Novo líder paraguaio quer normalizar laço com Brasil e romper isolamento

Eleito presidente do Paraguai no domingo, Horacio Cartes adotou ontem um tom evidentemente conciliatório diante dos países sul-americanos, sobretudo o Brasil, abrindo ainda mais o caminho para que sejam levantadas as sanções que Mercosul e Unasul impuseram ao Paraguai em junho, após a queda de Fernando Lugo. Cartes disse que fará "todo o esforço possível" para reverter o isolamento do país.

ROBERTO SIMON , ENVIADO ESPECIAL / ASSUNÇÃO, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2013 | 02h09

Em entrevista a jornalistas estrangeiros, Cartes indicou que buscará apoio no Congresso para, nos próximos meses, aprovar formalmente a incorporação da Venezuela ao Mercosul. O Paraguai era o único país do bloco cujo Legislativo não havia aprovado a adesão e, após a suspensão de junho, congressistas paraguaios votaram e rejeitaram o texto. A eleição do domingo dá uma margem de manobra mais confortável ao governo no Congresso (mais informações nesta página) e o veto a Caracas deve ser revertido.

O político colorado foi convidado horas depois de seu triunfo nas urnas para participar da próxima cúpula do Mercosul, em junho, no Uruguai, mas adiantou ontem que não comparecerá em respeito ao presidente em exercício do Paraguai, Federico Franco. Entre a noite do domingo e o dia de ontem, vários chefes de Estado da região telefonaram para Cartes: a argentina Cristina Kirchner, o uruguaio José "Pepe" Mujica", o chileno Sebastián Piñera e o peruano Ollanta Humala.

Cartes disse ter conversado também com a presidente Dilma Rousseff no início da tarde, completando que sentiu "muita predisposição" da parte de Brasília de normalizar a situação com o Paraguai.

Até ontem à noite, o novo presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, não havia telefonado, embora a chancelaria de Caracas tenha emitido uma nota saudando as eleições paraguaias de domingo.

O Paraguai e o Brasil devem dialogar "como irmãos", disse, em português espanholado, o novo presidente. "Vamos sentar e trabalhar com o Brasil, e não contra o Brasil. E isso vai terminar com um sorriso", garantiu.

O presidente eleito afirmou que buscará reproduzir no Paraguai políticas de inclusão social implementadas nos últimos anos pelo Brasil. "Queremos infraestrutura, estradas, portos, mas nosso principal compromisso é a luta contra a pobreza", completou.

Cartes também fez um aceno aos empresários brasileiros que estão vindo ao Paraguai para fugir dos altos custos de produção. Segundo o colorado, a energia em seu país custa 11 vezes menos do que no Brasil e as indústrias brasileiras "são o remédio" que a economia paraguaia precisa.

'Tríplice Aliança'. O líder paraguaio eleito afirmou que os países sul-americanos "estão com muito boa predisposição" para aceitar a plena reincorporação do Paraguai ao Mercosul e à Unasul nos próximos meses. Cartes defendeu a legitimidade do julgamento político que sacou Lugo do poder em 24 horas, mas disse que os países devem olhar para frente - e não para trás, "onde verão a Tríplice Aliança".

Entre as graves acusações que pesam contra Cartes, está a de ser o maior contrabandistas de cigarros para o território brasileiro - o político colorado é o maior produtor de tabaco do Paraguai. Questionado sobre possíveis conflitos de interesse entre o exercício da presidência e a administração de seu império multimilionário, ele prometeu: "Jamais colocarei questões pessoais sobre os interesses nacionais".

Cartes também rebateu as acusações de operar um amplo esquema de lavagem de dinheiro e de envolvimento com o narcotráfico.

Ele culpou o candidato a vice-presidente na chapa derrotada dos liberais, Rafael Filizola, pelas acusações. "Se 1% disso fosse verdade, seria condenado."

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