Novas evidências de dúvidas surgem sobre a morte de Kelly

Um inquérito judicial do suicídio de um assessor de armas do governo teve início nesta segunda-feira com novas evidências de que oficiais da inteligência estavam preocupados com as garantias apresentadas num dossiê oficial segundo o qual o Iraque estaria pronto para lançar um ataque com armas químicas e biológicas em 45 minutos. Martin Howard, vice-chefe da inteligência de Defesa, afirmou que pelo menos um integrante do Departamento de Pessoal de Inteligência da Defesa da Grã-Bretanha expressou formalmente numa carta preocupações de que o dossiê de 24 de setembro de 2002 fora escrito de tal forma que apresentava como certeza o que não passava de indícios colhidos pela inteligência. James Dingemans, um alto conselheiro para o inquérito, apresentou perante a Corte Real de Justiça uma cópia da carta escrita para o Ministério da Defesa por um oficial de inteligência aposentado. "Eu estava tão preocupado com a forma pela qual as garantias da inteligência sobre as quais eu tinha alguma responsabilidade estavam sendo apresentadas no dossiê... que me senti na obrigação de expressar minha preocupação formalmente por escrito", afirma o oficial não identificado na carta. O inquérito investiga as circunstâncias em torno do suicídio no mês passado de David Kelly, um assessor do Ministério da Defesa britânico, e o uso que o governo fez da inteligência sobre as armas iraquianas. Após sua morte, Kelly foi identificado como a fonte anônima de uma reportagem da rede BBC que levantou suspeitas sobre as justificativas dadas pelo governo do primeiro-ministro Tony Blair para a guerra no Iraque. O suicídio jogou Blair na pior crise política de seus seis anos de governo, especialmente porque nenhuma arma de destruição em massa foi ainda encontrada no Iraque. O inquérito - presidido por Lord Hutton e que deve se estender por meses - está sendo realizado no momento em que uma recente pesquisa mostrou que 52% dos britânicos acreditam muito pouco, ou nada, em Blair. Durante seu testemunho de hoje, Julian Miller, o secretário de inteligência e segurança do governo, foi perguntado sobre notícias dando conta de que Kelly teria afirmado a jornalistas que o governo Blair sabia que a garantia da prontidão de 45 minutos sobre as armas iraquianas era falsa."Se ele disso isto, seria verdadeira a afirmação?" perguntou Dingemans. "Não seria verdadeiro", respondeu Miller.

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