'Novo mandato de Netanyahu isolará Israel ainda mais'

Políticas adotadas pelo premiê podem afastar até mesmo os EUA, principal aliado de Israel, diz especialista americano

Entrevista com

Zachary Lockman, professor de história moderna do Oriente Médio da Universidade de Nova York

MURILLO FERRARI, O Estado de S.Paulo

19 Março 2015 | 02h00

Ao mesmo tempo em que a vitória nas eleições parlamentares do premiê de Israel, Binyamin "Bibi" Netanyahu, reflete a consolidação no poder da direita israelense, as políticas adotadas por ele podem afastar o principal aliado do país: os EUA. "O desconforto entre os dois governos abre novas possibilidades", diz o professor de história moderna do Oriente Médio da Universidade de Nova York Zachary Lockman. A seguir, trechos da entrevista:

Um novo mandato de Netanyahu pode isolar mais Israel?

Acredito que sim. Tem crescido a insatisfação ao redor do mundo com as políticas que ele tem adotado em várias áreas e isso pode ter consequências econômicas, provocar boicotes e campanhas contra Israel.

E a relação com Barack Obama e os EUA?

É difícil de imaginar que possa piorar, mas isso pode acontecer. Quando Obama patrocinou o diálogo entre palestinos e israelenses, a todo momento Bibi tentou sabotar o processo. Mesmo com os EUA sendo o principal parceiro e financiador de Israel, Netanyahu desafia os americanos. A questão mais importante é se os EUA continuarão a defender Israel a todo custo - como tem acontecido no Conselho de Segurança e em outros fóruns internacionais. Se os EUA se mantiverem neutros ou em silêncio sobre questões envolvendo os israelenses, isso seria uma enorme mudança de posição na política americana, algo inesperado, mas dado o desconforto entre os dois governos, novas possibilidades podem se abrir.

A vitória do Likud reforça a expansão da direita em Israel?

Especialmente nos últimos 20 anos, governos ultranacionalistas de direita - algumas vezes religiosos, outras, seculares - têm aumentando seu poder e isso é um efeito produzido pela ocupação territorial. Se você controla outras pessoas, ocorrerão movimentos dentro da sociedade para justificar esse fenômeno e Israel não é diferente. Nesse período, até os grupos israelenses de centro guinaram para a direita.

E como isso afeta as negociações de paz na região?

Em sua campanha, Netanyahu foi muito claro ao dizer que não aceitaria um Estado palestino e se recusaria a negociar com a liderança palestina. Então, infelizmente, a vitória do Likud indica que não devemos ver progressos nas negociações nos próximos quatro anos.

O que podemos esperar de Mahmoud Abbas?

A liderança palestina ficará em uma posição complicada. Ao mesmo tempo em que os principais líderes estão tentando usar suas conexões para forçar a comunidade internacional a pressionar Israel, a divisão que ainda existe entre a Autoridade Palestina (AP) e o Hamas impede que uma estratégia efetiva - que possa mudar a correlação de forças - seja adotada. Tanto o governo atual de Israel quanto a próxima administração estão em posição de ignorar a maior parte dos apelos palestinos.

Poderia haver uma cisão da AP?

Não acredito que a atual liderança vá seguir esse caminho. Na base social, as pessoas acabam se beneficiando do atual modelo, com os milhões de dólares que são recebidos da Europa, dos EUA e de outros países ajudando no pagamento de salários e mantendo a economia funcional. Não é uma a situação ideal, mas é tolerável. Então, é difícil imaginar que Abbas ou outro líder decida dissolver a AP.

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