Novo pacote paralisa a Argentina

"A gente estava bem quando a situação era ruim". Famoso pelo seu sarcasmo e jogos de palavras, o cartunista Nik, um dos principais do país, expressou assim a amarga sensação experimentada por milhares de argentinos, que nos últimos três anos viram suas situações econômicas piorarem aceleradamente, e que depois de uma série de pacotes econômicos que só agravaram a crise, neste fim de semana sofreram o golpe de misericórdia - o semi-congelamento de seus depósitos bancários. A irritação era visível entre milhares de argentinos que nesta segunda-feira - o primeiro dia útil depois do anúncio das medidas - correram aos bancos para retirar os US$ 250 semanais que ficaram a salvo da retenção imposta pelo governo do presidente Fernando de la Rúa.Enquanto os bancos fervilhavam de enraivecidos clientes, os comércios da capital do país estavam às moscas. Diante das incertezas do futuro de seus depósitos, pelos próximos 90 dias reféns do governo, os argentinos paralisaram seu consumo à espera de um panorama mais claro.No fim da noite anterior, quando a maioria dos 36 milhões de argentinos estava a ponto de deitar na cama, o presidente De la Rúa entrou em seus lares através da rede nacional de TV para anunciar em tom épico que o governo estava "ganhando a batalha". O inimigo, neste caso, eram os especuladores internacionais e nacionais, aos quais o presidente chamou de "abutres". Apelando para o patriotismo, De la Rúa sustentou que "a união nacional é mais necessária do que nunca". Nesta manhã, De la Rúa voltou a afirmar que estas medidas foram tomadas "para defender o patrimônio dos argentinos" e que a população precisava ter "boa-vontade" diante do confisco. Pouco depois, o ministro da Economia, Domingo Cavallo, complementou o apelo de seu chefe: "É preciso que o pânico não se espalhe". Apesar dos pedidos do ministro, as incertezas percorreram a cidade de Buenos Aires, principalmente depois que verificou-se que dezenas de caixas eletrônicos somente entregavam US$ 200, em vez dos US$ 250 prometidos por Cavallo. Cavallo também sustentou que, com as medidas, a desvalorização da moeda foi impedida. O temor do governo era de que a continua fuga de divisas, que em novembro causou a saída de US$ 3 bilhões do sistema financeiro (e quase US$ 1 bilhão só na sexta-feira passada) colocasse em xeque-mate a conversibilidade econômica, pilar do sistema monetário argentino. A fuga poderia deixar o país sem reservas em dólar para sustentá-la.Mas ter se salvado por um fio no fim de semana não impediu que a conversibilidade econômica ficasse hoje a ver navios, já que poucos bancos em Buenos Aires admitiam que tinham dólares para trocar. Na city financeira portenha, especulava-se que, nos próximos dias poderia ressurgir o mercado do dólar paralelo.O mercado negro reapareceria depois de uma década, para abastecer a necessidade dos argentinos que prefiram buscar a segurança dos dólares diante das incertezas sobre o futuro do peso. Outra possibilidade é o surgimento de um mercado negro de troca de cheques.Enquanto o país paralisa-se, a bateria de medidas de autoria de Cavallo é alvo de uma saraivada de críticas, e contava somente com escassas defesas. O ex-ministro da Economia, Roque Fernández, afirmou que a conversibilidade econômica tornou-se um "eufemismo" a partir de agora. "A conversibilidade passa a ser algo simbólico. A desvalorização já está em todas as partes com as outras moedas não-conversíveis que circulam na Argentina (como os bônus patacones e lecops, emitidos pelos governos provinciais e que servem como moedas paralelas)", disse o ex-ministro.Para o economista José Luis Espert, "o país perde a cada dia o pouco da reputação que lhe restava. Este é mais um antecedente lamentável para o país. Nos próximos cinco anos, a entrada de capital estrangeiro será igual a zero".No entanto, os bancos comemoraram as medidas. O diretor executivo da Associação de Bancos da Argentina, Norberto Peruzotti, afirmou que o país, antes das medidas de Cavallo, estava "em um limite perigoso, talvez sem opções?. Segundo Enrique Oliveira, presidente do Banco de la Nación, com estas medidas "evitou-se um prejuízo maior".Não por causa das medidas de semi-congelamento, mas por causa de declarações favoráveis sobre a operação de reestruturação da dívida pública com os credores internos, a Bolsa de Buenos Aires reagiu positivamente, e fechou em alta de 1,9%. As declarações foram emitidas pelo Subsecretário do Departamento do Tesouro dos EUA, John Taylor, que disse que a operação de reestruturação era "promissora", também causaram a redução da taxa de risco do país, que passou de 3.340 pontos para 3.153 pontos.ArrecadaçãoNo fim do dia, o governo preparava-se para anunciar mais uma queda na arrecadação tributária, que em novembro teria sido de 11,1% em relação ao mesmo mês do ano passado. Mais da metade da arrecadação constitui-se de tributos sobre o consumo, como o Imposto de Valor Agregado (IVA), receita bruta e impostos sobre combustíveis. Segundo a Fundação Mercado, somente 3,5% dos consumidores argentinos pretendem comprar bens duráveis em dezembro.

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