Damon Winter/The New York Times
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Novo líder dos EUA parece querer remodelar a UE

Ele ameaça uns, felicita outros, distribui “pontos positivos”. Agora foi a vez da chanceler alemã, Angela Merkel

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

17 Janeiro 2017 | 05h00

Vivemos uma fase estranha. O tempo hesita, Está em suspenso. Entretanto, todas as engrenagens da máquina rodam normalmente: os diplomatas falam, os chefes de Estado se reúnem, os consultores consultam, mas toda essa atividade não produz nenhum resultado.

A explicação é simples. Há um personagem, nos corredores, que se aproxima com uma pisada forte da mesa de negociação. Esse personagem, que se chama Donald Trump, é poderoso. E daqui a três dias estará no comando. Basta ele dizer “não” e todas as decisões adotadas em sua ausência serão prescritas e anuladas.

Foi assim que a conferência em Paris sobre Israel fracassou. Por quê? Porque se for dito a Trump que é preciso criar dois Estados (Israel e a Palestina) com certeza ele vai expressar seu descontentamento.

Além disto o novo presidente americano adora interferir nos assuntos dos outros e poderíamos dizer que tem intenção de reconfigurar a Europa. Ele ameaça uns, felicita outros, distribui “pontos positivos”. Agora foi a vez da chanceler alemã, Angela Merkel receber uma chamada.

Trump começou afirmando que a aprecia muito. Além do que ela é alemã, o que é um ponto positivo pois o avô do presidente eleito era originário de Kallstadt. A Alemanha, portanto, é um país genial. Mas Trump não esconde que Merkel fez uma grande besteira, ao acolher um milhão de refugiados da Ásia e da África.

E como ele pensa nos outros, explica o que devia ter sido feito com todos esses imigrantes: “criar zonas de segurança na Síria”. E quem pagaria por isto? “Bom, os Estados do Golfo porque, afinal, eles têm mais dinheiro do que qualquer outro país”.

A lição de Trump para os alemães vai mais além: Angela Merkel fez outra bobagem: defendeu o tratado de livre-comércio entre União Europeia e Estados Unidos. E Trump é um protecionista inveterado.

Segundo ele, na 5ª Avenida, em Nova York, rodam automóveis Mercedes demais. E há carros americanos em Berlim? Modelos Chevrolet por exemplo? Não, talvez um. Em todo caso nem mesmo este é visto”.

Então, o que fazer? O mestre assume um tom grave: “Vocês podem fabricar carros alemães para os Estados Unidos, mas terão de pagar 35% de tarifas para cada carro que entrar em solo americano”.

A suspeita é de que, por trás de Angela Merkel, Trump tem por objetivo a União Europeia. Fato que jamais ocultou. Ele não gosta da UE. Aliás é por isso que aplaude Theresa May, porque a Grã-Bretanha se separou, deixou a União Europeia. Trump tem pressa de encontrar a primeira ministra britânica pois assinará com ela um acordo comercial “segundo as regras”. E por que o Brexit é tão bom? “As pessoas não querem que outros cheguem a seu país e as importunem”.

Donald Trump é um indivíduo curioso, bizarro, desconcertante, às vezes exasperante, infantil, caprichoso, mas tem uma vantagem. Suas ideias não são convencionais. E são os tabus e as vacas sagradas que o conjunto das nações respeita, às vezes com razão, outras vezes erroneamente, mas sempre sem saber porque.

O caso da União Europeia é eloquente. Em quase toda a classe política francesa ou alemã, a União Europeia é “sagrada”. Não temos nem direito, nem coragem, de criticá-la (exceto o general de Gaulle e hoje os britânicos e os populistas de direita e esquerda). Donald Trump chega, observa e vê que não funciona. E diz que “não funciona”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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