Novo censo contraria discurso de Evo

Pesquisa de 2012 mostra que número de pessoas que se reconhecem como indígena pode ser menor do que diz presidente

Murillo Ferrari, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2013 | 02h01

Utilizado como ferramenta por Evo Morales para aprovar, em 2009, uma Constituição com base na "cidadania étnica" - que garantiu mais direitos a indígenas e povos originários -, o censo boliviano, refeito em 2012, pode se tornar instrumento da oposição para combater o discurso indigenista do presidente.

O resultado da nova medição mostra que a quantidade de pessoas com 15 anos ou mais que declarou pertencer a nações ou povos indígenas originários caiu de 62% para 41%. Eram 3,14 milhões e agora são 2,8 milhões. Em contrapartida, o número de bolivianos que não se reconheciam pelo mesmo critério subiu de 1,93 milhão para 4,03 milhões, aumento de 108%.

Senadora pelo partido de oposição Convergência Nacional, Jeanine Añez afirmou ao Estado que Evo faz uso político do discurso indigenista e aproveitou-se do desconhecimento da população para usar os dados de 2001 a seu favor. "O atual censo (de 2012) é questionável porque não foi bem elaborado nem feito de forma responsável. Ainda assim, deixa claro que a Bolívia não é um país majoritariamente de indígenas e, portanto, os números de 2001 e todo o discurso do governo são uma mentira", disse Añez.

Analistas divergem sobre qual seria a explicação para a mudança na classificação étnica do país, mas concordam que as medidas aprovadas sob o atual texto constitucional reforçaram o desejo da classe média boliviana de manifestar seu "desencanto" com o governo e o último censo pode simbolizar o ressurgimento de um movimento que defenda os interesses dessa camada social.

Para o cientista político Carlos Cordero, da Universidade Maior de San Andrés e da Universidade Católica Boliviana, o novo censo pode resultar em problemas para as políticas em favor dos povos indígenas e em frustração eleitoral em 2014. "Em 2001, os bolivianos identificaram-se e expressaram de boa-fé sua simpatia pelos povos indígenas. Nos últimos 12 anos, e depois de 8 deles sob o governo socialista de Evo, essas pessoas viram que os resultados foram usados para criar um mito, uma mentira: de que a Bolívia é um país majoritariamente indígena", disse.

O cientista político Marcelo Silva, também da Universidade Maior de San Andrés, apresenta outra explicação para a diferença entre os dois censos bolivianos. "Isso se deve fundamentalmente a um processo de migração das áreas rurais para as grandes cidades pelo qual o país passou", disse. "Hoje a Bolívia concentra a maior parte da sua população na área urbana de La Paz, Cochabamba e Santa Cruz de la Sierra e esse processo de 'cidadanização' acentuou a diferença das identidades de 2012 e de 2001."

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