Novo grupo islâmico atua em conflito e preocupa ONU

'Estado' tem acesso a relatório sobre o treinamento militar de extremistas em ilha do Lago Vitória

Adriana Carranca, enviada especial

20 de outubro de 2013 | 03h14

GOMA - Um grupo extremista islâmico passou a ser uma das maiores preocupações da comunidade internacional na República Democrática do Congo. Vídeos que integram um relatório interno da ONU, ao qual o Estado teve acesso, mostram imagens gravadas de um campo de doutrina religiosa e treinamento militar, supostamente mantido pelo grupo, em uma ilha do Lago Vitória, entre Tanzânia, Uganda e Quênia, que antes se acreditava deserta. Os recrutas são, em sua maioria, mulheres e crianças.

"Os vídeos são assustadores porque você vê muitas crianças", disse ao Estado um funcionário da ONU que teve acesso às imagens. "Quando se fala em crianças soldados, normalmente são meninos de 15, 16, 17 anos. Mas, neste caso, são realmente pequenos e já aprendem o Alcorão. E outros, de uns 8 anos, armam e desarmam Kalashnikovs em tempo recorde diante de treinadores com um cronômetro."

Os homens têm a barba longa e alguns deles usam turbante; as mulheres sequestradas são obrigadas a usar burca. "Quando iniciam a saudação militar, de dentro das vestes, surgem as Kalashnikovs. Foi uma surpresa."

Segundo o diagnóstico entregue à ONU, o grupo sequestrou pelo menos 170 pessoas desde novembro. "Não temos notícias de nenhuma dessas pessoas desde então. Não foi pedido resgate e não encontramos corpos. Entre eles, há três padres."

O ADF foi formado por seguidores do ex-ditador da Uganda, Idi Amin Dada, de uma família de convertidos ao Islã. Há um mês, a ONU criou uma força-tarefa para acompanhar os movimentos do grupo. Segundo o relatório, há quenianos, ugandenses e outros de origem incerta que falam árabe.

"Sabemos que recebem dinheiro do Oriente Médio. E, ao contrário de outros grupos que cobram impostos de moradores, o ADF investe em pequenos negócios, como mototáxis e padarias, e fica com parte dos lucros", diz o funcionário da ONU.

O grupo tem entre 1,5 mil e 3 mil combatentes e controla partes da Província Oriental, na fronteira com Uganda, além das estradas entre Beni e Kamango e entre Beni e Kasindi.

"O ADF é uma preocupação porque está aumentando e reforçando sua presença no norte, tem forte ideologia e está desenvolvendo uma rede de negócios", admitiu o chefe do escritório da ONU em Goma, no leste do Congo, Ray Torres. "Temos informações de que planejam uma operação contra as forças do Congo. Por isso, é preciso monitorá-los."

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