Jon Super/ AFP
Jon Super/ AFP

Novas cepas podem atrapalhar ainda mais a vacinação em países pobres

Falta de vacinas para nações de baixa renda aliada a variantes mais contagiosas do coronavírus ameaçam transformar o atraso na imunização nesses países em uma dificuldade global para deter a pandemia

The New York Times, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2021 | 05h00

CIDADE DO CABO, ÁFRICA DO SUL - O aparecimento da nova variante do coronavírus na África trará ainda mais dificuldades para os países pobres conseguirem vacinas que, quando chegarem, poderão não servir mais para imunizar as populações contra uma cepa mais contagiosa. 

Com a migração da mutação do coronavírus, fica cada vez mais claro que as dificuldades das nações mais pobres podem se transformar em tragédia para todos os países. Quanto mais o vírus se espalha e mais demora a vacinação, maiores são os riscos de o novo coronavírus continuar passando por mutações que coloquem o mundo inteiro em perigo.

Pelo menos 90 milhões de pessoas já foram vacinadas em todo o mundo. Na África Subsaariana, foram apenas 25 imunizados que receberam doses fora dos programas de ensaios clínicos das vacinas, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). A população da região está estimada em 1 bilhão de pessoas.

Estudos recentes sugerem que pelo menos quatro vacinas eficazes na prevenção da infecção do vírus original não tiveram um desempenho tão bom contra a variante encontrada na África do Sul. Essa variante também é mais infecciosa – assim como outra, descoberta no Reino Unido – e agora se calcula que seja responsável por 90% de todos os casos na África do Sul, segundo dados compilados por pesquisadores. A variante já está presente em dezenas de outros países.

A inoculação estimula o sistema imunológico a produzir anticorpos contra o vírus, mas, à medida que as mutações mudam sua forma, o vírus pode ficar mais resistente a esses anticorpos. Na pior das hipóteses, deixar de impedir a disseminação do vírus globalmente permitiria mais mutações que poderiam tornar as vacinas existentes menos eficazes, deixando vulneráveis até mesmo as populações já inoculadas.

“Essa ideia de que ninguém está seguro até que todos estejam seguros não é apenas um ditado, mas é a mais pura verdade”, disse Andrea Taylor, diretora assistente do Duke Global Health Innovation Center. Mesmo nos cenários mais otimistas, no ritmo atual de produção, não haverá vacinas suficientes para uma verdadeira cobertura global até 2023, disse Taylor. Os atuais planos de vacinação em toda a África devem alcançar de 20% a 35% da população este ano, se tudo der certo.

Se alguns países ricos garantiram vacinas suficientes para cobrir suas populações várias vezes, a África do Sul garantiu apenas 22,5 milhões de doses para seus 60 milhões de habitantes – e muitas nações ficaram ainda mais para trás.

Essa disparidade já foi classificada pelo diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, como “um fracasso moral catastrófico”, com os países ricos correndo para comprar estoques de vacinas e deixando as nações pobres e de renda média lutando para encontrar suprimentos.

O primeiro milhão de doses da África do Sul, produzidas pela AstraZeneca, chegaram ontem e as autoridades dizem que serão necessárias até duas semanas para começar a aplicar as injeções. A vacina da AstraZeneca, desenvolvida em parceria com a Universidade de Oxford, atualmente é a opção mais acessível do mundo. A empresa não divulgou nenhuma informação sobre sua eficácia contra a variante, mas se espera que o faça em breve.

Mais 9 milhões de doses estão sob encomenda da Johnson & Johnson, cujo imunizante ainda não tem aprovação regulatória. Na sexta-feira, a empresa anunciou que a eficácia de sua vacina caiu de 72% nos ensaios realizados nos Estados Unidos para 57% nos conduzidos na África do Sul.

Tulio de Oliveira, professor e geneticista da Escola de Medicina Nelson Mandela em Durban, que ajudou a descobrir a variante encontrada na África do Sul, disse que seu surgimento deve servir como alerta. “Uma das coisas que essa variante deve destacar para o mundo todo é a necessidade de controlar a transmissão não apenas em seu país, mas em todo o mundo”, disse.

O fornecimento de vacinas para nações de baixa e média rendas será feito pela Covax, uma coalizão de organizações internacionais apoiada pela OMS. O consórcio garantiu 2,1 bilhões de doses para 2021, mas não está claro quantas delas serão realmente entregues.

A esperança é que as vacinações nos países mais pobres comecem para valer no mês que vem ou no próximo. Orin Levine, diretor de programas de entrega global da Fundação Bill e Melinda Gates, disse que a diferença será grande. “O fato é que, até o final do ano, provavelmente 75% da população dos países de alta renda será vacinada”, em comparação com 25% dos países de baixa renda. /TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.