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Novo dia de repressão em Mianmar deixa pelo menos 38 mortos

Desde o golpe de Estado militar no país, repressão vem aumentando nas ruas; papa Francisco pede fim da violência e início do diálogo

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2021 | 16h36
Atualizado 03 de março de 2021 | 18h59

YANGUN - Pelo menos 38 manifestantes pró-democracia foram mortos nesta quarta-feira, 3, segundo a ONU, na repressão cada vez mais violenta das forças de segurança birmanesas, que utilizam munição letal para conter os protestos contra o golpe de Estado militar lançado há um mês em Mianmar. O aumento da repressão ilustra o fracasso da comunidade internacional em sua tentativa de conter a espiral de violência provocada pelo golpe.

Segundo a agência de notícias Associated Press, que utiliza levantamentos feitos por um analista em Yangun, 18 pessoas morreram apenas nessa cidade, a maior do país, durante uma manifestação para exigir a saída dos generais golpistas e a libertação de centenas de pessoas detidas nas últimas semanas. Na cidade central de Monywa foram reportados oito mortos. 

A 130 quilômetros de distância, em Mandalay, dois manifestantes morreram depois que foram atingidos por tiros na cabeça e no peito, segundo um médico, que pediu anonimato por temer represálias.

Na cidade de Myingyan (centro) um homem de 20 anos morreu e outras 17 pessoas ficaram feridas, segundo os socorristas. As imagens divulgadas nas redes sociais mostram o jovem coberto de sangue, enquanto os amigos o carregam para longe das barricadas.

Em outras imagens, enquanto são ouvidas explosões, os manifestantes gritam: "Nossa revolta deve vencer". "As forças de segurança usaram gás lacrimogêneo, balas de borracha e munição letal", disse um integrante das equipes de emergência.

Os Estados Unidos reagiram dizendo-se "horrorizados" com a "violência atroz" dos militares birmaneses e advertiu que estuda "novas medidas" para que os militares "prestem contas", de acordo com o porta-voz da diplomacia americana, Ned Price.

Com os cortes de internet, a intensificação do arsenal repressivo e ondas de detenções, a junta militar não para de aumentar a repressão desde o golpe de Estado que derrubou o governo civil de Aung San Suu Kyi, em 1º de fevereiro.

Os birmaneses continuam, apesar da pressão, saindo às ruas para exigir a saída dos generais golpistas e a libertação de centenas de pessoas detidas nas últimas semanas.

A situação é muito tensa em Yangun, capital econômica, especialmente em alguns bairros do norte, onde uma clínica recebeu 20 feridos.

No centro da cidade, os manifestantes organizaram um protesto e jogaram no chão as tampas das latas de lixo que usam como escudos improvisados.

"Não façam nada contra a polícia e o Exército. Se vierem nos expulsar com violência continuem protestando pacificamente", gritou um jovem em um megafone. "Permanecemos unidos", responderam os manifestantes.

O domingo passado foi particularmente violento, com pelo menos 18 manifestantes mortos, de acordo com a ONU. Uma das vítimas foi enterrada nesta quarta-feira. Centenas de pessoas gritaram "a democracia é nossa causa" durante a cerimônia.

Apelo

O papa Francisco pediu nesta quarta-feira o fim da repressão em Mianmar e o início do diálogo. "Recebo notícias tristes de Mianmar sobre os confrontos violentos, com perdas de vidas humanas. Desejo chamar a atenção das autoridades envolvidas para que o diálogo prevaleça sobre a repressão e a harmonia sobre a discórdia", disse Francisco, no Vaticano.

"A comunidade internacional deve trabalhar para que as aspirações do povo de Mianmar não sejam sufocadas pela violência", completou.

A repressão também continua no âmbito judicial. O ex-presidente da República Win Myint, que já havia sido acusado de não respeitar as restrições vinculadas à pandemia, foi acusado agora de violar a Constituição, informou seu advogado Khin Maung Zaw.

A ex-chefe de fato do governo, Aung San Suu Kyi, que continua detida em um local secreto, enfrenta quatro acusações, incluindo "incitação a desordens públicas".

Imprensa

Seis jornalistas birmaneses, entre eles o fotógrafo da agência americana Associated Press  Thein Zaw, foram acusados de violar uma lei de ordem pública recentemente modificada pela junta, segundo o seu advogado.

O texto engloba agora qualquer pessoa que "cause medo na população, divulgue informação falsa (...) ou incite a desobediência e a deslealdade dos funcionários", explicou.

Os seis homens, que podem ser condenados a 3 anos de prisão, estão na penitenciária de Insein, em Yangon, onde muitos presos políticos cumpriram longas sentenças durante as ditaduras anteriores.

"Os jornalistas independentes devem ser autorizados a informar livremente e com segurança, sem medo de represálias", afirmou Ian Philips, vice-presidente de informações internacionais da AP.

Enquanto isso, o Exército continua ignorando as críticas internacionais. O embaixador de Mianmar na ONU, Kyaw Moe Tun, rompeu com os generais na semana passada e pediu o "fim do golpe de Estado".

Desde então, a junta militar designou um substituto, mas Kyaw Moe Tun afirma que continua representando o país, uma disputa jurídica que deve ser solucionada pelas Nações Unidas. O Conselho de Segurança abordará novamente a situação de Mianmar nesta sexta-feira a pedido do Reino Unido.

No início de fevereiro, os 15 países membros do Conselho expressaram inquietação com a situação de Mianmar em uma declaração, mas sem condenar o golpe de Estado, pois China e Rússia são apoios tradicionais do Exército birmanês e não aceitaram a menção no texto.

O Exército, que contesta o resultado das eleições em novembro, vencidas pelo partido de Suu Kyi, prometeu organizar uma votação no próximo ano. / AFP e AP

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