Novo secretário dos EUA para AL ignora Brasil

Se o ministro do comércio exterior dos Estados Unidos, Robert Zoellick, não estivesse no momento em visita de três dias a Brasília e São Paulo para conversar sobre o comércio bilateral, a rodada global de negociações na Organização Mundial de Comércio (OMC) e futuro da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), as mais de duzentas pessoas que foram nesta terça-feira a um hotel da capital americana para ouvir o discurso inaugural do novo secretário de Estado-adjunto para a América Latina, Otto Juan Reich, poderiam concluir que o Brasil e a Alca desapareceram das prioridades de Washington.Cubano naturalizado americano, Reich não mencionou o País ou o projeto do acordo comercial hemisférico uma única vez no texto que preparou para sua estréia como principal porta-voz da administração Bush para a região. Falou, de passagem sobre ambos ao responder às perguntas da platéia. Também de passagem, abordou a questão da segurança.Velha política anti-castristaMas a julgar por seu discurso e mesmo pelas observações que fez de improviso, as preocupações do departamento de Estado são outras. Porta-voz assumido do movimento anti-castrista da Flórida, Reich disse que os EUA nada farão que possa ajudar "o regime fracassado, corrupto, ditatorial e assassino" de Cuba. "Não vamos ajudar Fidel Castro a ficar no poder abrindo nosso mercado para Cuba." Na Colômbia, "não há insurgência, mas três grupos terroristas extremamente violentos grupos terroristas e criminosos".Os outros dois focos de preocupação - Haiti e a Argentina - derivam do mesmo tipo de problema, na visão de Reich. No Haiti, há uma herança de dois séculos de maus governos. Na Argentina, "um amigo e aliado próximo dos EUA", a crise atual é o resultado "70 anos de má administração de recursos" e de "corrupção".CorrupçãoAfora a manutenção do embargo econômico a Cuba, que já dura mais de quatro décadas, Reich indicou que não há muito que os EUA possam fazer. "Soluções para os problemas do hemisfério, seja para a crise financeira na Argentina ou a falta de liberdade política, estão dentro das fronteiras desses países", disse ele. "Nós podemos ajudar apenas aqueles que querem ajudar-se a si próprios".A corrupção está na base de todos os males da América Latina e será vigorosamente combatida pela administração Bush, disse o funcionário. Como? O departamento de Estado simplesmente revogará ou não mais expedirá vistos de entrada para latino-americanos que roubarem dinheiro dos governos de seus países.Nada de DisneylândiaEssas pessoas "não poderão aposentar-se em Key Biscaine, não poderão ir à Disney World (Flórida) e suas esposas não poderão fazer compras na Quinta Avenida (em Nova York)", disse Reich. "Se ficarem doentes, não poderão ir a Houston para examinar o coração e terão que fazer isso em seus próprios países".A política não é nova. A administração Clinton, por exemplo, negou visto de entrada ao ex-senador Luiz Estevão exatamente por essa razão. Mas o alto funcionário não explicou o critério que Washington usará para determinar quem é corrupto e chegou a indicar que a tarefa será complicada porque, segundo ele, outro grande problema da América Latina é que os sistemas judiciários da região são falhos.Sobre o tema, Reich disse, primeiro, que "o problema são as leis". Logo depois, ele afirmou que o problema é que "eles não aplicam as leis". Mas, em tempo, fez uma importante ressalva. "Não sou advogado e não sei se o que estou dizendo é correto".Atividades imprópriasEx-embaixador da administração Reagan na Venezuela, Reich foi nomeado em janeiro, durante um recesso parlamentar, depois que a maioria democrata no Senado recusou-se a sabatiná-lo, alegando que ele se envolveu em atividades impróprias nos anos oitenta, quando dirigiu os esforços de propaganda da Casa Branca na América Central.Sobre isso, ele fez questão de dizer, nesta terça-feira, que "tem muito orgulho de tudo o que os Estados Unidos fizeram na América Central 20, 15 anos atrás". Reich disse também que as atividades de lobista que exerceu no setor privado não o desqualificam para tratar de questões relacionadas com Cuba, a não ser em casos que envolvam ex-clientes. Alguns deles estavam na platéia, como o próprio Reich fez questão de assinalar.

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