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Tasnim News Agency/Handout via REUTERS
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Novo general está saindo das sombras para assumir o lugar de Qassim Suleimani

Esmail Ghaani, de 62 anos, tem longa trajetória de trabalho - e amizade -, com o líder morto; ele será o encarregado de guiar o plano de vingança do Irã

Redação, O Estado de S. Paulo

05 de janeiro de 2020 | 04h26

TEERÃ - Um novo general iraniano está saindo das sombras para liderar a Força Quds, grupo da Guarda Revolucionária do Irã, após a morte do general Qassim Suleimani. Ele será o responsável por levar adiante o plano de vingança contra os Estados Unidos.

Esmail Ghaani, de 62 anos, cuja história ainda permanece nas sombras, vai ser o próximo a assumir o controle da força, que conta com um efetivo de mais de 125 mil homens. Eles respondem diretamente ao Líder Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei. A sua nomeação foi feita na sexta-feira, 3, pelo próprio Khamenei.

Tudo o que se sabe é que na Força Quds, ele era o vice-comandante, uma posição abaixo da de Suleimani, do qual era amigo de longa data. "Somos filhos da guerra", descreveu Ghaani uma vez sobre seu relacionamento com o general. "Somos camaradas no campo de batalha e nos tornamos amigos de combate".

"O comandante está olhando para seus soldados como olha para seus filhos e, do ponto de vista dos combatentes, parece que ele recebeu uma ordem de Deus para fazê-lo", comentou recentemente Ghaani sobre a morte de Suleimani.

A Guarda viu sua influência crescer cada vez mais forte militar e politicamente nas últimas décadas. Um dos principais fatores dessa influência vem diretamente da Força, que trabalha em toda a região do Oriente Médio com parceiros para combater o armamento avançado dos Estados Unidos e de seus aliados regionais.

Esses parceiros incluem milicianos iraquianos, além do Hezbollah, do Líbano e dos rebeldes xiitas Houthi, do Iêmen.

Ao anunciar Ghaani como substituto de Suleimani, Khamenei chamou o novo líder de "um dos comandantes mais importantes" a serviço do Irã. A Força Quds "permanecerá inalterada em relação ao tempo de seu antecessor", disse.

Suleimani se tornou o rosto do grupo de elite. Sua fama aumentou depois que as autoridades americanas começaram a culpá-lo por bombas mortais na estrada, que atacavam as tropas americanas no Iraque. Sua imagem, antes uma manifestação de orgulho altamente compartilhada pelos iranianos, agora estampa cartazes pedindo por vingança.

No entanto, enquanto as façanhas de Suleimani no Iraque e na Síria chegaram ao alcance do grande público, Ghaani sempre permaneceu nas sombras, com aparições ocasionais nas mídias ocidentais ou mesmo iraniana. Mas sua história pessoal em muito se assemelha a de Suleimani.

Nascido em 8 de agosto de 1957 na cidade de Mashhad, no nordeste do Irã, Ghaani cresceu durante a última década da monarquia. Ele se juntou à Guarda Revolucionária do Irã um ano após a Revolução de 1979. Como Suleimani, ele primeiro se mobilizou para conter a revolta curda no Irã.

No ano seguinte, em 1980, quando se deu início a Guerra Irã-Iraque, Ghaani estava entre os combatentes que viram de perto, a morte de mais de 1 milhão de pessoas, dentre as quais estavam soldados voluntários da Guarda.

Anos após, quando questionado sobre a guerra. O atual comandante da força Quds disse que os voluntários "estavam vendo que todos estavam sendo mortos, mas quando ordenamos para que fossem, eles não hesitaram". 

Ele sobreviveu ileso da guerra para prontamente se juntar à Força Quds. Ao lado de Suleimani, ele liderou grupos de inteligência. Analistas ocidentais acreditam que enquanto o comandante se concentrava nas relações exteriores a oeste do Irã, seu vice estava mais focado em manter o diálogo com as nações do leste, como Afeganistão e Paquistão

Em 2012, o Tesouro dos Estados Unidos sancionou Ghaani, descrevendo-o como sendo o responsável por "fornecer provisões" aos soldados aliados à Força Quds. As sanções diziam que ele estava ligado a um carregamento de armas apreendido em 2010, em um porto de Lagos, na Nigéria.

Ao todo, foram revistados 13 contêineres, que tinham chegado até lá sob o rótulo de "pacotes de lã, vidro e paletes de pedra". No entanto, o que eles encontraram foram foguetes Katyusha de 107 mm, balas de fuzil e outras armas. Dois homens, um iraniano e outro nigeriano, foram sentenciados a cinco anos de prisão.

O destino da carga nunca foi definido com certeza. Na época, o governo da Nigéria disse que as armas seriam utilizadas pelos líderes do país, para ajudar na eleição. Já Israel disse que o conteúdo dos contêineres seriam encaminhados aos palestinos da Faixa de Gaza, para combater os israelenses.

Também em 2012, Ghaani recebeu críticas do Departamento de Estado dos EUA, depois de dizer que "se a República Islâmica não estivesse presente na Síria, o massacre de pessoas teria acontecido em uma escala muito maior". Eles treinaram homens para ajudar Bashar al-Assad na guerra civil síria, que já matou mais de 300 mil pessoas.

"No fim de semana, tivemos o vice-chefe da Força Quds dizendo publicamente que estavam orgulhosos do papel que desempenharam no treinamento e assistência às forças sírias - e veja o que isso causou", disse o Departamento de Estado dos EUA.

Já em 2015, Ghaani disse indiretamente que o Irã usualmente envia mísseis e armas aos palestinos, para que estes possam combater Israel. "Os EUA e Israel são pequenos demais, para se considerarem alinhados ao poder militar do Irã", comentou na época. "Esse poder agora apareceu ao lado do povo oprimido da Palestina e da Faixa de Gaza, na forma de mísseis e armas". A fala, vai de encontro a carga apreendida na Nigéria.

Agora, Ghaani está oficialmente no controle da Força Quds. Enquanto os líderes do Irã dizem ter um plano para vingar a morte de Suleimani, nada ainda foi oficialmente anunciado, em respeito aos três dias de luto oficial.

No entanto, qualquer que seja o plano de vingança, ele certamente estará envolvido. "Em todos esses anos, Ghaani sobreviveu em posições de alto escalão da Guarda, onde foi por um longo período o vice de Suleimani. Isso diz muito sobre a confiança que Khamenei e Suleimani tinham nele", disse Afshon Ostovar, autor de um livro sobre a história da Guarda Revolucionária do Irã.

"Suspeito que ele tenha pouca dificuldade em ser o estepe de Suleimani, quando se trata de operações e estratégias", escreveu. Enquanto isso, os Estados Unidos parecem já estar se precavendo contra o novo líder. Na última sexta-feira, 3, o país já proibiu que qualquer empresa americana, faça negócios com Ghaani, sua mais nova ameaça./ AP e REUTERS

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