Pedro Rances Mattey / AFP
Pedro Rances Mattey / AFP

Novo cenário da crise venezuelana: população sem-teto passa a morar em cemitérios

Cemitério declarado monumento histórico é lar de muitas famílias na capital da Venezuela

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2021 | 17h00

CARACAS - Jendry anda de skate em um gigantesco cemitério de Caracas tomado por sepulturas danificadas. Outras crianças brincam com ele sem se incomodar com esqueletos humanos removidos por saqueadores. 

O menino de 11 anos, que geralmente vai com sua irmã de 9 pedir comida em um mercado próximo, mora com sua mãe alcoólatra no Cemitério General del Sur. Ainda em funcionamento, o cemitério do final do século 19 e declarado Monumento Histórico Nacional em 1982, é o lar de muitas famílias sem-teto, que coabitam com os mortos e com ladrões de túmulos. 

Em uma das poucos sepulturas ainda não violadas, sua irmã mais velha, Winifer, 17, mora com seu marido, Jackson, 19, e sua filha de cinco meses. “Vivi praticamente toda a minha vida no cemitério”, diz a adolescente com cara de menina que não sabe ler nem escrever.

Basta dar alguns passos para perceber a ação dos saqueadores. "Em um dia, eles violaram 22 sepulturas", disse um funcionário. Não há números oficiais, mas a mídia local aponta que mais de 60% do cemitério ja sofreu danos deste tipo. 

Winifer e Jackson, que passaram meses na prisão por roubar um telefone celular, vivem em uma estrutura feita com folhas de zinco e barras de metal, semelhante a uma pequena capela. Eles dormem em lápides de granito que abrigam quatro mortos embaixo. 

A profanação do cemitério, com figuras históricas, algumas realocadas, surgiu da "corrida do ouro", uma busca frenética pelas joias com as quais sepultavam os defuntos, segundo funcionários. Também se deve a rituais realizados no local com alimentos e alcool como oferenda. Em algumas túmulos, eles tiram os mortos e roubam a cerâmica. 

Cada um cuida de seu túmulo

É domingo e a salsa soa alto no perigoso bairro vizinho ao cemitério. Luis, de 41 anos, que mora em um espaço semelhante ao de Winifer e Jackson, espera mais visitantes. Ele diz que cuida de 37 sepulturas, incluindo a que ocupa com sua família. 

"Todos os meus túmulos estão marcados", explica ele. “Cada um cuida do túmulo, varre, lava, limpa, e aos domingos os familiares trazem duas ou três mercadorias”.“Em bons fins de semana já juntei até 20”, comemora o homem que perdeu a casa há dois anos após uma enchente. 

Desempregado, ele busca esteiras, potes e brinquedos para o filho em latas de lixo. “É melhor dormir aqui do que na rua”, diz Luís, que ficou nove anos preso por vender drogas. No entanto, algumas pessoas estão insatisfeitas por acharem que essas residências improvisadas profanam os túmulos de seus entes queridos. 

Uma mulher chamada Maritza reclama com Jackson ao ver utensílios de cozinha no túmulo de um sobrinho morto por policiais. “Como pode uma cozinha aqui, o que é isso? Eles têm que respeitar, essas mortes ainda machucam”, reclama Maritza, indicando que os corpos de um filho assassinado aos 21 anos, de uma sobrinha que morreu de câncer, sua sogra e dois outros sobrinhos vítimas da violência foram enterrados naquele local. 

Ex-presidente profanado

Os gigantescos mausoléus da Guarda Nacional Bolivariana (GNB) e da extinta Polícia Metropolitana de Caracas são exemplos da devastação. Para descer até o porão, todo saqueado, é preciso passar por uma escada cheia de lixo, entulho e excrementos. O cheiro é insuportável. 

O luxuoso mausoléu da família do duas vezes presidente da Venezuela Joaquín Crespo (1841-1898) está em ruínas. É difícil caminhar entre os escombros onde se destacam dois sarcófagos de madeira destruídos, onde Crespo e sua esposa descansavam. Moradores de rua e usuários de drogas sobem uma escada em espiral até o segundo andar desta obra arquitetônica, uma das mais emblemáticas do cemitério. 

A prefeitura de Caracas não respondeu aos pedidos de comentários sobre a situação do cemitério. Mas Luís, que dorme sobre nove caixões, diz que só há uma maneira de evitar a profanação: "Quem quer que os seus mortos fiquem seguros tem que pagar". / AFP

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