BEN STANSALL/AFP
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Novo populismo prega volta de identidade nacional na Europa

Tanto extrema direita quanto esquerda crescem em razão da eficiência do discurso anti-UE, dizem especialistas

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S. Paulo

03 Julho 2016 | 06h00

PARIS - O discurso neopopulista não é novidade na Europa, mas partidos de extrema direita e de extrema esquerda, que fazem oposição a Bruxelas, vêm obtendo a adesão de segmentos da opinião pública em países como França, Itália, Holanda e Áustria. Para muitos, a explicação está na eficiência do discurso que prega o retorno da identidade nacional e a luta antissistema.

Na França, o líder histórico da extrema direita, Jean-Marie Le Pen, fundador da Frente Nacional, hoje liderada por sua filha, fez carreira denunciando a integração europeia e a imigração, que abalariam a identidade cristã e branca do continente.

Nas últimas duas décadas, essa retórica ganhou espaço, mudou de patamar e se espalhou com as vitórias de líderes como Jörg Haider na Áustria, fundador do Partido pela Liberdade da Áustria (FPÖ), morto em 2008, e, recentemente, de Viktor Orban, na Hungria.

Por meio deles, teses xenofóbicas e a rejeição à UE proliferaram, se consolidando até em países antes marcados pela rejeição ao extremismo, como Reino Unido e Alemanha. Para o cientista político Jean-Yves Camus, do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, Bruxelas é a encarnação dos anos de neoliberalismo na Europa, que vieram acompanhados de desigualdade e desemprego, ainda mais forte em regiões rurais e pequenos centros urbanos afetados pela desindustrialização, fruto da globalização.

O neoliberalismo de Bruxelas, diz Camus, contrasta com a cultura social-democrata, de esquerda, ou cristã-democrata, de direita, de um eleitorado que preza o Estado de bem-estar social. Assim, a UE, vista como a defensora da concorrência sem freios - como era descrita no projeto de Constituição Europeia, rejeitado em 2005 por franceses e holandeses -, acabou se tornando o catalisador das insatisfações.

Para Camus, essa imagem piorou com a crise do euro, a partir de 2010, e a generalização das políticas de austeridade fiscal em países como Grécia e Itália. Em 2015, a insatisfação explodiu com a crise imigratória, que expôs a porosidade das fronteiras exteriores da UE. De acordo com Camus, o vínculo entre os eleitores da extrema direita e os desiludidos da globalização é a questão da imigração e dos refugiados. “Sempre houve partidos soberanistas, mas a crise dos refugiados fez o vento virar e a questão da imigração ganhou espaço.”

Para os estudiosos do tema, a UE tem ainda outro problema: o discurso. Bruxelas tenta representar uma “comunidade de valores” humanistas, mas não porta um ideal forte. “A relação natural das pessoas é se reconhecer na nação - somos franceses, italianos, alemães. O que é a UE? Um pacto de valores, uma cultura?”, questiona Camus. “Por falta de identidade positiva, as pessoas só compreendem a proliferação de normas e de burocracia. Para as pessoas simples, a UE significa mais problemas, e não uma garantia de paz e de segurança.”

Para o linguista Damon Mayaffre, do Centro Nacional de Pesquisa Científica, que estuda o Brexit, o discurso “identitário” reage à globalização. “De uma parte, há um terreno populista que favorece o discurso antieuropeu, antissistema. De outra parte, há um discurso de retorno à identidade, que já vem de algumas décadas. Hoje, esse discurso reage à globalização e às ameaças externas, como o terrorismo”, explicou Mayaffre ao Estado. “Esses dois elementos são um argumento forte e inquietante diante do qual o discurso oposto, pró-Europa, sente falta de palavras.”

Segundo o sociólogo Erwan Lecoeur, o neopopulismo se prolifera em um cenário de rejeição à UE, à imigração e ao Islã. Partidos extremistas crescem criticando Bruxelas. Para populistas de esquerda, como o Syriza, na Grécia, e o Podemos, na Espanha, combater a UE faz parte da luta dos “pequenos contra os grandes”.

Já para a extrema direita, trata-se de um populismo com base em questões étnicas e religiosas. “Muitos partidos têm dificuldades para se entender entre eles”, afirmou Lecoeur. “Mas eles se encontram na denúncia da UE como ‘lugar federal’. Eles querem uma Europa de nações.”

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