Novo gabinete mantém ex-aliados de Mubarak

Presidente nomeia tecnocratas do antigo regime e deixa líder de junta militar no comando da Defesa, enquanto protestos e choque sectários se multiplicam

CAIRO, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2012 | 03h02

O marechal de campo Hussein Tantawi manteve seu posto de ministro da Defesa no novo governo do Egito, empossado ontem pelo presidente Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana. A presença de Tantawi reafirma o papel dos militares como figuras centrais do poder no país, em meio a protestos e confrontos sectários que têm reavivado os choques com a polícia, comuns durante a derrubada do regime.

A lista dos 35 nomes do novo gabinete não chega a cumprir a promessa de Morsi de formar um governo que refletisse a unidade do país, com representantes de todas as facções políticas. De acordo com analistas, os ministros são, na maioria, tecnocratas com ligações com a velha guarda de Mubarak.

A inclusão de Tantawi no governo do primeiro-ministro Hisham Kandil, apesar de já esperada, pôs em evidência a disputa entre o presidente civil e os generais que tiraram o ditador Hosni Mubarak do poder. Alguns nomes permaneceram no cargo, como foi o caso do ministro das Finanças, Mumtaz al-Saeed, e do chanceler Mohamed Amr Kamel.

O premiê Kandil afirmou que a formação do novo gabinete não levou em consideração a filiação partidária, mas a capacidade técnica de cada um. "Tudo o que vejo são egípcios", disse. "Começamos do zero? Com certeza, não. Houve um trabalho sério e dedicado no último período do governo anterior, o qual devemos seguir."

No entanto, a inclusão de pelo menos quatro membros da Irmandade Muçulmana no governo, segundo analistas, representa uma tentativa importante de romper com o passado. Um deles será ministro da Informação, o que deixará o grupo de Morsi no comando de uma poderosa instituição que supervisiona a TV estatal egípcia.

Outra novidade anunciada ontem foi a nomeação, como ministro da Justiça, de Ahmed Mekky, um conhecido ativista na luta pela independência do Judiciário, um dos poderes que bateram de frente com a Irmandade Muçulmana na transição. O gabinete terá ainda duas mulheres e apenas um cristão copta, grupo que forma 10% da população do Egito.

Confrontos. Em meio às negociações pós-eleitorais, o Egito tem vivido novos episódios de violência sectária. Na quarta-feira, no vilarejo de Dashour, ao sul do Cairo, uma multidão de muçulmanos queimou uma igreja e casas. Os cristãos fugiram temendo novos ataques.

A onda de violência começou depois da morte de um muçulmano, ferido em uma briga com cristãos. No total, 16 pessoas ficaram feridas. Ao menos dez eram policiais. "A multidão saqueou e depredou lojas, até mesmo uma joalheria", disse o arcebispado copta de Giza.

Cortes de luz e falta de água têm levado milhares de egípcios a protestar em todo o país. Ontem, um manifestante morreu quando policiais abriram fogo contra a multidão que tentava invadir um hotel de luxo no centro do Cairo. Cerca de dez carros e dezenas de motos foram queimados. / REUTERS e AFP

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