Jim Bourg/ EFE
Jim Bourg/ EFE

Nova York torce o nariz para Trump na eleição americana

Presidente, que nasceu e fez carreira na cidade, foi mal votado em 2016 e deve repetir a dose agora

Letícia Duarte, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2020 | 20h50

Pelo menos três vezes por semana nos últimos quatro anos, o americano Paul Rossen, 58 anos, faz plantão em frente ao edifício Trump Tower, na luxuosa Quinta Avenida, em Nova York. Aproveitando a movimentação em frente a um dos pontos turísticos mais infames da cidade, ele se posiciona estrategicamente diante da torre envidraçada, onde o presidente residia antes de se mudar para a Casa Branca, para vender buttons anti-Trump e destilar sua repulsa contra a administração do republicano.

"Aqui é o lugar perfeito pra isso, porque 75% das pessoas chegam com raiva do Trump, e aí bum, eles compram", explica, com o sorriso de quem aprendeu a transformar a indignação em fonte de lucro. Rossen diz vender "dezenas" de buttons a cada dia, com designs que ele mesmo cria (como um que coloca a face alaranjada de Trump no corpo de um salgadinho cheetos), mas sua satisfação não vem apenas dos dólares que entram no seu bolso. Ele se diverte vendo dezenas de pedestres apontarem o dedo do meio em direção ao edifício, numa espécie de ritual catártico. "Acho terapêutico, antes da pandemia eu via umas cem pessoas por dia fazendo isso por dia", estima o vendedor, apertando os olhos atrás de uma máscara preta com a frase "vote". 

Na calçada oposta, a torre imponente de 68 andares - que também é a sede das Organizações Trump - se mantém como um símbolo do tempestuoso caso de amor não-correspondido entre Trump e sua terra natal. E a animosidade só cresce. Em 2016, o candidato nova-iorquino recebeu apenas 9,8% dos votos em Manhattan, e ficou 22 pontos percentuais atrás de Hillary Clinton na votação do Estado, com 36,8% dos votos. Neste ano, as pesquisas sugerem crescimento na rejeição de Trump. Segundo o site FiveThirtyEight, que mede a média nacional de diferentes sondagens, Trump deve terminar a eleição deste ano quase 30 pontos atrás de Biden no Estado, com 32,9% votos, contra 62,3% do adversário. Em Manhattan, a repetição da derrota de lavada é tão previsível que os institutos de pesquisa nem perderam tempo calculando a diferença durante a campanha, mas Rossen não tem dúvida que a reprovação a Trump vem se intensificando entre seus conterrâneos.

"Nova York odeia Trump porque o conhece melhor", opina Rossen, que alcançou as manchetes na campanha de 2016 ao aparecer ao fundo de uma transmissão ao vivo da CNN fantasiado de pênis e segurando um cartaz dizendo: "fotos de graça com Trump".

Até março deste ano, Rossen era gerente de um clube de comédia na Broadway. Com a pandemia do coronavírus, o estabelecimento fechou as portas, e a militância anti-trump virou sua principal ocupação. O avanço da pandemia, aliás, foi um dos motivos do aumento do desgaste da relação de Trump com Nova York. Enquanto o Estado se tornou o epicentro global do coronavírus, Trump preferiu menosprezar a pandemia e desafiar as recomendações de uso da máscara para evitar o alastramento do vírus. Em guerra política contra o prefeito e o governador de Nova York, ambos democratas, Trump passou a chamar Nova York de "cidade fantasma".

Outra crise recente que contribuiu para aumentar sua impopularidade foram os maciços protestos do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), após o assassinato de George Floyd pela polícia. Seguindo uma iniciativa liderada pela prefeitura de Nova York, centenas de manifestantes pintaram o slogan dos protestos no asfalto em frente à Trump Tower. Trump reagiu dizendo que a pintura era um "símbolo de ódio" e "denegriria" o luxo da Quinta Avenida - numa fala que inspirou seus apoiadores a vandalizarem a arte.  

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"Nas primeiras semanas, todo dia aparecia um apoiador do Trump jogando tinta por cima", lembra Rossen, que também participou do mutirão para a pintura original.

Na véspera da votação, o prédio recebeu reforços de segurança. O acesso à quadra foi parcialmente interditado com cercas de metal, e pelo menos quatro caminhões e um ônibus da polícia de Nova York permaneceram estacionados em frente à torre. Os caminhões estavam carregados com areia, uma estratégia já usada anteriormente como prevenção em caso de atentados a bomba.

O clima de crescente hostilidade contrasta com a histórica adoração que Trump sempre nutriu por Nova York. No livro The Art of the Deal (A Arte da Negociação), o presidente descreve sua obsessão em se tornar alguém em Manhattan. Nascido e criado no Queens, cresceu alimentando o sonho de ganhar fama no centro financeiro da cidade - e não apenas nos negócios. Tanto que no começo da carreira começou a espalhar fofocas para os colunistas, fazendo-se passar por seu próprio publicitário, sobre supostas celebridades com quem estaria flertando.

"Eu acreditava, talvez em um nível até irracional, que Manhattan sempre seria o melhor lugar pra viver, o centro do mundo", ele escreveu. 

Se esse amor nunca foi recíproco, nos últimos quatro anos a relação de Trump com Nova York azedou de vez. Por isso, independentemente do resultado final da eleição, o presidente não voltará a morar na Trump Tower. Em novembro do ano passado, ele anunciou mudança de domicílio eleitoral para Palm Beach, na Flórida, dizendo que estava sendo "muito maltratado" pelos líderes da cidade e do Estado. "Poucas pessoas foram tratadas pior", escreveu no Twitter.

Por trás da retórica magoada, reportagem do New York Times revelou que a mudança era motivada por interesses fiscais, após a abertura de uma investigação em Nova York contra Trump por sonegação de impostos. 

Em uma reação irônica, o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, reagiu na época dizendo para Trump não esquecer de bater a porta quando saísse. A torcida de nova-iorquinos como Rossen é de que antes disso Trump saia, definitivamente, da Casa Branca. O vendedor seguia otimista ontem com a vitória de Biden, mas também apreensivo com as tentativas de Trump de travar uma guerra judicial para contestar os resultados. "Se ele não trapacear, ele vai perder", previa. 

Pelo sim, pelo não, Rossen decidiu encurtar o expediente ontem em frente à Trump Tower para beber com amigos enquanto acompanhava as notícias da apuração.

"Preciso de algo forte, tipo whisky, vodka, talvez tudo junto", contou, com um riso nervoso, horas antes do fim da votação. 

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