David J. Phillip/EFE
David J. Phillip/EFE

Novas transcrições mostram que Floyd disse mais de 20 vezes que não conseguia respirar

'Eles vão me matar, eles vão me matar', disse Floyd, de acordo com uma transcrição da câmera corporal nos arquivos de um ex-policial

Richard A. Oppel Jr. e Kim Barker / The New York Times, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2020 | 10h38

Os momentos de morte de George Floyd foram suficientes para horrorizar o mundo e provocar protestos nas ruas de dezenas de países, mas novas evidências revelam uma cena ainda mais desesperadora do que a conhecida nos momentos em que um policial pressionou o joelho em seu pescoço. Floyd disse "Não consigo respirar" mais de 20 vezes no total e antes de sua morte, afirmou: "Eles vão me matar. Eles vão me matar". 

Ele clamou não apenas pela mãe morta, mas também pelos filhos. Enquanto Floyd gritava por sua vida, um oficial gritou de volta para ele: "Pare de falar, pare de gritar, é preciso muito oxigênio para conversar". As transcrições das filmagens de câmeras da polícia de Minneapolis, divulgadas na quarta-feira, 8, foram arquivadas no tribunal estadual como parte de um esforço de um dos policiais em cena, Thomas Lane, 37 anos, de cancelar acusações de que ele ajudou e incentivou o assassinato de Floyd. 

Floyd, de 46 anos, morreu depois que outro oficial, Derek Chauvin, de 44 anos, pressionou o joelho em seu pescoço por mais de oito minutos, até que ele deixou de se movimentar. 

Chauvin, que estava no serviço por 19 anos, enfrenta acusações de assassinato e homicídio em segundo grau pela morte de Floyd e pode pegar até 40 anos de prisão se for condenado. Lane e J. Alexander Kueng, 26, e Tou Thao, 34, que eram novatos, terão a mesma pena se forem condenados . Os quatro oficiais foram demitidos.

Mesmo antes de estar no chão, Floyd disse que estava em dificuldades físicas, afirmando aos policiais que estavam tentando levá-lo para um carro da polícia que ele era claustrofóbico e não conseguia respirar. De acordo com uma transcrição, ele disse: “Mamãe, eu amo você. Diga aos meus filhos que eu os amo. Eu estou morto."

Em outro momento, Chauvin perguntou se Floyd estava drogado. Lane disse que parecia que sim, e Kueng disse que haviam encontrado drogas com ele. Um relatório de autópsia encontrou vestígios de drogas ilegais no corpo de Floyd. "Relaxe", disse Thao a Floyd.  "Não consigo respirar", disse Floyd. "Você está bem", respondeu Kueng. "Você está falando bem. Respire fundo", sugeriu Lane.

Os novos processos judiciais incluem 82 páginas de transcrições de câmeras corporais e a transcrição de 60 páginas da entrevista de Lane com investigadores do Bureau of Criminal Aprehension de Minnesota. Quando lhe perguntaram se ele sentiu que Floyd estava tendo uma emergência médica, Lane respondeu: "Sim, eu senti que talvez algo estivesse acontecendo".

No final da entrevista, o advogado de Lane, Earl Gray, contestou quando um investigador perguntou a Lane se ele achava que ele ou Chauvin haviam contribuído para a morte de Floyd. "Você não vai responder a isso", disse Gray. O Sr. Lane não respondeu à pergunta.

Muito do que se sabia sobre os momentos finais de Floyd veio de vídeos de espectadores e filmagens de câmeras de vigilância. Mas as transcrições das câmeras corporais, e a entrevista de Lane com os investigadores, fornecem mais detalhes e mostram com que intensidade e persistência ele havia dito a eles que já estava mal. 

Enquanto Floyd estava no chão, de bruços, com o joelho de Chauvin pressionado no pescoço, Lane perguntou se Floyd deveria ser virado de lado. Chauvin respondeu: "Não, ele vai ficar onde está". Lane disse que estava preocupado com o fato de Floyd estar tendo uma emergência médica. "Bem, é por isso que tem uma ambulância vindo", respondeu Chauvin, de acordo com uma das transcrições.

"Tudo bem, acho", respondeu Lane, acrescentando logo depois: "Acho que ele está desmaiando". Naquele momento, uma pessoa na rua gritou: "Ele nem está respirando agora, cara, você acha isso legal? Você acha legal?" 

Pessoas no local perguntaram repetidamente se o pulso de Floyd estava batendo. "Você está sentindo?", Lane perguntou. "Não consigo encontrar", respondeu Kueng. Ele tentou novamente e disse que não conseguia encontrar um pulso.

Mais de dois minutos se passaram, de acordo com a data e hora na transcrição das imagens das câmeras corporais de Kueng. Ainda assim, Chauvin manteve o joelho no pescoço de Floyd, mostram os vídeos. 

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