas armadas na 5a Avenida, na calçada da lojas de brinquedos FAO Schwarz, em frente ao suntuoso Plaza Hotel, no portão de entrada do Central Park. Hernandéz não gosta de falar o quanto ganha por dia, mas garante que suas vendas aumentaram. "Não é só turista que compra, tem muita gente da cidade mesmo que leva os quadros com os prédios que caíram e bandeiras", diz enquanto negociava a venda de uma bandeira de 1 metro por oitenta centímetros a US$ 10 com uma típica americana.A bandeira aliás tomou conta da quadra de patinação do famoso Rockfeller Center, onde a árvore de Natal começa a ser decorada e deve ser apresentada no dia 25, seguindo a tradição da decoração nataliana um mês antes da data. No momento, o pinheiro gigante que apareceu em filmes como Esqueceram de Mim, está encoberto pelo símbolo que se espalhou por toda a cidade. Ninguém tem vergonha em Nova York de se fantasiar e enfeitar carros e sacadas, mas todos estão saindo menos de casa. Na última quinta-feira, era possível chegar a um restaurante como Il Vagabondo, na rua 62, de comida italiana e filas na portas, sem ter feito reservas e sentar-se em uma de suas disputadas mesas. A casa que há 75 anos oferece boa massa faz questão de exibir nas paredes fotos de astros da NBA, os bem pagos jogadores do basquete norte-americano, e artistas da Broadway, alguns com passagem por Holywood. Já no Pastis, no West Village, ainda é preciso esperar para saborear as iguarias francesas ao gosto americano, mas nada que desestimule. São 40 minutos, enquanto antes dos atentados era preciso fazer reserva pelo menos duas semanas antes.Na quinta-feira na Broadway, por exemplo, era possível comprar no próprio dia ingresso para musicais disputados como The Full Monty e Aída, com música de Elton John e Tim Rices, sem muita dificuldade ou mesmo assistir a aclamada temporada de Hedda Gabler, uma das peças teatrais mais densas de Ibsen, com Kate Burton encabeçando o elenco, sem precisar pagar a mais para os brokers, uma forma mais sofisticada de dizer cambista. Apenas o espetáculo Contact, vencedor do Tony Award de 2000, demandava reservas de, no mínimo, duas semanas de antecedência, bem como o Mamma Mia, musical baseado nas canções do grupo Abba. Apesar dessas facilidades, muitos moradores da cidade ainda não se sentem seguros para sair de casa.É o caso da brasileira Sandra Borges, mineira de Resplendor, na divisa com o Espírito Santo, que há 12 anos vive em Nova York. Sandra, que trabalha na corretora Prudential Finance, no coração de Wall Street, recorre a dois copos de vinho para dormir desde o dia 11 de setembro. "Foi horrível, eu vi um avião entrando numa das torres, saímos correndo do prédio que ficava há quatro blocos (ela quer dizer quadras) do World Trade Center para casa, andando a pé uma parte do percursso?. E onde mora Sandra? No Queens, o bairro onde caiu o avião da American Airlines. Tudo isso, no entanto, não faz Sandra pensar em voltar para o Brasil. "Agora, estou mais americana do que nunca, meu lugar aqui", dizia num happy-hour após o trabalho na última sexta-feira, ao lado do cunhado César Borges, assessor de imprensa da Brasil Telecom, empresa que lançou American Depositary Receipts (ADRs) na Bolsa de Nova York (Nyse), nesse dia. Sandra também exibia orgulhosa o bottom com as cores da bandeira americana na lapela.No pregão da bolsa que chega a movimentar bilhões de dólares por mês, bandeiras americanas também dão o tom. Nesse espaço, não é raro ver operadores carregando bichinhos de pelúcia, um símbolo da solidariedade americana desde que a Cruz Vermelha começou a distribuí-los para amigos e parentes das vítimas, para que fossem acariciados servindo como antídoto ao estresse e ao mesmo tempo substituíssem as ausências. O presidente da Nyse, Richard Grasso, garantiu ter certeza de que a cidade e a economia vão se reerguer. A aposta está feita e registrada.Ali, bem perto da bolsa, a menos de trezentos metros, o que se pode ver é a demolição das torres do World Trade Center, que ainda exalam um cheiro forte de metal e plástico queimado, que lembra enxofre. Há nas redondezas uma espécie de curiosidade mórbida, com ônibus de turismo parando para que todos possam ver os destroços. Na antiga estação do Metrô de Court Land, que ficava no centro do complexo atacado pelos aviões, tapumes foram cobertos por bandeiras e flores. Lembranças de quem vai ver o local. Nos muros e paredes próximas, fotos, muitas fotos das vítimas. Amigos, parentes e sobretudo anônimos, depostiam ali flores em memória dos que se foram.A glória de ser o prédio mais alto e imponente de Nova York voltou a ser do Empire State, que para deleite de turistas exibe permanentemente, desde 11 de setembro, uma decoração antes reservada para o 4 de julho, dia da Independência: iluminação nas cores da bandeira americana. Afinal, muitos acreditam que essas demonstrações do orgulho afastam e exorcizam o medo. Mas cidade sem dúvida está assustada, embora tranqüila, aparentemente, para quem a visita nessa época do ano em que as decorações natalinas ainda que tímidas pretendem apagar da memória os atentados e aquelas torres gêmeas que, gigantescas, viraram pó e material de entulho ainda em retirada. Aviões cruzando os ares também assustam hoje o nova-iorquino.

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