Miguel Gutiérrez/EFE
Miguel Gutiérrez/EFE

Novo estágio de depressão

Na Venezuela, faltam água e produtos básicos, a saúde vem declinando e a criminalidade, aumentando

Noris Soto e Fabiola Serpa, BLOOMBERG, O Estado de S. Paulo

19 Abril 2016 | 05h00

Nas torneiras do apartamento de Yajaira Espinosa tem água somente a cada duas semanas. E água amarela. Sua neta de 8 meses está doente. E quando a cabeleireira de 55 anos chegou ao hospital universitário de Caracas, na sexta-feira, onde estão evidentes os casos de Zika, do lado fora uma densa névoa tóxica envolve a cidade.

“Lamento pela minha filha, pois sei que ela sofre em silêncio. É uma situação dura.”

Foi um ano excepcionalmente doloroso para os venezuelanos que sofrem com os crimes violentos, a escassez crônica de produtos, uma queda brusca dos preços do petróleo do qual dependem, a saúde declinando e um governo fraturado. Mas na semana passada a depressão atingiu novo estágio. Um sofrimento resignado tomou conta de uma cidade que outrora era invejada na América Latina.

Uma combinação repentina de desastres naturais veio se acrescentar às falhas produzidas pelo homem. A névoa tóxica que cobre a cidade, chamada “calima”, é um fenômeno meteorológico com nuvens acumuladas de poeira e cinza, muito comuns nesta época do ano. Por outro lado, há uma seca prolongada em razão do El Niño e os decorrentes incêndios florestais.

Os níveis de água na barragem de Guri, no sul da Venezuela, que produz 40% da energia elétrica do país, estão registrando baixas recorde.

Diante da ausência de uma política efetiva, as tentativas para aliviar os problemas têm pouca eficácia. Os caminhões de água enviados para aliviar o sofrimento causado pela seca, rotineiramente são roubados.

“Duas ou três vezes por semana um caminhão que enviamos é roubado”, disse Tatiana Noguera, encarregada das remessas. “Os caminhões são parados por gangues que obrigam o motorista a mudar de rota e descarregar a água em área controlada por eles.”

Mais de 3.700 casos de doenças respiratórias foram reportados nos centros de saúde do Estado em torno de Caracas desde março, disse o dr. Miguel Viscuna, epidemiologista. Medicamentos, papel higiênico, frango e outros produtos de primeira necessidade, são cada vez mais difíceis de encontrar.

“A água que sai da torneira é muito amarela, de péssima qualidade”, disse Ana Carvajal, especialista em doenças infecciosas no Hospital Universitário de Caracas.

“Observamos um aumento de doenças diferentes, especialmente diarreia. A falta de água limpa vem provocando doenças como sarna e foliculite. Não existe nenhum remédio. Tudo o que podemos fazer é prescrever sabão de enxofre.”

Kiomara Scovino, presidente de um conselho comunitário a leste de Caracas, tem problemas de estômago causados pela água e respiratórios devido ao “calima”.

Luis Felipe Pedroso, motorista de táxi de 59 anos, disse que tem dificuldade para dormir em razão de uma inflamação na garganta, irritação nos olhos e congestão nasal devido à poluição do ar. Seu vizinho recebe água três vezes por semana.

“Quando chega é apenas por algumas horas e a água é muito suja”, disse. “É inacreditável. O governo não adotou nenhuma medida para resolver esses problemas.”

Feriado. No início deste mês o presidente Nicolás Maduro anunciou um plano de 60 dias para economizar energia elétrica, declarando todas as sextas-feiras dos meses de abril e maio feriado para o funcionalismo. 

Na quinta-feira, afirmou que este fim de semana duraria cinco dias para os funcionários públicos. Ele também mudou o fuso horário do país e vai reduzir o uso de energia elétrica pelos shopping centers.

A questão do fuso horário é uma peculiaridade da Venezuela desde 2007, quando o então presidente Hugo Chávez, morto em 2013, adiantou os relógios em meia hora de modo a permitir que as crianças fossem para a escola à luz do dia. Mas o resultado é que, quando as pessoas deixam o trabalho, já está noite, o que aumenta o uso de energia elétrica e a criminalidade.

“Este plano de 60 dias permitirá ao país atravessar o período mais difícil e com maior risco”, disse Maduro.

Em 2015, a economia venezuelana, extremamente dependente da venda de petróleo, sofreu uma contração de 5,7% e deve encolher mais 8% este ano, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

A moeda perdeu 98% do seu valor no mercado negro desde que Maduro assumiu o governo, em 2013. A inflação na Venezuela deve chegar a 500%.

Tudo isso tornou Maduro um líder não muito popular. Seus opositores obtiveram uma maioria esmagadora nas eleições legislativas de dezembro. Mas qualquer tentativa do novo Legislativo de dar uma nova direção ao país é bloqueada por Maduro e uma Suprema Corte que ele nomeou logo após as eleições.

“Votamos e vencemos”, disse Yajaira Espinoza, a cabeleireira, contendo as lágrimas. “Mas vimos que nada adiantou”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* SOTO É ANALISTA POLÍTICA E SERPA É JORNALISTA

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