Novas manifestações marcam segundo dia da Cúpula das Américas

Enquanto dezenas de milhares de manifestantes ocuparam hoje as ruas da cidade de Quebec para protestar pacificamente contra a criação da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), uma minoria agressiva investiu em vários pontos contra a grade de concreto e aço de 3,8 quilômetros que isolou a parte do centro histórico onde está sendo realizada a Terceira Cúpula das Américas. A grade voltou a ser derrubada em alguns pontos e, como na véspera, policiais em linha, com capacetes e máscaras antigás contiveram os manifestantes fora da área cercada até o meio da tarde deste sábado. Para barrar os militantes, a polícia, na sexta-feira à noite e desde o início da tarde de sábado, fez um emprego maciço de bombas de gás lacrimogênio. Também foram usados jatos d´água e, em escala bem menor, balas de plástico. Os manifestantes jogaram pedras, garrafas, pedaços de cimento e coquetéis molotov nos policiais, provocando alguns focos de fogo, rapidamente controlados. Até sábado, 130 pessoas foram presas e 85 pessoas atendidas pelo serviço de saúde municipal, a maioria por causa do gás lacrimogênio. Na grande manifestação pelas ruas de Quebec, juntaram-se sindicalistas, socialistas, comunistas, anarquistas, punks ou simples cidadãos contrários ao livre comércio. A manifestação foi fundamentalmente pacífica, com uma profusão de roupas, faixas e bandeiras coloridas, e muita música, dança e pantomina. O emprego maciço de gás lacrimogênio pela polícia impregnou o ar das ladeiras do centro histórico, tornando virtualmente impossível se aproximar da área cercada sem algum tipo de proteção para os olhos e nariz. O sistema de condicionamento de ar da sala de imprensa do Centro de Convenções, local principal da Cúpula, teve de ser desligado por causa do gás. Uma minoria de manifestantes usava máscaras contra gás, e deu maior trabalho para as centenas de policiais que defendiam a área cercada. As máscaras anti-gás eram vendidas por dez dólares canadenses (US$ 6,4) nas cercanias da área cercada da Cúpula. O vendedor Mathieu (que preferiu não dizer o sobrenome), 28 anos, vendia máscaras sentado em uma das escadarias que levam ao centro histórico. Mathieu disse ter vendido 30 máscaras, mas não revelou onde as havia obtido: "Isto é um segredo diplomático", brincou. Michel Bussire, um funcionário público de 50 anos de Quebec, foi um dos clientes de Mathieu. "A ALCA significa o domínio de toda as economias da América pelos Estados Unidos", ele definiu. Ele se disse "chocado com o aparato militar" montado para a Cúpula. Os namorados Michael McDonald e Erica Hensen, de New Brunswick, no Canadá, vieram a Quebec para protestar porque julgam que a ALCA reduz as suas chances de obter um bom emprego. "Esta cerca foi feita com o dinheiro dos meus impostos, e tenho o direito de derrubá-la", disse McDonald. Sem máscaras, porém, eles tiveram que parar muito antes da área cercada. David Kid, 49 anos, sindicalista e funcionário público de Toronto, veio protestar contra o fato de o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, reunindo Estados Unidos, Canadá e México) ter levado a United Parcel Service (UPS), multinacional americana de serviços postais, a processar o correio estatal canadense. A alegação, segundo Kid, foi de que a tarifa única e baixa para entrega de cartas em todo o Canadá seria um subsídio. A moradora de Quebec Renée Claude Morin, 27 anos, nutria sentimentos ambíguos em relação aos manifestantes: "Eu cheguei a dançar com eles na sexta-feira, mas não sei o que ganham com isso (o ataque à grade); tenho uma amiga com um bebê que mora perto da área cercada, e está trancada em casa por causa do gás; será que os manifestantes não pensam nestas pessoas?"

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