Rayner Peña/EFE
Rayner Peña/EFE

Novo surto de covid-19 piora a crise econômica na Venezuela; entenda

Segunda onda atinge país em meio à tentativa de reabertura da economia

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2021 | 10h00

CARACAS - Crise, hiperinflação, queda do poder aquisitivo, sanções econômicas: a Venezuela, abandonada por cinco milhões de seus 30 milhões de habitantes, está em um abismo difícil de sair, enquanto a chegada de uma segunda onda da pandemia torna o cenário pior.

"É uma situação de salve-se quem puder", afirmou à Agência France-Presse o economista Asdrúbal Oliveros.

Coronavírus

A segunda onda da covid-19 atingiu a Venezuela no momento em que o país iniciava a reabertura de sua economia após meses de confinamento.

O surto, que as autoridades chamam de "mais agressivo" e vinculam à variante brasileira do vírus, provocou o colapso de hospitais e clínicas.

O governo reconhece apenas 177 mil casos de covid-19 e 1.800 mortes causadas pela doença, mas ONGs e a oposição questionam os números e afirmam haver um elevado nível de subnotificação pela falta de testes de diagnóstico.

Política

O presidente Nicolás Maduro é quem manda na Venezuela, embora mais de 50 países, incluindo os Estados Unidos, reconheçam o líder da oposição, Juan Guaidó, como presidente. 

"É uma ficção", disse à Agência France-Presse o chanceler Jorge Arreaza sobre o poder de Guaidó. "Quando um (governo) europeu quer falar com a Venezuela, liga para mim. Há um Estado, um governo que funciona".

Uma mudança de governo não está no horizonte de curto prazo, concordam os analistas.

Sanções

O governo Maduro apresenta as sanções como a origem de todos os problemas do país.

"Quando uma pessoa não recebeu em 2017 seu tratamento de HIV, quando uma pessoa não foi vacinada em dezembro ou janeiro, de quem é a responsabilidade?", perguntou Arreaza, antes de afirmar que multinacionais como Phillips e Siemens negam assistência técnica ou peças de reposição para o sistema elétrico e de saúde.

"As sanções complicam o trabalho das autoridades, mas também servem de desculpa para o caos econômico", afirmou um observador europeu que pediu anonimato. 

A oposição defende a manutenção das sanções, mas alguns representantes concordam que as medidas prejudicam mais o cidadão comum que o governo.

Petróleo

A produção de petróleo, que chegou a 3,3 milhões de barris diários, é atualmente de pouco mais 500 mil barris, de acordo com os números oficiais. O governo também atribui a questão às sanções.

José Toro Hardy, ex-diretor da estatal PDVSA, refuta a versão. "O dano começou muito antes de 2017. A indústria petroleira se deteriorou gravemente pela falta de investimento, de manutenção". 

A Venezuela, com as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, foi obrigada a importar gasolina do Irã, apesar de ter quase 20 refinarias.

Estado reduzido

O Produto Interno Bruto (PIB) é calculado em 48 bilhões de dólares para 2020, o que representa uma queda de mais de 80% na comparação com 2013.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê uma nova contração em 2021.

A Venezuela passou do grupo das 30 maiores economias do mundo à posição 100. "O tamanho do Estado foi drasticamente reduzido", explica Oliveros, em referência ao modelo rentista que sustentou elevados subsídios nos preços da gasolina, energia elétrica e alimentos.

As importações também foram divididas por 10 desde que Maduro chegou ao poder, destaca o especialista.

Economia informal

Com a queda da economia, o setor informal disparou no país. "As pessoas têm mais de um emprego, vendem tortas, trabalham como taxistas, compram algo dos Estados Unidos e revendem", aponta Oliveros.

"Há uma economia de procura", explica.

Oliveros destaca ainda a "economia paralela criminosa, com a exportação do ouro, narcotráfico, etc".

Por exemplo, o contrabando de gasolina se expandiu no país, com exceção de Caracas./AFP

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