Jonathan Ernst/Reuters
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Novas inquisições

Os que querem que a literatura seja inofensiva querem tornar a vida impossível de ser vivida

Mario Vargas Llosa*, O Estado de S.Paulo

18 Março 2018 | 05h00

Tento ser otimista, lembrando diariamente, como sugeria Popper, que, apesar de o mundo estar tão mal, a humanidade nunca esteve tão bem como hoje. Mas confesso, esse otimismo a cada dia fica mais difícil. Se fosse um dissidente russo e crítico de Putin, morreria de medo de entrar em um restaurante ou em uma sorveteria e ingerir o veneno que ali estaria a minha espera. 

+ Vargas Llosa: A história de Peté

Como peruano (e espanhol) o sobressalto não é menor com um presidente dos EUA como Donald Trump, irresponsável e terceiro-mundista que, a qualquer momento, pode desencadear com suas bravatas insanas uma guerra nuclear que extinguirá uma boa parte dos habitantes deste planeta. Mas o que mais me deixa desanimado ultimamente é a suspeita de que, da maneira que vão as coisas, não é impossível que a literatura, que melhor me tem defendido nesta vida contra o pessimismo, pode desaparecer. 

A literatura sempre teve inimigos. A religião, no passado, foi a mais determinada a liquidá-la, estabelecendo censuras severíssimas e acendendo fogueiras para queimar escritores e editores que desafiavam a moral e a ortodoxia. Depois, foram os sistemas totalitários, o comunismo e o fascismo, que mantiveram viva essa sinistra tradição. Mas também as democracias, por razões morais e legais, proibiram livros. Mas, neste caso, foi possível resistir, lutar nos tribunais e, pouco a pouco, aquela guerra foi sendo vencida – pelo menos era o que se acreditava –, convencendo juízes e governantes que, se um país deseja ter uma literatura (e, em última instância, uma cultura), realmente criativa e de alto nível, é preciso tolerar no campo das ideias e formas dissidências, dissonâncias e excessos de toda classe.

Agora, o inimigo mais resoluto da literatura, que pretende expurgá-la do machismo, dos múltiplos preconceitos e imoralidades, é o feminismo. Não são todas as feministas, claro, mas as mais radicais, com o respaldo de amplos setores que, paralisados pelo temor de ser taxados de reacionários, conservadores e machistas chauvinistas, apoiam abertamente esta ofensiva antiliterária e anticultural. Por isso, quase ninguém se atreveu a protestar na Espanha contra o “decálogo feminista” de sindicalistas que pretende eliminar dos cursos nas escolas o estudo de autores tão machistas como Pablo Neruda, Javier Marías e Arturo Pérez-Reverte. 

As razões oferecidas são tão ingênuas e angelicais como os manifestos contra Vargas Vila assinados pelas mulheres dos anos 1900 pedindo a proibição dos seus “livros pornográficos”, e como a análise feita por Laura Freixas do livro Lolita, de Nabokov, explicando que o protagonista era um pedófilo incestuoso que violou uma menina e, o pior, era filha de sua mulher (ela se esqueceu de dizer que este também é um dos melhores romances do século 20). Ao adotar esse enfoque de uma obra literária, não há um romance da literatura ocidental livre de incineração. Santuário, por exemplo, em que o degenerado Popeye tira a virgindade da cândida Temple com uma espiga de milho, não deveria ter sido proibida e William Faulkner, seu autor, enviado a um calabouço? 

Lembro que a diretora da Jovem Guarda, editora russa que publicou em Moscou meu primeiro romance com 40 páginas cortadas, disse-me que, não tivessem sido suprimidas aquelas cenas, “os jovens casais russos sentiriam tanta vergonha depois de lê-las que não conseguiriam olhar um para o outro”. Quando lhe perguntei como podia saber isso, ela me tranquilizou, assegurando que todos os assessores culturais da editora eram doutores em literatura.

Na França, a editora Gallimard havia anunciado a publicação em um volume dos ensaios de Louis Ferdinand Céline, que foi um colaborador ardente dos nazistas durante a ocupação e um antissemita enlouquecido. Jamais teria cumprimentado este personagem, mas confesso que li deslumbrado seus romances – Viagem ao Fim da Noite e Morte a Crédito – que, na minha opinião, são obras-primas, sem dúvida as melhores da literatura francesa depois das de Proust. Os protestos contra a ideia de se publicar os panfletos de Céline levaram a Gallimard a engavetar o projeto.

Aqueles que querem julgar a literatura (e acho que isso vale para todas as artes) de um ponto de vista ideológico, religioso e moral, sempre encontrarão dificuldade. Ou aceitam que este exercício foi, está e estará sempre em conflito com o que é tolerável e desejável a partir daquelas perspectivas, e assim ele é submetido a censuras e controles que simplesmente acabarão com a literatura, ou se resignam a conceder a ela o direito à liberdade, que seria algo semelhante a abrir as jaulas dos zoológicos e deixar que as ruas se encham de animais e feras.

Quem explicou bem isso foi Georges Bataille em vários ensaios, mas especialmente em um livro belo e inquietante: A literatura e o mal. Neste livro, influenciado por Freud, ele afirma que tudo aquilo que tem de ser reprimido para tornar a sociedade possível – os instintos destrutivos ou “o mal” – desaparece apenas na superfície da vida, sempre lutando para se exteriorizar e se reintegrar na existência. De que maneira? Por meio de um intermediário, que é a literatura. A literatura é o veículo pelo qual tudo aquilo que está entranhado, torcido e retorcido no ser humano volta à vida e nos permite compreendê-la de modo mais profundo e, de certa maneira, vivê-la em sua plenitude, recuperando tudo aquilo que tivemos de eliminar para a sociedade não ser um manicômio nem uma hecatombe permanente, como deve ter sido na pré-história quando o homem ainda estava em gestação.

Graças a essa liberdade que desfrutou em determinados períodos e sociedades, nós temos a grande literatura, disse Bataille, e ela não é moral nem imoral, mas genuína, subversiva, incontrolável, ou então artificial e convencional, ou seja, morta. Aquele que acredita que a literatura pode ser tornada “decente”, submetendo-a a cânones para que ela respeite as convenções, está totalmente equivocado. O resultado seria uma literatura sem vida e sem mistério, presa a uma camisa de força, sem uma válvula de escape daquilo que existe de maldito dentro de nós e que encontrará outras maneiras de reintegrar-se à vida. E com que consequências? 

O surgimento desses infernos onde “o mal” se manifesta não nos livros, mas na própria vida, através de perseguições, barbáries políticas, religiosas e sociais. Portanto, graças aos incêndios e brutalidades dos livros, a vida é menos truculenta e terrível, mais tranquila, onde os humanos convivem com menos traumas e mais liberdade. Os que se empenham para que a literatura se torne inofensiva trabalham, na verdade, para tornar a vida impossível de ser vivida, tornar um território onde, segundo Bataille, os demônios acabarão exterminando os anjos. É o que queremos? /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

*É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA

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