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Novo problema para Beirute

Classificado como ameaça planetária, alvo de uma coalizão internacional que agrupa dezenas de países, o Estado Islâmico (EI) inquieta com justa razão um país tão nitidamente vulnerável como o Líbano, nação minúscula vizinho da Síria que há décadas vive numa situação de crise quase permanente.

Issa Goraieb, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2014 | 02h03

Mas, curiosamente, o que os libaneses mais têm a temer não é a invasão de seu território pelas hordas de fanáticos sunitas que pretendem combater pela glória de Alá. É bem verdade que nas últimas semanas combatentes do EI e da Frente al-Nusra (uma filial da Al-Qaeda) marcaram pontos consideráveis. Provenientes da Síria, eles ocuparam o povoado fronteiriço de Ersal e desde as primeiras horas da batalha capturaram e mantiveram reféns pelo menos 30 soldados e policiais libaneses. Exigindo a soltura de dezenas de seus camaradas terroristas presos no Líbano e na Síria, eles decapitaram dois dos militares cativos para apoiar suas exigências e durante o fim de semana ameaçaram executar um terceiro. Embora o Exército tenha conseguido estabilizar a frente de Ersal, ele continua sem conseguir controlar a fronteira entre Líbano e Israel que, aliás, ainda não foi demarcada com precisão.

Impedidos de prosseguir seu avanço no terreno, os terroristas conseguiram mesmo assim aprofundar ainda mais o velho fosso que separa os dois grandes ramos do Islã. Apesar de condenarem a barbárie do EI, os sunitas libaneses, em sua grande maioria, acusam o Hezbollah xiita e pró-Irã de ter arrastado o país inteiro para o conflito sírio ao enviar seus milicianos para combater do lado do ditador Bashar Assad.

De terem, em suma, convidado o EI a entrar no Líbano. O Hezbollah retruca acusando os sunitas de mal disfarçadas simpatias pelos terroristas. Este debate explosivo se traduziu numa série de capturas por um lado e por outro de cidadãos das duas comunidades. Não demorou para se instalar uma crise no governo de unidade - uma parte do qual, aliás, contesta a decisão do Líbano de se unir à coalizão internacional centralizada pelos Estados Unidos. Mesmo a oportunidade de negociação para a libertação dos reféns foi tema de acirrada polêmica e o Estado precisou recorrer a uma mediação do Catar.

Não menos alarmante é o fluxo de refugiados sírios, cujo número é estimado hoje em mais de um milhão. Os refugiados estão vivendo miseravelmente em campos improvisados que recebem magras ajudas alimentares e sanitárias de organizações internacionais. Esses infelizes acabam de se juntar aos 400 mil palestinos residentes em solo libanês - isto é, os refugiados constituem agora um quarto da população de um país que já enfrenta enormes problemas sociais, políticos e econômicos.

Há quatro meses, o Líbano está sem presidente, pois a Assembleia Nacional não consegue reunir o quórum necessário para eleger um novo chefe de Estado, posto tradicionalmente ocupado por cristãos maronitas. O próprio Parlamento sofre uma séria crise de legitimidade: como a situação de segurança impede qualquer eleição legislativa, a assembleia atual se prepara para renovar seu próprio mandato pela segunda vez em dois anos e é chamada a resolver questões particularmente vitais.

Diante de uma sucessão de greves de uma abrangência sem precedentes, ela terá de encontrar a fórmula mágica para outorgar aumentos salariais aos funcionários públicos e também aos professores dos setores público e privado, sem arruinar completamente um país já atribulado por uma dívida pública que beira os US$ 60 bilhões.

Como se não bastassem suas angústias existenciais causadas pelos conflitos regionais, o cidadão libanês se vê igualmente pressionado pelas dificuldades na vida cotidiana. A taxa de desemprego aumenta regularmente e, com ela, a da criminalidade. Em meio à corrupção, a rede elétrica continua deficiente um quarto de século após o fim da guerra civil e a população se encontra à mercê de empresas privadas de geração de energia que servem - a preço de ouro - bairros inteiros; e até a água começa a faltar num Líbano outrora invejado por seus recursos hídricos.

É neste mesmo quebra-cabeça libanês que persiste, a despeito de tudo, uma trepidante atividade cultural.

Concertos e festivais internacionais se sucederam ao longo do último verão e os libaneses puderam aplaudir, entre outros, Stromae, Gérard Depardieu e os Coros do Exército Vermelho. Coragem? Sem dúvida. Inconsciência? Talvez. Vontade de viver? Certamente. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*Issa Goraieb foi correspondente do 'Estado' no Líbano entre os anos 70 e o início de 2000. Nos últimos anos, dedicou-se à direção de redação do jornal em língua francesa de Beirute 'L'Orient-Le Jour'. Considerado um dos mais importantes intelectuais do Oriente Médio, ele volta, a partir deste domingo, 28, a escrever uma coluna quinzenal no jornal

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