Novo atentado em Samarra foi ´trabalho interno´, diz militar

Para general americano, guardas sunitas que faziam proteção do templo xiiita podem ter facilitado ou mesmo colocado os explosivos que destruíram minaretes

Agencia Estado

18 Junho 2007 | 11h59

O novo atentado contra uma das mesquitas mais importantes para os xiitas do Iraque pode ter contado com a participação de guardas do próprio templo. A suspeita, publicada por sites noticiosos americanos, foi levantada por militares dos Estados Unidos nesta quarta-feira, 13, horas depois das explosões que destruíram os dois minaretes da mesquita xiita de Askariya, na cidade iraquiana de Samarra. Segundo o general Benjamin Mixon, especula-se que os seguranças tenham ajudado direta ou indiretamente na colocação dos explosivos, numa ação cujo planejamento e execução foi atribuído ao braço iraquiano da rede terrorista Al-Qaeda. De acordo com a CNN, o general afirmou que "não há evidências de que morteiros ou qualquer coisa parecida tenha sido usada", o que reforçaria a tese de que se trata de um "trabalho interno". O ataque deve acirrar ainda mais a violência sectária que castiga o Iraque desde fevereiro do ano passado, quando um ataque contra a mesma mesquita danificou seu famoso domo dourado, desencadeando uma onda de retaliação de grupos xiitas contra templos sunitas. Em reportagem publicada em seu site, o New York Times afirma que desde o primeiro ataque, a mesquita vinha sendo guardada por forças de segurança formadas predominantemente por muçulmanos sunitas. Nos últimos meses, entretanto, tornou-se crescente a suspeita de que membros da Al-Qaeda no Iraque haviam se infiltrado na unidade. Ainda segundo o jornal, o Ministério do Interior iraquiano já havia programado a troca dos guardas por outros de origem xiita. A manobra poderia estar ligada ao ataque, diz o NYT. De acordo com a polícia local, as explosões ocorreram por volta das 9 horas locais. Pouco depois do ataque, o primeiro-ministro iraquiano, Nuri al-Maliki, decretou um toque de recolher por meio do qual a circulação de veículos e as aglomerações ficaram proibidas a partir das 15 horas desta terça-feira. Um clima sombrio instalou-se na capital iraquiana enquanto seus moradores corriam para casa antes do início do toque de recolher. A polícia afirmou que homens armados dispararam contra uma mesquita sunita do bairro de Bayaa (sudoeste de Bagdá). Detenções Um assessor de Maliki disse que policiais posicionados no santuário foram detidos para interrogatório como parte de uma investigação ordenada pelo primeiro-ministro. Um toque de recolher por tempo indeterminado foi imposto em Samarra, uma cidade situada a apenas 95 quilômetros ao norte de Bagdá. Mais tarde, o Ministério de Interior do Iraque anunciou a detenção de integrantes de "um grupo terrorista" e informou, sem entrar em detalhes, que os suspeitos estão sendo interrogados. O ataque contra a mesquita de Samarra acontece em um momento crítico da política iraquiana. O governo de Maliki está sob pressão crescente para acelerar a reforma de leis que, segundo esperam autoridades dos EUA, atrairá os sunitas para dentro do processo político e minará a insurgência. Mas, em reação ao ataque, 30 parlamentares leais ao clérigo xiita Muqtada al-Sadr pediram a suspensão de seus mandatos. Eles anunciaram que ficarão afastados do Parlamento até que o governo adote "medidas realistas" para a reconstrução da Mesquita do Domo Dourado. O pedido de suspensão, anunciado numa declaração conjunta do bloco político leal a Al-Sadr, tende a enfraquecer o governo e retardar os trabalhos no Parlamento. Enquanto isso, Maliki reuniu-se com o comando militar dos Estados Unidos no Iraque para pedir aos americanos que enviem reforços a Samarra para impedir a disseminação de uma nova onda de violência. Em Bagdá, os soldados americanos foram colocados em alerta, informou a assessoria de imprensa de Maliki. O comando militar americano não se pronunciou oficialmente sobre suas próximas ações. Por meio de um comunicado, o embaixador dos EUA em Bagdá, Ryan Crocker, e o comandante americano no Iraque, general David Petraeus, qualificaram o ataque como um "ato de desespero" e como "uma tentativa deliberada da Al-Qaeda de disseminar dissensão e inflamar o conflito sectário". A Al-Qaeda tenta fazer eclodir uma guerra civil entre a maioria xiita do Iraque e a minoria sunita, que dominou o país durante a ditadura de Saddam Hussein. O grupo terrorista realizou vários atentados a bomba de grandes proporções dentro do território iraquiano, matando dezenas de milhares de pessoas. Irã Por sua vez, o grão-aiatolá Ali al-Sistani, líder supremo dos muçulmanos xiitas do Iraque, divulgou uma declaração na qual pede aos fiéis que "demonstrem autocontenção e evitem qualquer ato de vingança contra inocentes ou contra locais sagrados para outras pessoas". No vizinho Irã, O presidente da república islâmica, Mahmoud Ahmadinejad, direcionou sua revolta com o ataque contra as forças americanas no Iraque. "Fomos informados que nossos santuários em Samarra foram atacados", anunciou Ahmadinejad a uma multidão durante um discurso em Shahroud, cerca de 500 quilômetros ao leste de Teerã. Ahmadinejad usou o termo "nossos" por se tratar de um santuário xiita, a seita islâmica dominante no Irã e compartilhada pela maioria da população iraquiana. Mais de 2.000 iranianos visitam diariamente os santuários xiitas do Iraque. "Vocês se verão encurralados por permitirem atividades assim", disse ele sobre os americanos. Apesar de ele não ter especificado como os EUA teriam permitido os ataques de hoje, trata-se, provavelmente, de uma referência à falha na segurança do templo. Mohammad Ali Hosseini, porta-voz da chancelaria iraniana, disse que as forças de ocupação, numa referência aos EUA, eram as responsáveis por melhorar a segurança do templo depois do ataque do ano passado.

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