Matt Dunham/AP
Matt Dunham/AP

Novo aperto em lei antiterror marca 10º ano de falha britânica

Dez anos após morte do brasileiro Jean Charles, britânicos vivem a expectativa de um endurecimento na legislação para combater extremismo no país

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2015 | 02h04

Dez anos após a política de combate ao terror da Grã-Bretanha ser lembrada pela falha que resultou na morte do brasileiro Jean Charles de Menezes, em Londres, os britânicos vivem a expectativa de um novo endurecimento na legislação, anunciado pelo primeiro-ministro David Cameron como resposta à morte de 30 britânicos no atentado contra um hotel em Sousse, na Tunísia, em junho.

Em discurso feito na segunda-feira, Cameron falou do plano de cinco anos do governo para combater o extremismo na Grã-Bretanha e conter a divulgação de propaganda do Estado Islâmico (EI), que tem bases na Síria e no Iraque, mas recruta seguidores em diversos países.

O plano, que tem a intenção de banir grupos extremistas do país, tem base em quatro pilares: desconstruir o discurso apresentado pelo EI para recrutar jovens estrangeiros; permitir que pais cancelem o passaporte de filhos que pensam em viajar para a Síria ou Iraque para se juntar ao EI; dar voz a muçulmanos que combatam o discurso extremista e fechar mesquitas onde os radicais pregam; e criar programas para melhorar a integração das minorias e reduzir a segregação em escolas.

Em 2005, o Estado Islâmico ainda não existia, mas os primeiros ataques suicidas de militantes radicais islâmicos na Europa Ocidental foram cometidos por partidários da Al-Qaeda contra o sistema de transporte de Londres, deixando 52 mortos. No dia 7 de julho de 2005, quatro jovens muçulmanos britânicos viajaram para Londres e detonaram bombas caseiras escondidas em mochilas dentro de três trens do metrô.

No dia 21, uma nova tentativa de atentado, dessa vez fracassado, deixou os policiais londrinos ainda mais sob pressão. No dia 22, uma operação comandada pela Scotland Yard, polícia metropolitana de Londres, confundiu o eletricista Jean Charles com Osman Hussain, suspeito da tentativa de ataque, e matou o jovem na estação de metrô Stockwell. A morte desatou polêmica e pôs em xeque as medidas adotadas pelo governo.

Ontem, parentes de Jean Charles levaram flores até a estação Stockwell e prestaram homenagens ao brasileiro. As pessoas fizeram um minuto de silêncio no momento em que o jovem foi morto.

A família do brasileiro cobra uma punição para a polícia britânica, que foi multada em 175 mil libras por violar normas de segurança. Os policiais envolvidos no caso foram excluídos de responsabilidade criminal. Agora, o caso está sendo analisado pelo Tribunal Europeu de Direitos Humanos.

Nova ameaça. Dez anos depois, a ameaça terrorista na Grã-Bretanha é outra. "A ameaça em 2005 era dominada pelas redes associadas à Al-Qaeda no Paquistão. Essa ameaça se tornou mais diversificada ao longo dos anos, com a diminuição da Al-Qaeda e o fortalecimento de grupos regionais, que se tornaram mais autônomos", explica o especialista em contraterrorismo que atuou no Ministério das Relações Exteriores da Grã-Bretanha entre 2005 e 2014, Chris Mackmurdo.

As novas medidas anunciadas nesta semana por Cameron podem ser justificadas, segundo Mackmurdo, pela dificuldade dos governos de combater o terrorismo do EI, que obteve sucesso ao desafiar a posição da Al-Qaeda como movimento jihadista de vanguarda. "O EI motiva e mobiliza redes ainda maiores de extremistas, que são difíceis de ser detectadas e combatidas, deixando a Grã-Bretanha e outros Estados mais vulneráveis a ataques terroristas."

O especialista explica que a única semelhança entre os ataques de 7 de julho de 2005 e os cometidos contra turistas na Tunísia no mês passado é a hierarquia entre o autor e o comandante do atentado. "Foi divulgado que o atirador da Tunísia foi orientado pelo comando do EI na Síria, então houve conexões físicas entre o atirador e a base terrorista, muito parecido com a situação em 7 de julho, mas a natureza dos ataques é diferente", explica.

Uma das principais características do Estado Islâmico é o recrutamento de estrangeiros, principalmente ocidentais. "A prioridade do EI é ganhar e controlar territórios em sua região, mas também cooptar grupos que operem em outras regiões", explica Mackmurdo, que fundou a empresa de consultoria em inteligência estratégica Contest Global.

Segundo a Scotland Yard, ao menos 700 britânicos deixaram o país para unir-se ao grupo extremista na Síria. Por isso, o plano britânico prevê impedir a transmissão de mensagem extremistas em redes de TV e dar à polícia e aos serviços de inteligência poder para monitorar comunicações.

Mackmurdo acredita que a segurança na Grã-Bretanha melhorou desde 2005, mas o alcance das redes militantes também aumentou. "São novos desafios aos serviços de segurança, que há dez anos enfrentavam ameaças oriundas de alguns países além das fronteiras."

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