AFP PHOTO / GUILLERMO LEGARIA
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‘Novo acordo abrange propostas de toda sociedade’

Presidente colombiano diz que desafio após fechar novo pacto com as Farc é obter ‘amplo respaldo’ da população

Entrevista com

Juan Manuel Santos, presidente da Colômbia

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2016 | 05h00

Com o novo acordo de paz fechado entre o governo colombiano e a Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), o presidente Juan Manuel Santos afirma que o maior desafio é conseguir um “amplo respaldo” ao novo pacto. “Desde o início do meu governo, dediquei-me a três objetivos: deixar aos colombianos uma Colômbia mais igualitária, mais educada e em paz”, afirmou o presidente ao Estado, em entrevista por e-mail. 

Para o ganhador do Prêmio Nobel da Paz deste ano - recebido em razão das negociações de paz com a maior guerrilha da Colômbia -, a rejeição ao primeiro acordo pela população no plebiscito de outubro abriu caminhos para um pacto de paz mais amplo. “O novo acordo obtido abrange as propostas de todos os setores da sociedade. É um acordo melhor, fortalecido e renovado”, afirmou o presidente, explicando que o diálogo com o senador e ex-presidente Álvaro Uribe, principal partidário do ‘não’ ao acordo inicial, foi “produtivo”. 

O segundo pacto foi fechado após semanas de negociações entre equipes de governo e as Farc em Havana. Representantes da campanha pelo ‘não’, como Uribe e o também ex-presidente Andrés Pastrana, apresentaram reivindicações para modificar o texto original do acordo. 

O presidente também se disse aberto a prosseguir as negociações com o Exército de Libertação Nacional (ELN), o segundo maior grupo guerrilheiro da Colômbia. Santos, que termina seu mandato na presidência em 2018, pensa em deixar a vida pública e espera que, no cenário de pós-conflito, o Brasil possa auxiliar a Colômbia em questões agrícolas. 

O senhor havia participado de processos de paz anteriores antes de ser presidente. Em que momento decidiu que era preciso tentar fazer a paz com as Farc novamente?

Desde meados dos anos 90, dediquei-me a estudar diferentes processos de paz no mundo para aprender com os acertos e erros. Como ministro da Defesa e como presidente da Colômbia, combati militarmente as Farc e acertei alguns golpes fortes. Sempre consciente de que a meta a ser alcançada era a solução negociada. Desde o primeiro dia do meu mandato, indiquei que a chave para a paz não estava no fundo do mar. Tudo o que fiz como funcionário público, em diferentes postos, fui levado pela busca da paz e insistirei nisso até o último dia do meu mandato. 

Depois do plebiscito, muitos ficaram com medo de um novo conflito, mas o senhor voltou a falar em buscar a paz. O seu governo tinha um plano B?

Assumi o resultado do plebiscito como uma oportunidade para construir um acordo de paz muito mais inclusivo. Por isso, desde o dia do plebiscito, iniciei um processo de diálogo nacional para escutar os colombianos e obter um novo acordo de paz com amplo respaldo nacional, que nos permita alcançar essa meta. Como foi reconhecido por todos os setores, a paz é um objetivo comum, compartilhado e desejado por todos os colombianos. O novo acordo obtido abrange as propostas de todos os setores da sociedade. É um acordo melhor, fortalecido e renovado, que nos permite determinar as bases da união e da reconciliação nacionais. 

O senhor falou com o líder das Farc, Timoleón Jiménez, o Timochenko, após o resultado do plebiscito em outubro?

Sim, falei com ele. Depois do resultado da votação, as Farc manifestaram seu compromisso com a busca de uma paz negociada e sua disposição em construir um novo acordo. O novo pacto, com as mudanças e os ajustes feitos, mostra que eles (guerrilheiros) estão conscientes da importância de respeitar o mandato dos cidadãos. 

Muitas pessoas temiam que houvesse uma mudança de posição após o plebiscito. O novo acordo é uma prova do comprometimento da guerrilha com a paz?

O novo acordo alcançado, com as mudanças e ajustes provenientes do diálogo nacional com todos os setores do país, é a demonstração mais clara disso.

Quais são os principais desafios agora?

O principal desafio a partir de agora é continuar avançando no acordo nacional para conseguir o amplo respaldo e o consenso em torno do novo acordo assinado com as Farc. Desde o início do meu governo, dediquei-me a três objetivos: deixar aos colombianos uma Colômbia mais igualitária, mais educada e em paz. Com relação à educação e à luta contra a pobreza, temos tido muitos avanços e continuaremos trabalhando nisso. Também vamos continuar avançando na transformação da infraestrutura da Colômbia, que é um elemento fundamental para o crescimento e para a igualdade no país.

O senhor pensa em realizar um novo plebiscito para referendar este novo acordo?

Existem várias opções. Estamos avaliando, sempre com o objetivo de promover a reconciliação e a união, não a polarização. 

Como foram os diálogos com o senador Álvaro Uribe?

Desde que divulgaram o resultado do plebiscito, abrimos espaços para escutar e trabalhar com aqueles que promoveram o “não”, entre eles o ex-presidente Álvaro Uribe. Os diálogos foram francos e construtivos. Durante horas e dias, nós escutamos e trabalhamos em torno das inquietações e observações desses setores, e de setores a favor do “sim”, porque a vontade de paz é comum na Colômbia.

O senador Uribe era seu padrinho político e nos disse, na semana da assinatura do acordo, que o senhor mudou suas posições políticas e, por isso, vocês estão em lados opostos hoje.

No íntimo, não mudei minhas posições políticas. Durante seu governo, o ex-presidente Uribe buscou de todas as formas aproximações com as Farc. De fato, nos últimos anos de sua presidência, o Brasil mediou esse esforço. A Colômbia está há anos buscando a paz, até mesmo no período do governo do presidente Uribe. Diante dos três pilares do governo dele, a segurança, a confiança dos investidores e a coerência social, meu governo foi muito além. Aí estão os números.

Como o senhor pensa que será a participação política das Farc no futuro?

A passagem das Farc para a democracia contará com todas as garantias de segurança. Caberá a eles (guerrilheiros), sem armas e na democracia, apresentar suas ideias aos colombianos. 

O que é preciso fazer para evitar que os guerrilheiros que não aceitarem o acordo fujam para outros países? É uma preocupação de Brasil e de Venezuela, por exemplo.

O acordo não afetou a capacidade das nossas Forças Armadas. Com o fim do conflito com as Farc, os militares poderão se concentrar na luta contra outras organizações que participam de crimes transnacionais, como o narcotráfico. As Forças Armadas e a Justiça colombiana atuarão contra todos os grupos criminosos e continuaremos estreitando nossa cooperação com os vizinhos. 

O senhor acredita que poderá iniciar os diálogos com o ELN (outra guerrilha colombiana)? Serão mais complexos do que o processo com as Farc?

A porta da negociação continua aberta para o Exército de Libertação Nacional (ELN). Eles têm a chave, que é a libertação dos sequestrados e o abandono dessa prática. As negociações serão diferentes das que tivemos com as Farc, porque, desde o início, haverá mais participação da sociedade. Apesar de toda negociação ser difícil, o alcançado no acordo com as Farc em questões de vítimas, fim do conflito e participação política facilitará as negociações com o ELN.

O senhor espera a participação do Brasil no pós-conflito?

O Brasil tem muito para ajudar no pós-conflito. O futuro da Colômbia está no campo, em seu potencial agrícola. Nosso país tem a capacidade de produzir 700 mil toneladas de alimentos a mais do que produz atualmente. O Brasil tem muito conhecimento em questões agrícolas e, sem dúvida, pode contribuir com elementos muito importantes nisso.

Quais são as suas intenções políticas após a deixar a presidência?

Não tenho mais intenções políticas. Gostaria de me dedicar a ser professor universitário, para compartilhar experiências e os aprendizados que acumulei na vida pública. 

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