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Novo líder dos EUA inquieta a Europa

Trump parece anunciar que a ordem mundial que nasceu após 1945 poderá sucumbir a repetidos ataques

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

21 Janeiro 2017 | 05h00

Parece que os americanos, mesmo aqueles que votaram em Trump, já começam a se desencantar com o novo presidente. O que dizer então da Europa? Trump inquieta o Velho Continente, o assusta, desperta asco, o enlouquece. Trata-se, para começar, de uma rejeição instintiva, quase visceral. O sujeito não agrada. Os europeus o consideram grosseiro, vulgar, descarado.

Ele é só ostentação: a coleção de mulheres que arrasta consigo, seu desprezo pelas mulheres, seu ódio a todos aqueles que não são brancos, sua indulgência com relação à tortura, o que observamos na Europa é uma rejeição desse grande “falastrão”, desse americano hiperbólico.

Além disso, o que revolta o Velho Continente é que Trump parece anunciar que a ordem mundial que nasceu após 1945 e criou uma harmonia estreita entre as duas margens do Atlântico poderá sucumbir a seus repetidos ataques.

O isolacionismo para começar. Desde 1945, republicanos e democratas seguem a mesma linha: Europa e EUA estão engajados num único caminho e edificando uma “ordem liberal”. Mas eis que Trump se envolve e parece decidido a reformular o mapa geopolítico mundial. Ele acredita que a Rússia tem o “direito de controle”, quase de “proteção” sobre a antiga Europa soviética (Ucrânia e países bálticos). Acha que a Otan está obsoleta e ameaça se desligar dela.

“América em primeiro lugar” é o slogan de Trump que, para os europeus, significa que a Europa ficará entregue a si mesma, abandonada. Devolver à América sua grandeza exigirá poupar a nação dos exaustivos encargos que ela assumiu após 1945. E esse é o temor da Europa: que os EUA a deixem sozinha.

Uma segunda brecha no edifício construído após 1945: o protecionismo. Após a guerra, todos os presidentes defenderam o dogma, quase sagrado, do livre-comércio. Trump poderá se desligar dessa estrutura que atualmente é a OMC.

Outro instrumento da longa cumplicidade entre americanos e europeus desde 1945: a União Europeia. Trump não aprecia essa UE “que está a serviço da Alemanha”. Além disso, não está preocupado se a Europa está unida ou não. E ele gosta dos que não gostam da Europa.

O divórcio do sistema mundial que nasceu após 1945, a indiferença em relação à Europa, a rejeição do livre-comércio, sua cortesia com relação à Rússia, tudo isso é tão radical que as pessoas se perguntam se são apenas provocações que se corrigirão quando Trump cair na realidade.

Mas então examinamos os colaboradores escolhidos por Trump, um bando de bilionários, reacionários e exaltados. Tudo indica que a ordem mundial que reina desde 1945 corre até o risco de ser desfeita nos próximos meses. Surge, então, uma outra questão: é verdade que essa ordem parece hoje ineficiente. Mas a nova ordem em gestação será mais justa, mais harmoniosa, mais generosa que a antiga? Teremos a resposta dentro de alguns anos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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