Novo navio de guerra da França atrai cobiça russa

Capaz de projetar poder a até 5 mil quilômetros, Mistral está no centro de um controvertido acordo militar entre Paris e Moscou

Roberto Godoy, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2010 | 00h00

A Rússia está negociando a compra, na França, de quatro modernos navios militares do tipo Mistral. Trata-se de uma máquina de guerra de 32 mil toneladas feita para projetar poder ou, mais que isso, levar uma força completa de intervenção - soldados, tanques, helicópteros, lanchas e mísseis - até qualquer ponto do planeta. Cada unidade, de alta tecnologia, custa cerca de US$ 750 milhões. O negócio chega a US$ 3 bilhões.

A Marinha francesa opera duas dessas embarcações. Acaba de contratar a terceira nos estaleiros Brest-Saint Nazaire e vai encomendar outra em 2011.

Embora apresentado como um modelo de ataque anfíbio, o Mistral (veja quadro acima) é o resultado de um programa iniciado em 1997 para aumentar a eficiência das operações de mobilização e deslocamento rápidos. Os meios devem permitir o lançamento acelerado de 1.400 combatentes, 280 veículos e 30 helicópteros, em cenários até 5 mil quilômetros da França. O contingente e seus recursos precisam ter capacidade de atuar sem novo apoio por dez dias, em posições avançadas, a 100 quilômetros do local de desembarque.

"Naturalmente, foi preciso alterar protocolos e doutrinas", explicou o ministro da Defesa francês, Hervé Morin. A principal alteração em relação ao esquema tradicional das ações anfíbias é a integração em um único centro embarcado.

"Tradicionalmente, uma ofensiva desse gênero implicaria o emprego de quatro a seis navios - com o advento do conceito da classe Mistral, o número cai para dois ou três além dele próprio", analisa um almirante da Marinha brasileira. Em missão, o super navio exige cobertura aérea permanente por meio de aviões de caça, sob coordenação de uma aeronave de vigilância e alerta antecipado. No mar, uma flotilha de escolta cuida da proteção.

A capacidade de transportar fogo pesado atrai o Alto Comando Unificado, em Moscou, e irrita os EUA. O comandante da Armada russa, Vladimir Vysotski, não tem nenhum cuidado em admitir que, se a frota já contasse com um navio do tipo Mistral durante a guerra com a Geórgia, em 2008, "o assunto teria sido resolvido 40 minutos depois de nossa chegada".

Essa disposição levou a bancada republicana no Senado americano a enviar uma carta de alerta ao embaixador francês em Washington, Pierre Vimont, protestando contra a venda dos navios, "uma transação imprópria porque sugere aprovação do governo de Paris à conduta agressiva da Rússia". O documento destaca "a recusa em aceitar os termos do cessar-fogo negociado pelo presidente da França, Nicolas Sarkozy" com georgianos.

O primeiro-ministro e ex-presidente Vladimir Putin é o negociador do contrato. Há duas semanas disse que "se o equipamento for comprado, podem ter certeza de que nós o usaremos plenamente".

Em ação, o Mistral - em atividade desde 2006 - é virtualmente autossuficiente. Além dos helicópteros, de dúzias de tanques, blindados sobre rodas, lanchas de desembarque de tropas e centenas de soldados, abriga um hospital com capacidade para executar cirurgias de grande complexidade. Na ponte principal, alta como um prédio de 15 andares, funciona uma sofisticada sala de situação com enlace eletrônico por satélite, de onde são tomadas as decisões de comando e processadas as informações de inteligência.

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