Imagem Gilles Lapouge
Colunista
Gilles Lapouge
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Novela dos navios militares

A França vai entregar ou não os dois navios de guerra tipo Mistral que construiu para a Rússia em razão de um contrato firmado com o presidente russo, Vladimir Putin, pelo ex-presidente francês Nicolas Sarkozy, em 2011? O primeiro desses dois navios ficou pronto. Ele se chama Vladivostok e flutua alegremente no porto francês de Saint Nazaire. Também estão lá 400 marinheiros russos que foram treinados no manejo desse navio.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2014 | 02h03

Está tudo, portanto, no melhor dos mundos. Esta "joia" dos mares expressa as venturas da amizade franco-russa. Com um pequeno obstáculo, porém: a França ainda não sabe se vai entregar o Vladivostok a Putin.

A questão que Paris se coloca é a seguinte: Putin merece receber um navio desses? Esse russo será ou não um bom sujeito? Ele quer acalmar as coisas com a União Europeia e os Estados Unidos ou continuará sendo o homenzinho perverso que engoliu numa bocada a Crimeia e há meses semeia a discórdia na Ucrânia? O presidente francês, François Hollande, que é um especialista em indecisão, dúvida e procrastinação, aguarda pacientemente. É preciso dizer que seu confrade Putin não o ajuda a sair do muro: um dia, o russo se faz de amigo da Ucrânia e do Ocidente e, no dia seguinte, saca suas bazucas e seus tanques.

Em certos dias, o pessoal de Moscou, exasperado com os silêncios de Paris, tenta pressionar Hollande. Na quarta-feira, Moscou publicou uma carta do construtor naval francês Pierre Legros anunciando que a entrega do Vladivostok ocorreria em Saint Nazaire em 14 de novembro, com festas suntuosas e a presença da "nata" francesa e russa. Algumas horas depois, a França desmentia. Não, a entrega do Vladivostok não está decidida. Hollande tomará sua decisão um pouco mais tarde. Ele que ter certeza de que Putin merece seu lindo navio.

São compreensíveis as vacilações de Hollande. As apostas são enormes. Se o contrato tiver de ser rescindido pela França, o prejuízo alcançaria mais de 1 bilhão. E o desemprego de 300 empregados ultraqualificados dos estaleiros navais.

Por outro lado, entregar os dois navios a Putin provocaria a ira de Obama e dos aliados de Paris, entre eles, a Polônia, que está muito empenhada em firmar polpudos negócios de armas com a França. Ocorre que a Polônia detesta a Rússia e se Paris superar as reticências dos ocidentais e entregar o Vladivostok, Varsóvia anularia os contratos em discussão com Paris no valor de dezenas de bilhões de euros.

Inconveniente contrário: se Paris seguir os conselhos dos americanos e anular a venda das duas fragatas, a França ficará com a reputação de ser um país "não confiável", sem palavra, incapaz de honrar sua assinatura. Os eventuais compradores de equipamentos militares se voltarão então para outros fornecedores.

Este é o pé em que estamos: tudo depende desta estranha dança a que se entregam Putin e Hollande há semanas. À espera de saber se esses arrulhos terminarão em ruptura ou num tango voluptuoso, o Vladivostok continua em Saint Nazaire tendo como único consolo a admiração dos especialistas.

No jargão desses entendidos, o Vladivostok recebeu o apelido de "canivete suíço", bela homenagem de excelência. Trata-se de uma grande embarcação com 199 metros de comprimento, 21.000 toneladas e velocidade de 19 nós. Ele pode transportar 450 homens, 16 helicópteros pesados, 2 aerobarcos ou 4 balsas de desembarque, além de 60 blindados. Ele é equipado com um hospital de 60 leitos com 2 salas de cirurgia. Uma maravilha, dirão. Sim, mas a maravilha descansa ociosa à espera que Putin e Hollande encerrem sua contradança. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É CORRESPONDENTE EM PARIS

Tudo o que sabemos sobre:
FrançaRússiaPutinHollande

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.