The New York Times
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Novo caminho do Irã para o mundo moderno

Se houver um maior contato, isso fortalecerá os iranianos que acham que seu país não deve se opor à modernidade

Fareed Zakaria*, The Washington Post

20 de julho de 2015 | 03h00

Ao defender o acordo nuclear firmado com o Irã, o governo Barack Obama tem tido o cuidado de deixar claro que se trata apenas de um acordo sobre questões nucleares. “(O acordo) resolve um problema particular”, esclareceu o presidente em entrevista na quarta-feira, um dia depois do anúncio do pacto. E tanto defensores como críticos do acordo rapidamente insinuaram que a medida é muito diferente da aproximação de Richard Nixon da China, que transformou o país e suas relações com o mundo. 

O Irã, afinal, é um regime considerado proscrito que adotou como slogan “morte aos EUA” e financia o terrorismo antiamericano por todo o Oriente Médio. Mas devemos nos lembrar do que era a China na época em que Henry Kissinger realizou sua viagem secreta a Pequim, em julho de 1971. Mao Tsé-tung era, sem dúvida, o mais radical líder antiamericano no mundo, apoiando grupos guerrilheiros violentos na Ásia e mais além. E, embora não repetisse o mesmo slogan, Pequim era um grande patrocinador dos norte-vietnamitas, enviando tropas, suprimentos e recursos financeiros para combaterem e matarem soldados americanos diariamente. E o país também estava no meio da sua Revolução Cultural, um dos períodos mais bárbaros da história moderna da China.

Inicialmente a abertura para a China nada mudou. Durante conversações entre Nixon, Kissinger, Mao e o premiê chinês Zhou En-lai os chineses rejeitaram suspender seu apoio ao regime norte-vietnamita ou incentivar Hanói a negociar seriamente com Washington. Na verdade, no período em que Nixon e Kissinger dialogaram com os chineses, as remessas de armas de Pequim para o Vietnã do Norte aumentaram. 

O historiador Qiang Zhai, cujo livro sobre o envolvimento da China na Guerra do Vietnã teve como base arquivos chineses, deixa claro que entre 1971 e 1972 o envio de armas, artilharia, radiotransmissores e veículos chineses aumentaram drasticamente. E do mesmo modo que nos falam hoje que um hipotético acordo melhor poderia ter sido firmado com o Irã, os conservadores também execraram Nixon por trair Taiwan, afirmando que em vez de passar o assento de Taiwan nas Nações Unidas para Pequim, Washington devia ter se empenhado mais para negociar um acordo sobre os dois assentos na ONU. Mas com o tempo a China reduziu seu apoio a movimentos revolucionários em países como Indonésia, Malásia e Tailândia. E suas relações com o Vietnã esfriaram, por muitas razões, mas com certeza a aproximação dos Estados Unidos foi uma delas. 

Estas mudanças finalmente levaram a uma revisão completa da política externa chinesa, mas sete anos depois das reuniões de Kissinger com o novo líder chinês Deng Xiaoping, que primeiro consolidou o poder e depois rompeu com a visão de mundo revolucionária de Mao. No caso do Irã, as advertências são várias. A aproximação da China com o Ocidente foi incentivada por sua cisão com a União Soviética e, talvez, seu completo isolamento. O Irã não enfrenta uma ameaça tão extrema à segurança e, como país produtor de petróleo, que mesmo sob o peso de sanções contabiliza uma receita de dezenas de bilhões de dólares, jamais ficou realmente isolado ou empobrecido. Contudo o Irã claramente se ressente do fato de ser tratado como um pária no mundo. 

Uma nova geração de iranianos manifestou essa frustração de várias maneiras. E um novo grupo de líderes - que tem alguma influência, mas não o controle total - deseja reorientar o Irã no sentido da normalidade. Isso significa que a política externa de Teerã será mais moderada? A história sugere que à medida que os países se integram mais no mundo e na economia global eles têm menos incentivos para se tornarem espoliadores e mais razões para manterem a estabilidade. Com certeza, é por isso que muitos radicais no Irã se opuseram ao acordo nuclear. 

Acham que ele levará o Irã na direção errada, que poderá abrandar o ímpeto revolucionário do regime. Naturalmente, o Irã procurará atender a seus interesses nacionais e às vezes entrará em conflito com a política americana. Mas com relação aos desafios mais prementes a ser enfrentados hoje no Oriente Médio, a ameaça do Estado Islâmico (EI), a estabilidade dos governos iraquiano e afegão - Irã e EUA na verdade têm interesses convergentes. (Sim, o Irã financia milícias no Iraque e na Síria, mas elas constituem a força mais eficaz em campo combatendo o EI. Devem parar?)

A guerra sectária no Oriente Médio - alimentada por sunitas e xiitas - continuará. Mas finalmente Washington e outros podem falar para ambos os lados para tentar reduzir as tensões. Nenhuma mudança significativa ocorrerá no Irã nos próximos meses. Na China também não ocorreu. E nem em Cuba ou Mianmar. Mas nos próximos dez anos, se houver um maior contato, mais comunicação, e um maior intercâmbio comercial e de capital entre Irã e o restante do mundo, certamente tudo isso aos poucos fortalecerá aqueles iranianos que acham que o seu país deve fazer parte do mundo moderno e não se opor a ele. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

*É COLUNISTA

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